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Balanço da Greve da USP 2023
O Movimento Estudantil da USP se ergueu novamente: superar o entrave de suas direções para preparar novas batalhas
Bianca Coelho
Mariana Duarte
Estudante | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
Faísca USP

No segundo semestre de 2023 os estudantes da USP, após cerca de 7 anos, realizaram uma greve que se alastrou por diversos cursos, tomando conta de todo o campus Butantã e demais da capital, Lorena e Ribeirão Preto, denunciando que a USP é a universidade dos rankings internacionais da falta de professores, funcionários e permanência estudantil. Os estudantes se levantaram contra a Reitoria e o governo do estado novamente, mas se depararam com o entrave de suas próprias direções, que abriram mão da luta no momento decisivo. É preciso tirar as lições necessárias deste processo para preparar os futuros embates contra Tarcísio, na perspectiva de batalhar por entidades estudantis independentes do governo Lula-Alckmin e que confiem na força da luta, em aliança com os trabalhadores para arrancar nossas demandas.

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É preciso partir de dizer que enquanto escrevemos estas linhas, sob os olhos do mundo se desenvolve uma das principais atrocidades contra a humanidade da história recente: o massacre do Estado de Israel contra o povo palestino, que luta bravamente há décadas contra a opressão genocida e colonialista e hoje se enfrenta com uma nova Nakba.

A reflexão que pretendemos iniciar neste texto é como fazer para que a juventude e o movimento estudantil voltem a ter força e cumprir papéis históricos, afinal historicamente o movimento estudantil já se colocou como ponta de lança de grandes revoltas sociais. Por isso, não podemos iniciar esse texto sem lembrar que hoje mesmo, em todo o mundo, acontecem manifestações de milhares nas ruas em locais de trabalho, protagonizadas em especial pela juventude, contra o massacre colonialista que ocorre na Palestina. O movimento estudantil da USP nunca ficou de fora dessas mobilizações, e mais do que nunca precisa estar por dentro, tendo em vista os absurdos convênios que a universidade mantém com Israel, que precisam ser rompidos.

Os antecedentes da greve

A entrada de um governo de frente ampla no país, após anos de bolsonarismo reacionário, pandemia e aumento exponencial da piora das condições de vida, significou para a juventude e a população de conjunto, um processo de aumento das aspirações individuais e coletivas. Se ao longo dos anos de governo Bolsonaro, o que primava era um sentimento de resistir aos ataques que vinham de maneira intensa, com a entrada de Lula-Alckmin na presidência, a ideia de “reconstrução do país” após o desastre da extrema direita, passou a ser recorrente no imaginário. Do ponto de vista das universidades, esse sentimento também se traduziu na ideia de reconstrução, no marco de aspirações mais elevadas. No entanto, o aumento das aspirações e a expectativa de restauração pós anos de bolsonarismo, inevitavelmente se choca com a enorme contradição do atual governo: sua política de buscar conciliar o inconciliável. Não é possível atender as demandas dos estudantes e dos trabalhadores ao lado dos que querem descarregar a crise nas nossas costas. Como viemos colocando em inúmeras oportunidades, é essa política de conciliação que fortalece a extrema direita.

A questão que fica é se esse processo que se iniciou de retomada do movimento estudantil na USP após a pandemia não pode já indicar um primeiro choque entre as expectativas e a realidade do novo governo, com um setor da vanguarda estudantil que de alguma forma percebe que o governo Lula-Alckmin não é capaz de responder nossas demandas. Isso se expressa também no próprio fato de que um grande ausente durante toda a greve foi qualquer tipo de apoio por parte de figuras do PT. Pelo contrário, o que vimos foi uma ida absurda de Haddad à USP ao longo da greve para assinar parcerias público privadas. A Reitoria de Carlotti, por sua vez, se sentiu ultrajada com a audácia dos estudantes que ousaram se levantar, relembrando os momentos de “unidade entre todos” no 11 de agosto (em que lançaram um “manifesto pela democracia junto com setores como a FIESP”), sem conseguir entender o porquê tudo mudou.

