Mundo Operário

OPINIÃO

A luta dos trabalhadores franceses é um exemplo para o mundo todo

Rodrigo Tufão

Metroviário, cipista da linha 1 Azul São Paulo

terça-feira 31 de dezembro de 2019| Edição do dia

Em 2018 os coletes amarelos na França mostraram um grande potencial de resistência contra os planos de austeridade. Manifestações, cortes de rua e greves colocavam em risco o projeto das elites francesas.

Em 2019 o exemplo dos coletes amarelos encontrou ressonância em diversos setores organizados dos trabalhadores, como os ferroviários e metroviários. Desde outubro diversas mobilizações e greves se estendem contra a reforma da previdência de Macron. Nem as festas de fim de ano foram suficientes para esfriar os trabalhadores dos transportes que continuam firmes nas ruas e com suas atividades paralisadas, mantendo greves de resistência que são um exemplo para todo o mundo.

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Aumento das jornadas de trabalho, diminuição de salários e cortes de direitos sociais foram e ainda são a receita da burguesia em todo o planeta para jogar a crise econômica mundial nas costas dos trabalhadores.

Desde 2008, a palavra "austeridade" é muito ouvida em diversos países. A crise estrutural do capitalismo, iniciada em meados desse ano, impõe ajustes muito fortes ao nível de vida da população: os patrões e seus governos atacam com toda fúria os mínimos direitos sociais para manter suas taxas de lucro às custas da miséria de milhões. Há 11 anos, promessas de que os cortes são necessários para melhorar a economia são divulgadas pelos monopólios midiáticos e seus especialistas, na tentativa de convencer os trabalhadores a aceitarem pacificamente a deterioração das suas condições de vida. Pois bem, mais de uma década de ajustes e a única coisa que melhorou foram os lucros dos bancos e das grandes corporações. Para os trabalhadores sobram subempregos e mais promessas de ajustes.

Muitas lutas foram travadas nesses 11 anos, a começar pelas greves gerais em diversos países europeus. A Primavera Árabe em 2010, mobilizações em países da América Latina, onde balançaram os governos de frente popular que desde os anos 2000 hegemonizavam o continente.
Os resultados dessa década de mobilizações foram variados, em alguns países surgiram governos de centro esquerda, em outros governos de direita, em outros aconteceram golpes, onde ascenderam governos de extrema-direita, como no Brasil. O que coincide nesses resultados é que todos esses governos continuaram atacando os direitos sociais para preservar a taxa de lucro de suas burguesias, sem titubear atacam salários, aposentadorias, direitos básicos como saúde e educação entre outras medidas ajustadoras.

Além da França, o ano de 2019 termina com levantes muito importantes em países centrais nos seus continentes e na economia mundial. O levante da juventude chilena acompanhada dos trabalhadores coloca o regime herdeiro de Pinochet na corda bamba. A princípio manifestações contra o aumento das tarifas do transporte se transformaram em grandes mobilizações com a classe operária entrando em cena, parando a produção com grandes greves gerais e deixando o governo do direitista Piñera em cheque. A brutal repressão do governo e os anos de ataques aos direitos sociais, fazem com que mesmo Piñera recuando e dando algumas concessões, como aumento do salário mínimo, diminuição do salário dos políticos e etc.... as ruas continuam a ferver e o regime chileno continua por um fio.

As burocracias sindicais, fomentadas de acordo com o desenvolvimento histórico de cada país, são umas das principais responsáveis para que esses ajustes sejam implementados. Incorporadas até a alma aos governos de plantão, as burocracias sindicais dividem os trabalhadores para que os ajustes passem. Exemplos não faltam, podemos citar as mobilizações de 2013 no Brasil, onde as centrais sindicais fizeram de tudo para separar os trabalhadores dos movimentos de rua, não organizando greves gerais que somadas a juventude nas ruas, poderiam colocar as demandas sociais em outro patamar de conquistas. Ao invés disso, preferiram se unificar a direita e separar a juventude dos trabalhadores, resultando no golpe de Estado de 2016 e a ascensão da extrema-direita na figura sinistra de Bolsonaro.

Em todo o mundo, as burocracias sindicais se aliam aos governos e às elites para dividir os trabalhadores e evitar que grandes mobilizações derrotem os planos de ajustes. Manobram de todas as formas, engessando os sindicatos e destruindo qualquer tentativa de organização independente das bases. Sem combater as burocracias nos sindicatos, será muito difícil derrotar os planos da burguesia mundial em descarregar a crise econômica nas costas de quem trabalha.

Os últimos anos de crise mostraram que nem a centro esquerda, nem a direita, são uma alternativa para os trabalhadores. É necessário superar a burocracia sindical para levantar partidos revolucionários com base na classe operária, retomando os sindicatos para as mãos dos trabalhadores e derrotando as burguesias em cada país. É preciso ser consciente que o capitalismo não tem mais nada a oferecer, se faz urgente a organização independente dos trabalhadores para derrotar esse sistema. As mobilizações no Chile e na França são o maior exemplo nesse final de 2019, mostrando que é possível derrotar os governos, mais do que isso, é necessário fazer a revolução socialista.




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