A FIT é um exemplo para a esquerda internacional

Apresentamos uma transcrição da apresentação de Wladek Flakin da corrente internacional FT-QI (Fração Trotskista – Quarta Internacional) no evento convocado em Atenas pela coalizão ANTARSYA, sob o título “Guerra, Imperialismo e internacionalismo”. Se comemoravam os 100 anos da Revolução de Outubro e os 42 anos do massacre no Instituto Politécnico de Atenas.

quinta-feira 23 de novembro| Edição do dia

Antes de tudo obrigado pelo convite. Ainda que tenha sido feito originalmente pelo PTS, e nenhum companheiro poderia assistir, sou um mesmo da mesma tendência internacional, e viajei de Berlim para lhes transmitir alguns elementos centrais da experiência Argentina.

América Latina é hoje um laboratório da luta de classes. A princípios do no século vimos uma onda de movimentos “pós neoliberais”, muitos países tiveram governos chamados “populistas” ou “progressistas” cuja influência se estendeu para o mundo todo. Os projetos neo reformistas europeus, especialmente o Podemos, mas também o Syriza, se basearam em algumas ideias dos populismos latino-americanos como o de Hugo Chavez na Venezuela e o de Evo Morales na Bolívia.

Mas o ciclo dos governos pós neoliberais terminou, todos eles acabaram em desastres. Na Argentina, por exemplo, o kirchinerismo está envolvido em numerosos escândalos de corrupção. Esses governos de centro esquerda abriram a porta para uma direita muito agressiva em todo o continente. Mauricio Macri, uma espécie de Trump argentino, ascendeu à presidência derrotando o candidato kirchinerista e já implementou ataques terríveis aos trabalhadores e ao povo pobre.

Há um claro giro a direita. Mesmo assim, neste contexto, temos visto um grande avanço eleitoral da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT) que nas últimas eleições legislativas obteve 1,2 milhões de votos, que significaram 2 deputados nacionais e mais de 40 cargos a nível provincial e local.

A FIT teve candidatos em 22 das 24 províncias e obteve mais de 500 mil votos na província de Buenos Aires, que concentra a maioria da classe operária industrial. Em Jujuy, Alejandro Vilca, gari municipal, alcançou 18,3% dos votos e derrotou o candidato do peronismo na capital provincial.

Mas o que é a FIT? É uma coalisão de três partidos trotskistas composta pelo PTS, PO (organização irmã do EEK grego) e Izquierda Socialista. O grande mérito da FIT foi manter-se independente dos governos populistas e progressitas e sua comitiva.

A esquerda argentina sofreu uma grande divisão em 2008 com a chamada crise do campo, em que as grandes patronais agrárias mantiveram um lock-out por mais de 4 meses durante o governo kirchinerista. Enquanto uma parte da esquerda apoiou o governo e outra, como o MST (Movimiento Socialista de los Trabajadores), se colou com a oligarquia agrária, dois dos partidos que formariam a FIT se mantiveram independentes de ambos os campos burgueses.

Mas a FIT não é um partido e, portanto, existem diferenças entre seus membros, diferenças que se discutem abertamente e publicamente. Por exemplo, sobre o golpe institucional no Brasil, a crise venezuelana, ou a guerra na Síria. E, mesmo assim, apesar das diferenças, a frente se manteve em uma posição de independência de classe por mais de 6 anos, levantando um programa anticapitalista que culmina com a necessidade de um governo operário de ruptura com o capital. Esta é uma diferença fundamental com o Syriza e sua ideia de “governo de esquerda” baseado nas instituições do regime burguês. A FIT luta por um governo baseado em órgãos de auto-organização dos trabalhadores. Seu programa eleitoral se baseia em demandas transicionais como a redução da jornada de trabalho sem afetar o salário (6 horas por dia, 5 dias semanais).

Durante a campanha, o PTS usa todos os tipos de meios – desde os métodos tradicionais às redes sociais e conteúdos que viralizam – para alcançar a maior quantidade de pessoas com sua mensagem, principalmente a juventude. Nicolás del Caño, o principal candidato, conquistou um enorme apoio entre os mais novos do que 35 anos, coisa que não é coincidência, já que são os que mais sofrem com a precarização, o desemprego e a crise do sistema educativo.

O PTS também construiu um jornal digital, La Izquierda Diario, que tem um alcance de mais de um milhão de visitas por mês. É um jornal verdadeiramente dos trabalhadores com mais de 100 artigos por dia que compete com parte da imprensa burguesa. Como parte da mesma iniciativa, se desenvolveu uma rede internacional de diários em 5 diferentes idiomas.

A FIT tem presença parlamentar desde 2013. Companheiros como Nicolás del Caño e Myriam Bregman usam seus cargos no parlamento como tribunas populares, reivindicando, por exemplo, que todos os políticos tenham o salário de um professor. Eles mesmos recebem como um professor e doam o resto do salário para as lutas dos trabalhadores. Del Caño, particularmente, esteve na linha de frente das lutas e várias vezes acabou se ferindo pelas repressões dos diferentes governos.

Este exemplo de parlamentarismo revolucionário se complementa com o trabalho nas fábricas e nos locais de estudo. Este ano, o conflito da Pepsico foi liderado por trabalhadores do PTS e apoiado nas ruas pelos parlamentares do partido. Os próprios candidatos são muitas vezes operários, como Raúl Godoy da cerâmica Zanon que há alguns anos visitou Vio.Me na Grécia, ou Claudio Dellecarbonada, condutor do metrô em Buenos Aires.

Estas novas bancas estarão à serviço da luta contra as medidas de austeridade que prepara o macrismo junto com a patronal. A reforma trabalhista vai ser aprovada pelo congresso graças aos votos do kirchinerismo e do peronismo em geral.

Estas eleições estiveram atravessadas pela crise aberta pela desaparição de Santiago Maldonado a mandos da gendarmería em Chubut, no Sul do país, em um protesto contra os grandes latifundiários. A repressão foi coordenada pelo chefe do gabinete do ministério de segurança. O corpo sem vida de Santiago foi encontrado dias antes da eleição definitiva. Centenas de milhares se mobilizaram, chamando a uma ação internacional nas embaixadas argentinas no primeiro de dezembro.

Para fechar, como a FIT e o PTS conquistaram tanta influência? Lutando pela independência de classe enquanto se constroem frações revolucionárias nas fábricas, colégios, universidades, nos movimentos de mulheres e LGBT.

Contra o senso comum oportunista que diz que temos que nos aliar com o reformismo e diluir nossos programas para ganhar influência de massas, a FIT é um exemplo real de que não é assim. É possível chegar à milhões com um programa revolucionário. Há cem anos da Revolução de outubro, a conclusão principal é que é preciso organizar uma revolução. E para isso, é necessário um partido. E esse partido não pode se construir na noite anterior da tomada do poder. Ainda estamos longe do partido que necessitamos, mas me atrevo a dizer que estamos começando a delineá-lo na Argentina. Acredito que a FIT é um exemplo para a esquerda internacional e que a esquerda deve se organizar internacionalmente sobre a base da independência de classe e de um programa revolucionário. Esperamos que ANTARSYA seja parte deste processo.




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