A realidade é que a universidade muito bem localizada em importantes rankings internacionais, convive com a ameaça de fechamento de cursos inteiros em mais de uma unidade e um desmonte que significa o aumento da precarização do ensino e do trabalho em seu interior.

A indignação com essa situação já vinha se expressando em menor ou maior medida desde o ano passado, mas foi ao longo deste ano de 2023 que um setor de estudantes passou a compreender mais profundamente que a única saída frente a isso que as reitorias e governos entendem é a da luta, com nossos métodos históricos de organização. Ao final do primeiro semestre os estudantes da EACH ocuparam o prédio central da Escola, reivindicando mais professores e permanência estudantil. Já era o indício de que os ventos estavam mudando e com a volta às aulas após as férias de Julho, os estudantes de Letras, impulsionados pela organização dos estudantes do Departamento de Línguas Orientais, revoltados com a situação de fechamento das habilitações de coreano e japonês no noturno, organizaram assembleias massivas, chegando a reunir 800 estudantes para dizer que não iriam aceitar essa situação passivamente.

Com a ameaça de fechamento do prédio da FFLCH por parte da diretoria autoritária de Paulo Martins, que num delírio imaginou que, com um e-mail, seria possível parar os 800 que na mesma semana tinham se reunido na Letras anunciando o cancelamento das aulas, a greve se disseminou por todos os cursos da Faculdade, e de maneira impressionante os estudantes realizaram um ato com mais de mil pessoas na administração da Faculdade, o que obrigou a que o diretor viesse prestar contas, cumprindo mais uma vez um ridículo papel.

A força que se expressou naquelas horas se disseminou rapidamente e na assembleia geral que ocorreu em seguida foi votada a greve geral dos estudantes da USP, chamado ao qual diversos cursos responderam prontamente, votando a greve nas assembleias de curso ainda naquela mesma semana. Na semana seguinte vimos a histórica assembleia da Poli, na qual centenas de estudantes politécnicos atropelaram a direção de direita do grêmio para impor a votação da greve na assembleia (e com piquete!). Seria possível listar diversos exemplos de manifestações espontâneas que deixam suas marcas e consolidam uma greve que de fato teve um caráter histórico. Mas é preciso entender as contradições que marcaram o processo: o que aconteceu com essa força?

Uma greve expansiva mas sem expressões de ativismo massivo

A principal contradição da greve foi o fato de que apesar de ter se conformado como uma das greves mais expandidas dos últimos anos, não se massificou até o final. Ou seja, ocorreu a paralisação efetiva de milhares de estudantes, mas ao contrário do que aconteceu em greves anteriores, como em 2011 e 2013, em que se reuniam 5, 6 mil estudantes em assembleias gerais, a expansividade da greve não se transformou em atividades que de fato expressassem o nível de adesão de estudantes paralisados. O auge nesse sentido foi o importante ato que realizamos até o Largo da Batata, que após uma proposta e batalha da Faísca, se concretizou e foi um momento fundamental do processo, que junto com a greve estadual unificada com metrô e Sabesp dia 3, também serviu para uma mudança de postura da Reitoria, chamando atenção da mídia e da população de fora da USP, e que tinha como principal objetivo de fundo superar essa contradição entre expansividade e massividade do movimento.

No entanto, era preciso que as direções do movimento, do DCE (Juntos, Correnteza e UJC) se colocassem a serviço de enfrentar essa contradição. Isso passava em primeiro lugar por fortalecer os espaços de organização pela base. Não bastava chamar duas assembleias gerais por semana em que a base dos estudantes tinha pouquíssimo espaço para se expressar e apresentar ideias de como seguir o movimento. Era necessário uma política consciente para que em cada curso, em especial naqueles com menos tradição no movimento estudantil e que estavam se enfrentando contra duras expressões de assédio por parte dos professores, a criatividade e espontaneidade dos estudantes pudessem se expressar, com iniciativas concretas para ligar a vanguarda de centenas que estavam nas atividades com a base massiva que apoiava a greve, mas de maneira ainda passiva. Ao contrário, o que ocorreu foram assembleias em que o que primava eram horas de informes das entidades estudantis, dirigidas pelas mesmas correntes do DCE, com um tempo mínimo de intervenção para o conjunto dos estudantes, o que se expressou também na primeira reunião do comando geral de greve, em que as falas ficaram restritas a uma por instituto e tinham como único objetivo informar a situação objetiva de cada curso, por fora de pensar o espaço do comando de greve como um organismo de direção política do processo, que pudesse se colocar a serviço de pensar este principal entrave do movimento.

