Juventude

BOLETIM FAÍSCA

A Unicamp e os ecos de maio de 68

Como podemos enfrentar os ataques da reitoria e criar um movimento estudantil perigoso, combativo e subversivo para ir à fundo nas mazelas sociais dentro e fora da universidade? Qual a relação com o movimento de maio de 68?

domingo 11 de março| Edição do dia

O ano de 2016 abalou a Unicamp. Com assembleias de mais de 1000 estudantes e uma mobilização que chegou à maioria dos institutos, votando ocupação de reitoria, realizamos uma das maiores greve que essa universidade já viu e conquistamos as cotas raciais e indígenas, o aumento das bolsas e a ampliação da moradia estudantil. Pelo segundo ano consecutivo assistimos ao congelamento da contratação de professores e funcionários, o que coloca em risco a existência de alguns cursos, bem como compromete toda a qualidade de ensino e pesquisa da universidade. Há ainda a demissão de 230 funcionários terceirizados da segurança e um aumento de 50% sobre o valor do bandejão, que dificulta a permanência de milhares de estudantes na universidade. Não sendo suficiente, vimos a continuidade de medidas repressivas contra estudantes que participaram da greve de 2016.

Apesar da falácia de se mostrar como a reitoria do diálogo e da diversidade, as lutas contra as medidas autoritárias do Consu (órgão de decisão da universidade no qual estudantes e trabalhadores têm juntos apenas 30% de peso de voto) foram reprimidas por Knobel, com ameaça de polícia no campus e votações surpresas para impedir nossa mobilização. Seu “diálogo” é tão falho que o contingenciamento orçamentário e o aumento do bandejão não foram discutidos amplamente com toda a comunidade acadêmica, sem abertura do livro de contas para que pudéssemos deliberar coletivamente sobre onde de fato está a crise.

Trata-se de mais uma prova de que a Reitoria da Unicamp serve como fio condutor de uma crise que se expressa internacional e nacionalmente, com o objetivo de que sejam os trabalhadores e o povo pobre a pagarem por ela. Os cortes bilionários na educação a nível federal, com a aprovação da PEC do Teto de Gastos, têm seu reflexo em uma profunda crise nas universidades, sendo a UERJ seu símbolo, e o fim de programas como o PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência). Na Unicamp, não apenas precariza, ataca e sobrecarrega os trabalhadores da universidade, como impede que as bolsas que conquistamos sejam garantidas de fato, assim como a ampliação da moradia. O desmonte na saúde que ocorre em diversos hospitais de Campinas já é sentido no HC, com corte de mais de 30% de leitos e o congelamento da contratação de 80% de trabalhadores da área, além da falta de materiais básicos e medicamentos. Enquanto isso, a maioria das pesquisas que seguem garantidas se voltam de costas às necessidades dos trabalhadores e do povo pobre, beneficiando os lucros das empresas que sugam nosso conhecimento e impedem o livre desenvolvimento da ciência e das potencialidades humanas.

Um movimento estudantil perigoso para enfrentar os ataques

Nos 50 anos de Maio de 68, queremos resgatar o melhor da experiência da luta estudantil, que aponta que os estudantes podem se dar grandes tarefas e objetivos. Foi em maio de 68 que estudantes ocuparam suas universidades contra as medidas de repressão de De Gaulle (presidente da França naquele momento), e inspiraram milhares de trabalhadores a lutarem contra os ataques, culminando nas ocupações de fábricas e universidades. Realizaram uma das maiores greves gerais da história e não se contentaram em lutar por pequenas e instáveis melhorias, mas sim transformar por completo a universidade para que ela estivesse a serviço da transformação social.

Os estudantes, que, com os trabalhadores, fizeram barricadas contra o exército de De Gaulle e o fizeram renunciar um ano depois, continuam inspirando os métodos e objetivos que o movimento estudantil precisa ter hoje. Ódio à burocracia sindical e estudantil que negocia pelas costas do movimento e impede sua autonomia; aliança operário-estudantil e confiança na ação direta como forma de transformar a sociedade são características exemplares que o maio de 68 ecoa ainda em nós 50 anos depois. Tudo isso está muito longe de um DCE gerido pelos grupos políticos UJS (União da Juventude Socialista) e Apenas Alunos (que surgiu como resposta à greve da Unicamp, com membros do MBL). Precisamos refletir qual é o movimento estudantil necessário para se enfrentar com os ataques dentro da Unicamp e fora dela.

SEJAMOS REALISTAS, EXIJAMOS O IMPOSSÍVEL.

CORRAM CAMARADAS O VELHO MUNDO ESTÁ ATRÁS DE VOCÊS.

NÃO TOMEM O ELEVADOR, TOMEM O PODER.

Essas eram algumas das frases famosas de maio de 68. Frases que expressam um movimento estudantil perigoso e que queria subverter a vida em todos os seu aspectos, que fez parte de uma onda revolucionária global que contou com revoltas estudantis e greves no mundo todo, além de grandiosos e inspiradores processos revolucionários e de libertação nacional. Esses processos por muitas vezes precisaram lutar não só contra o capitalismo, mas também contra o chamado “socialismo real”, o stalinismo, que traía mobilizações e buscava frear o espírito revolucionário de jovens e trabalhadores.

É nesse movimento estudantil que queremos nos inspirar para enfrentar tanto os ataques de Knobel, quanto os dos golpistas Temer, Alckmin e todos os políticos da burguesia. Não vamos deixar que nos enfiem a crise goela abaixo, e façamos o movimento estudantil se tornar perigoso novamente baseado nos seus históricos métodos de luta para que voltemos a almejar a construção de uma nova realidade. Por isso queremos tirar a universidade das mãos dos empresários e da burocracia acadêmica, e colocá-la nas mãos dos trabalhadores e oprimidos. Começando pela radicalização do acesso permitindo que negros e negras, pobres e periféricos possam estar dentro da universidade sem serem barrados pelo filtro do vestibular e também não precisem se endividar em universidades privadas, que estas sejam estatizadas e façam parte de um único sistema de ensino público controlado pelos estudantes e trabalhadores.




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