Internacional

CHE GUEVARA

A despedida de Che da revolução cubana

No dia 3 de outubro de 1965, tornava-se conhecida a carta de despedida que Ernesto "Che" Guevara deixou para Fidel Castro. A publicação desta carta se deu pela primeira vez no primeiro Comitê Central do Partido Comunista Cubano.

segunda-feira 9 de outubro| Edição do dia

Naquele encontro, Fidel declarou: "Existe um ausência em nosso Comitê Central de alguém que possui todos os méritos e todas as virtudes no mais alto grau para pertencer a ele mas que, todavia, não figura entre os membros de nosso Comitê Central."

Guevara marchava em direção ao Congo e a revolução cubana aprofundava-se no caminho da stalinização liquidando todos os vestígios democráticos do início, algo que despertava a simpatia de milhões em todo o mundo. Já em 1963, os trotskistas do POR-Voz Proletária tiveram as edições de A Revolução Traída roubadas, logo depois de seus dirigentes terem sido acusados por stalinistas locais -que viriam a apoiar Batista- de serem agentes contrarrevolucionários que queriam invadir Guantanamo para provocar uma reação imperialista. Pouco tempo depois, seriam encarcerados.

Por outro lado, Che, que tinha ocupado o Ministério da Indústria, retirou-se derrotado internamente depois de perder o debate econômico com representantes soviéticos como Charles Bettelheim. Enquanto Guevara propunha sob a assessoria do economista marxista e dirigente trotskista Ernest Mandel, a necessidade da industrialização mesmo que seja da indústria de consumo com a centralização dos recursos, exigindo aos aliados dos países "socialistas" um intercâmbio igualitário, os representantes soviéticos defendiam o intercâmbio de açúcar por combústivel e itens de subsistência, condenando Cuba a se manter no monocultivo.

Esta debilidade estrutural da economia cubana agravou as consequências do bloqueio norteamericano e é uma das rachaduras características que movem a restauração capitalista na Cuba de hoje. O Che que criticava a coexistência pacífica dos soviéticos com o imperialismo ianque e que propunha a extensão da guerrilha por toda a América Latina para abrir uma segunda frente complementar à do Vietnã, abandonava a luta política no interior da revolução cubana. Honestamente, é preciso dizer que Guevara nunca combateu a stalinização com uma política contrária à formação de uma burocracia colocando que o Estado Operário que nascia deveria ser sustentado por organismos democráticos das massas, apenas chamou operários e camponeses a serem disciplinados sob a liderança de Fidel.

Em sua despedida repleta de elogios e um sentimento de afeto por parte do líder cubano Fidel Castro, Che já assinalava os rumos que tomaria: "Sinto que cumpri a minha parte do dever que me atava à revolução cubana em seu território e me despeço de ti, dos companheiros, de seu povo, que já é meu (...) Outras terras do mundo reclamam pelos meus modestos esforços. Eu posso fazer o que te é negado pela sua responsabilidade à frente de Cuba e é chegada a hora de nos separarmos."

A carta termina com uma definição combativa de Che "lutar contra o imperialismo onde quer que esteja; isto conforta e cura qualquer ferida". Lamentavelmente, o revolucionário argentino-cubano desprezou a organização das massas operárias e camponesas como a forma de luta contra o imperialismo e seus agentes das burguesias nacionais, aos quais denunciava corretamente, e se lançou em uma aventura guerrilheira alienada das lutas reais das massas. Aventura que terminou tragicamente em uma pequena escola de La Higuera, na Bolívia, dando lugar ao mito.

Publicado originalmente em 4 de outubro de 2014.

Tradução: André Arruda




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