A estratégia de desgaste e manobra da Reitoria

A Reitoria da USP, ao lado de boa parte da burocracia universitária, diretores das faculdades e professores a la Ruy Braga, o professor ""marxista"" e do PSOL que se mostrou como a principal testa de ferro do Reitor, ao longo de todo o processo buscou de todas as formas negar a realidade de chocante desmonte e precarização da universidade. Em entrevista ao roda viva, o excelentíssimo Reitor Carlotti, poucos dias antes da greve se iniciar, quis transmitir a mensagem de que não havia falta de professores, de que sua gestão era diferenciada, de que a permanência estudantil estava resolvida e que, mesmo com os impactos da reforma tributária no financiamento da universidade, poderíamos confiar tranquilos no governador Tarcísio de Freitas, que em quase um ano de governo já declarou guerra contra os serviços públicos e quer superar o legado privatista do PSDB no estado, com um claro plano de privatizar não somente todo o transporte público, como também a água.

Para o Estadão, já tendo começado a greve, o Reitor deixou claro que defende a política de precarizar para privatizar: defendeu abertamente o aumento do número de professores temporários, que conforme denunciamos ao longo de todo o processo, significa precarização do ensino; e o financiamento das bolsas de permanência por bancos e empresas privadas, buscando se manter intransigente nas demandas da greve. Mas o nível de adesão que se demonstrou, com o movimento dos estudantes sendo dia a dia noticiado pelas principais mídias do país, impedia que a Reitoria se mantivesse intransigente. A Reitoria do “diálogo” buscou então adotar uma estratégia de desgaste da greve: estabeleceu uma dinâmica de “reuniões de negociação” a cada semana, no início sem oferecer absolutamente nada de concreto, ou seja, se recusar a negociar de fato com os estudantes. Até o momento em que isso não foi mais possível e a força da mobilização impôs uma mudança de postura, a burocracia se viu obrigada a começar a ceder em alguns aspectos.

Naquele momento, alertamos aos estudantes o caráter de manobra que havia nas propostas realizadas pela Reitoria, conforme explicamos melhor aqui. A greve havia demonstrado sua força, mas era possível ir por mais em nossas reivindicações. O documento da reitoria representou essa demonstração de forças, mas possuía contradições importantes, como a permissão de punição aos estudantes por unidade e o oferecimento de bandejões aos finais de semana sem garantia de contratação de funcionários, conforme denunciamos incansavelmente ao lado dos trabalhadores do bandejão central. Foi nesse momento que as direções do movimento, representadas pela comissão de negociação que subia semana a semana para as reuniões com o Reitor, começaram a vacilar.

A estratégia de espera passiva e o desmonte da greve

A falta de políticas concretas de organização pela base para massificar a greve, tinha sua contra-cara na estratégia de espera passiva pelas reuniões de negociação com a Reitoria. O que isso significava? Que semana a semana, todas as atividades, calendários e energias do movimento eram determinadas pelas reuniões de negociação, que por sua vez, eram impostas pela vontade da própria reitoria com uma estratégia de desgaste. O movimento estudantil evidentemente não deve negar as reuniões de negociação, mas precisa ter a preocupação de que nelas se expresse a força do movimento, e para isso era necessário mais pensar ações concentradas e massivas como foi o ato do largo da Batata, e não apenas pequenos “atos de pressão” em frente às reuniões. Ou seja, o DCE, junto com os centros acadêmicos que compunham a comissão de negociação, tiveram uma política de subordinar a mobilização aos movimentos da Reitoria, por fora de pensar como se enfrentar com as dificuldades enfrentadas na base de cada curso e de como massificar o movimento.

