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Eleições 2022
Aliança entre PT e MDB no RN é o mesmo caminho que abriu espaço para extrema-direita
Ítalo Gimenes
Mestre em Ciências Sociais e Coordenador do CACS Marielle Franco da UFRN

Fátima Bezerra (PT) é favorita para ganhar o pleito ao governo e tem chance de garantir o segundo mandato seguido do PT no RN. Segundo a última pesquisa do Instituto Item, as intenções de voto têm mostram seus principais concorrentes, os pré-candidatos Fábio Dantas (SDD), apoiado pelos bolsonaristas Rogério Marinho e Fábio Faria e Styvenson Valentim (PODEMOS), figuras asquerosas da extrema-direita potiguar, com 14% cada contra 33% dos votos válidos da atual governadora. Com esses números, Fátima seria reeleita no primeiro turno pois supera em votos a soma dos seus adversários. Para a presidência, Lula tem amplo favoritismo e deve receber voto de 57% dos potiguares, contra 32,1% de Bolsonaro, ampliando a vantagem que o PT teve no estado na última eleição.

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O favoritismo para Lula é evidente em toda a região Nordeste, e tem sido utilizado para o PT estabelecer alguma base de governabilidade do país destroçado pelos governos Temer e Bolsonaro e sua agenda ultraliberal desastrosa de resposta à crise, agravada pela pandemia e a guerra na Ucrânia. Foi consumado no dia 29 de maio o casamento de oligarcas da família Alves com o PT no Rio Grande do Norte, através da chapa para a reeleição de Fátima Bezerra (PT) tendo como Walter Alves (MDB) como vice, além de apoios a Carlos Eduardo Alves (PDT), ex-prefeito da capital potiguar, ao Senado.

O apoio de parte das bancadas parlamentares desses partidos é fundamental para um eventual governo Lula, diante de um Centrão ainda bastante fiel a Bolsonaro e dividido regionalmente no seu apoio às candidaturas - ainda que sempre possam pular para o barco vencedor quando na hora certa. Garante palanque eleitoral nessas regiões para si, frente ao naufrágio das candidaturas da mítica “terceira via”, com o MDB mantendo Simone Tebet, candidata que tem 67% da população dizendo que nunca votaria nela, e PDT de Ciro Gomes não conseguindo sequer maioria no Ceará.

A que custo? Reabilita politicamente uma das oligarquias mais poderosas da região, através da Frente Ampla governista pelo qual Lula batalha, tendo Alckmin como braço direito, com programa de manutenção das reformas e privatizações. Qualquer desculpa por parte dos parlamentares do PT ou analistas do Saiba Mais de que é necessário para derrotar a extrema-direita e que “vice nos estados nem importa”, não passa de uma enganação.

A situação da classe trabalhadora e pobres do estado é cada vez mais grave, por conta sobretudo do papel que cumpre a extrema-direita, as oligarquias regionais, junto aos grandes empresários. E é impossível dar qualquer saída para essa situação pela via da governabilidade desse regime decadente e neoliberal, ainda mais ao lado dessas oligarquias, pois significa dar continuidade aos ataques. A experiência do governo de Fátima, assim como os demais governadores do PT, sendo agentes da aprovação da reforma da previdência nos estados, enquanto dava todo tipo isenção a empresários como Flávio Rocha na pandemia, os coloca como também a responsabilidade pelo RN ter alcançado o posto de segundo estado com maior desigualdade de renda do país. No Piauí hoje, trabalhadores da educação e da UESPI estão travando uma forte greve que já dura, na rede básica, 108 dias pelo pagamento do piso salarial, enfrentando perseguição judicial e o governo de Sousa Regina (PT), que contrata até mesmo fura greves contra os professores.

São antecipações do que virá a ser um eventual governo Lula-Alckmin, e agora com os Alves seguirá fortalecendo as oligarquias responsáveis históricos pela pobreza na região. Parte do projeto estratégico do PT de voltar a administrar o capitalismo no Brasil, agora marcado pelo aprofundamento da crise internacional e o avanço neoliberal de Temer e Bolsonaro, sob as regras do autoritarismo judicial e militar que se instalou após o golpe de 2016.

A extrema-direita e as oligarquias como responsáveis pelo aumento da miséria no RN

No Rio Grande do Norte as eleições desse ano estão marcadas por um profundo agravamento nas condições de vida da maioria da população. O último relatório do PNAD mostra que, em 2021, o RN atingiu o patamar do estado com 2ª maior desigualdade de renda do país.. Os 5% mais pobres dos estados passaram de um rendimento mensal de R$ 79,00 em 2020 para R$ 55,00 em 2021, ao passo que o 1% com maior renda da população teve um crescimento de 3%. Expressa a situação do agravamento da fome, que no país chegou a 58% da população com algum grau de insegurança alimentar, que nos estados do Nordeste passa de 68%. No RN são mais de 1 milhão de potiguares nessa situação, praticamente 1/3 da população, com notícias de municípios e comunidades indígenas e quilombolas não tendo nada além de pássaros, lagartos ou pebas para comer.
Uma situação que é agravada diretamente pelo governo Bolsonaro, que praticamente zerou orçamento de programas de combate a fome, e reduziu em larga escala os domicílios que recebem algum programa social.

O RN mesmo passou de 288 mil domicílios contemplados pelo Bolsa Família em 2019 para 169mil em 2021. Destina a maior parte do chamado “orçamento secreto” para obras no Nordeste, tentando reverter sua alta rejeição na região, e promover seus caciques políticos como o ex-ministro e pré-candidato ao Senado de Bolsonaro, Rogério Marinho (PL), com obras realizadas até mesmo em sua propriedade.