Bem como não houveram propostas por parte do DCE para buscar a unificação com os trabalhadores da USP, uma aliança estratégica fundamental. O SINTUSP paralisou dois dias em meio à greve, sendo uma importante demonstração para a unificação; entretanto, o DCE não apareceu sequer em uma assembleia do sindicato, bem como não apareceu em iniciativas de panfletagens aos trabalhadores que foram aprovadas na História, na Letras e na Frente de Apoio aos Funcionários, a qual nós da Faísca nos incorporamos junto à estudantes independentes da psicologia e outros cursos. Essa divisão por parte do DCE chegou ao cúmulo quando cantaram vitória com uma medida da Reitoria que precarizava a vida dos trabalhadores do bandejão, com as refeições aos finais de semana sem contratação, em que os funcionários tiveram que fazer uma paralisação e intervir na assembleia estudantil contra essa medida.

Essa política, como não poderia ser diferente, teve como conclusão o processo de desmonte da greve por parte destes mesmos setores. Após o documento da Reitoria, o que observamos se desenvolver dia a dia foi o esforço impressionante de Juntos, Correnteza, UJC, Afronte e Rebeldia de acumular argumentos para enterrar a greve. Cada qual a sua maneira, em diferentes níveis, mas todos unificados para convencer a base estudantil de que o “teto” da luta era determinado pela reitoria, e que havia chegado ao fim.

Juntos e Afronte, como não poderia ser diferente para correntes do PSOL, partido que integra o governo de frente ampla e a cada passo na greve demonstrou confiar mais na institucionalidade e nas reuniões com a reitoria do que na força dos estudantes, se colocaram na linha de frente dos “melhores” argumentos, cantando vitória e colocando a greve já no passado, nos obrigando a ouvir frases como “a greve é só o início da mobilização” ou “a greve é uma tática dentre muitas”. Correnteza e UJC, sempre na tentativa (falha) de aparecer como mais radicalizados, mas repetindo as mesmas frases prontas nos cursos em que são direção dos centros acadêmicos. Rebeldia, por sua vez, buscou se diferenciar do DCE, colocando um discurso de que era necessário fazer um “teste” para ver se o movimento estava a altura de seguir se mobilizando ou não. Nada mais do que uma forma de colocar a responsabilidade do enfraquecimento da greve nos estudantes, culpabilizando os setores mais passivos, sem apontar que essa contradição era fruto da política das direções do movimento. A única crítica que colocavam ao DCE era os responsabilizando pelos antecedentes da greve (por não terem preparado antes os estudantes, com assembleias). Uma crítica correta mas vazia quando não vem junto de uma estratégia que questione as atitudes do DCE também no calor da greve.

A unidade da derrota se cristalizou alguns dias depois na emblemática carta assinada por todas essas mesmas correntes, que de maneira desavergonhada, poucas horas antes da assembleia geral, buscava concentrar todos os argumentos acumulados por dias para tentar convencer (sem sucesso) de que a greve deveria acabar ali. Sendo importante mencionar que para esse objetivo, tiveram que mentir acerca das vitórias da greve, colocando que a Reitoria tinha concedido o gatilho automático para funcionários da USP, o que o SINTUSP no mesmo dia desmentiu em boletim do sindicato.

Mesmo com todos os esforços unitários, em mais uma demonstração de disposição impressionante de luta da vanguarda estudantil que se mobilizou, essas correntes políticas foram derrotadas na assembleia geral que seguiu, e apesar do quase boicote total, os estudantes organizaram um forte ato-festival cultural e político, que reuniu mais de mil pessoas no vão da história durante um dia inteiro, contando com apresentação de dezenas de artistas e se tornando um saldo político importante da greve, que também foi parte de, na FFLCH, fazer diferença para a seguinte postura adotada pela diretoria, que, fruto da força da luta, foi obrigada a se submeter a um acordo de não punição e garantia da entrada de novos professores para as habilitações mais prejudicadas da Letras, o que foi uma conquista muito importante do movimento.

Para além disso, a greve da USP começou a despontar mobilizações em outras universidades, como vimos nas greves da Unicamp, UFMA e outras, o que poderia ter se desenvolvido para uma mobilização nacional do movimento estudantil contra os ataques e cortes à educação dos últimos anos desde o governo Dilma, aprofundados por Temer e Bolsonaro e mantidos por Lula-Alckmin. Nesse sentido, o papel que cumpriu a UNE (União Nacional dos Estudantes) e UEE (União Estadual dos Estudantes) foi se isentar de qualquer responsabilidade e desenvolver medidas de unificação das greves, aparecendo apenas para tirar fotos nos atos. Isso ocorre pois a atual majoritária destas entidades, a UJS (PCdoB) e o PT, subordinam o movimento estudantil ao governo de frente ampla e de conciliação de classes junto aos bilionários da educação; e os setores da “oposição de esquerda”, não só compõem o governo (como o PSOL), mas não se utilizam de suas posições para fazer qualquer tipo de exigência à majoritária, e isso ficou gráfico quando tais setores, que dirigem o DCE da USP e da Unicamp, foram contra uma proposta de plenária unificada com a Unicamp (enquanto ambas estavam em greve), tanto no comando de greve quanto na assembleia geral.

Duas conclusões equivocadas: ceticismo e vanguardismo

Por duas assembleias gerais pudemos ver expressões marcantes dos estudantes da Letras, FAU, EAD, EACH e uma série de outros cursos, deixando claro sua insatisfação com o documento da Reitoria. Nós da Faísca buscamos expressar que a questão da punição aos estudantes e da precarização do trabalho nos bandejões eram motivos suficientes para não aceitar aquela situação. Mas o intenso trabalho de desmonte por baixo, em especial nos cursos que estavam com mais dificuldades de mobilização, conseguiu (finalmente) resultar no desmonte total da greve.

Era o cenário perfeito para a Reitoria buscar de uma vez por todas desmoralizar a vanguarda da greve e dividir os estudantes, aprovando uma medida repressiva sem precedentes históricos, o ofício que abria espaço para reprovação em massa.

Frente a isso, o que vimos se desenvolver, ao contrário do discurso falacioso de “mobilização permanente” utilizado para acabar com a greve, foi um processo de desmoralização de todo um setor importante da vanguarda estudantil. O DCE abandonou os estudantes e o movimento à sua própria sorte, não compondo a assembleia geral já convocada naquele momento. E até o momento atual se recusa completamente a sequer convocar uma assembleia para debater o balanço da greve. O ataque histórico da Reitoria contra os estudantes exigia uma direção que fosse capaz de unificar o movimento estudantil, não dividi-lo.

A conclusão dos estudantes que lutaram não pode ser de que fruto da política das direções a luta não vale a pena. A medida aprovada pela Reitoria demonstra justamente o oposto: a única coisa que pode ameaçar seu projeto privatista é a luta dos estudantes, que caso se unifique com os trabalhadores pode ser ainda mais explosiva. Não à toa foi necessário reprimir o movimento com uma medida que tem como objetivo impedir, pela via do medo e da coerção, novas greves estudantis.

Também não podemos disso extrair que a saída é, também no caminho da divisão do movimento, acreditar que é possível conquistar nossas demandas apenas com aqueles que estavam mais ativos na luta, ou seja, com a vanguarda. É isso que chamamos de vanguardismo, ações que não se preocupam em movimentar a base dos estudantes, que não se submetem aos espaços gerais democráticos de decisão do movimento e que na prática acabam retirando a responsabilidade do DCE, deixando-o em uma posição cômoda de simplesmente se ausentar do processo, sem pensar como ter políticas para obrigar a que essas correntes se movimentem a serviço da luta. Não é possível fazer avançar o movimento com assembleias gerais apenas encaminhativas, sem direito a falas e sem discussões políticas. É esse debate que fazemos com a ocupação do Bloco K que se seguiu, já que nos posicionamos frontalmente contra qualquer iniciativa que abra espaço para repressão dos estudantes que ocuparam, por parte da burocracia ou do estado, mas frente ao ataque da Reitoria era preciso que o movimento buscasse pensar medidas que unificasse a vanguarda e a base, na mesma perspectiva que levantamos desde o início do processo. Neste sentido também criticamos a atuação da UJC, que ao mesmo tempo que levou a frente a política do DCE ao longo de toda a greve, ao final do processo buscou se ligar a um setor mais “radical” para esconder seu próprio papel no desmonte da mobilização.

Como seguir?

A greve de estudantes da USP de 2023 demonstrou que o movimento estudantil tem importantes reservas de disposição de luta e organização. Isso também foi o que vimos na greve que ocorreu na UNICAMP e se soma a luta mais geral dos trabalhadores do estado de SP. A unidade entre todos estes setores que se mobilizaram no último período é capaz de impedir as privatizações e ataques do governo Tarcísio, que são facilitadas pelo arcabouço fiscal de Haddad e Lula. Para isso é necessário extrair as lições e preparar nossos futuros embates.

Ao longo de todo o processo, enquanto Faísca, batalhamos por uma política que pudesse unir a vanguarda e a base dos estudantes, fortalecendo os espaços de auto-organização para que se fizesse pesar a criatividade dos estudantes em luta. Foi com esse objetivo que propusemos a manifestação até o Largo da Batata no início da greve, tendo colocado desde o início a necessidade de colocar a greve na rua, e também o ato-festival, já num momento que as direções buscavam acabar com a greve, para também ter iniciativas concretas que pudessem trazer a base dos estudantes e os aliados do nosso movimento e fortalecer a mobilização.

Confiamos na força dos estudantes e batalhamos, para além de cada processo de luta específico, para construir no movimento estudantil uma perspectiva política independente das reitorias e governos, aliada aos trabalhadores de dentro e de fora da USP e que tenha como perspectiva transformar a universidade de classes, para que esteja a serviço da classe trabalhadora e do povo pobre. Para isso lutamos pela dissolução da reitoria e do conselho universitário, organismos que são parte de uma estrutura de poder autoritária, que é a base de sustentação de cada política contra os estudantes negros, pobres, mulheres, mães, indígenas, LGBTs, PCDs e contra os trabalhadores.

É essa perspectiva que viemos levantando desde o início do ano, nos Tours Comunistas que organizamos, nos grupos de estudos comunistas, na nossa intervenção no Congresso da UNE em julho, nas assembleias comunistas e em cada um dos processos de luta nos quais intervimos, dentro e fora da universidade e que iremos levar a frente no próximo período nas eleições de centros acadêmicos que irão ocorrer até o final do ano.

Queremos construir centros acadêmicos de oposição à atual gestão do DCE que levou a frente essa política desastrosa ao longo de toda a greve, o que também expressa em diferentes níveis sua adaptação ao governo de conciliação de classes, como já ficou claro desde o último CONUNE. O que teria sido da nossa greve na USP se tivesse saído do CONUNE um plano de lutas nacional pela educação, para que todas as escolas e universidades lutassem juntas contra os ataques, como nós da Faísca estávamos propondo?

É preciso entidades estudantis que organizem os estudantes para arrancar cada uma das demandas que não conquistamos na greve, o que passa por construir gestões em cada centro acadêmico que sejam alternativa à política atual do nosso DCE, ou seja, que sejam verdadeiramente combativos e que apostem na mobilização e auto-organização. Chamamos todos os estudantes e organizações que defendem essa perspectiva a discutir os balanços da greve, experiência concreta com nossas direções para pensar um programa para chapas nessas eleições de Centro Acadêmico. Queremos construir campanhas numa perspectiva revolucionária e comunista, o que hoje passa por dedicar todas as energias para organizar medidas ativas de solidariedade com a juventude palestina, que tem seu futuro arrancado todos os dias pelo estado colonialista de Israel. Fazendo com que a paralisação do dia 28/11 de metroviários, ferroviários, sabespianos e professores estaduais seja uma forte demonstração da unidade dos trabalhadores para enfrentar o governo Tarcísio, assassino que usa as armas de Israel com sua polícia genocida e que quer privatizar todos os serviços públicos de SP; essa é uma batalha importante em que o movimento estudantil deve se incorporar.

Chamamos todes estudantes a levantarmos uma forte campanha pela ruptura das relações Brasil-Israel, e pela ruptura de todos os vínculos da USP com as universidades israelenses.
Venha ser parte da Faísca Revolucionária e construir conosco uma perspectiva comunista e revolucionária no movimento estudantil!

 
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