Rogério Marinho, foi ninguém menos que o relator da odiosa Reforma Trabalhista, portanto um dos agentes diretos da situação de quase 46% dos trabalhadores do estado em situação de informalidade, trabalhando sem nenhuma garantia de direitos, e com o desemprego de 14,1% 3% superior à média nacional. 1/3 dos empregos privados não tem carteira assinada, mostra a liberdade que estão atingindo os patrões em precarizar a força de trabalho.

Esse mesmo Rogério Marinho estará na mesma chapa que o candidato ao governo do estado, o empresário Fábio Dantas (SDD), com apoio do ministro de Bolsonaro Fábio Faria (PP). Dantas em 2018 esteve junto na campanha pela eleição de bolsonaristas como o deputado federal General Girão e o deputado estadual Coronel Azevedo. Os mesmos que há poucas semanas promoveram um evento saudoso à Monarquia e seu reacionário legado colonial e escravista, presente nas formas mais modernas de exploração capitalista no Brasil, que empresários como Fábio Dantas, ou bolsonaristas como Flávio Rocha, se beneficiam cotidianamente, sendo parte dos que aumentaram sua renda em meio ao aumento da pobreza.

Apesar dessas relações com o bolsonarismo (depois de ter passado pelas legendas do PCdoB e PSB), Fábio Dantas nega ser “candidato de Bolsonaro” e não teve apoio direto do presidente, dado que a direção nacional do seu partido, Solidariedade, declarou apoio a Lula, e a rejeição de Jair Bolsonaro para 58% dos potiguares. O que não impediu seus colegas de partido, os deputados estaduais Kelps Lima e Subtenente Eliabe declararem seu apoio à reeleição do presidente.

Além de Dantas, o Senador Styvenson Valentim é aventado como candidato ao governo do estado, um ex-policial militar fervoroso adorador da Lava-Jato, tendo uma cara própria de extrema-direita, menos vinculada ao bolsonarismo, ainda que compartilhe de muitos dos seus ideais. Apoia a aprovação do excludente de ilicitude para policiais em operação matarem ainda mais livremente a população, sobretudo negra e trabalhadora. Ferrenho combatente do direito ao aborto que já deu declarações minimizando casos de violência doméstica contra mulheres.

Essa é parte da escória reacionária que é responsável pela situação de miséria que vive o país e os potiguares em especial, tendo apoiado cada um dos ataques de Bolsonaro como a Reforma Trabalhista, da Previdência, o Teto de Gastos, que nos trouxeram a essa situação. Apesar de minoritária, é uma força reacionária que vem se organizando, como ficou expresso na tentativa de um assessor do deputado General Girão tentar arrancar uma faixa com frase sobre o comunismo de Karl Marx da juventude Faísca Revolucionária na UFRN. E que sua campanha ideológica reacionária é responsável pelo aumento dos casos de violência contra as LGBTQIA+, com o assassinato de Eliel e o transfeminicídio de Estafani em Natal nos últimos meses.

Os Alves são amigos no combate a essa extrema-direita aliada aos Faria?

Os Alves são uma das famílias do Rio Grande do Norte que passaram a ter maior protagonismo a partir dos anos 60 e, sobretudo, durante a ditadura militar de 1964. Aluísio Alves, o patriarca da família, já falecido, fez carreira em jornalismo no periódico de Carlos Lacerda, político carioca dos mais fervorosos propagandistas do golpe militar. Foi assim que assumiu a presidência do jornal Tribuna do Norte, depois comprou o jornal, junto a rádios, canais de televisão, portanto virou dono do principal monopólio de comunicação do estado até hoje. Foi comprovado que, entre 1962-1966, Aluísio estabeleceu relações com o governo norte-americano, sendo agente do projeto “Aliança para o Progresso”, recebendo recursos para atuar contra a “ameaça comunista” na região. Além de ministro do governo tutelado pelos militares de José Sarney e do neoliberal Itamar Franco.

São a típica família que vive da política, beneficiando negócios particulares que, em um país semi-colonial como o nosso, dependem e favorecerem setores do capital estrangeiro, seja industrial ou financeiro, prática que não mudou quando Garibaldi se tornou parte da sustentação do Centrão ao governo Lula e do PT.

Para se ter ideia, o Aeroporto que dá acesso à capital potiguar, batizado de Aluísio Alves, foi construído em uma propriedade dessa família. E certamente não foi de graça. Após envolvimento nos escândalos de corrupção da Odebrecht nas obras do estádio Arena das Dunas, com a prisão de Henrique Alves, primo de Garibaldi, a influência da família decaiu. O cargo de vice de Fátima para o filho de Garibaldi, o deputado Walter Alves, devolve parte do prestígio dele e de sua família.

Walter Alves votou a favor do impeachment de Dilma, assim como de ataques como a PEC do Teto de Gastos, reforma trabalhista e da previdência, portanto base da garantia dos ataques de Temer e Bolsonaro responsáveis pela situação de miséria de hoje. A cada eleição aumenta o seu patrimônio, tendo declarado em 2018 R$1,7milhão de renda.

Carlos Eduardo, que concorrerá com o nefasto Rogério Marinho, para a vaga do RN ao Senado, também é figura dos Alves que tem legado de ataques nas costas. Foi prefeito da capital potiguar entre 2012-2018, que deu continuidade ao legado de Micarla, cujos ataques aos levaram à Revolta do Busão, mantendo os privilégios das máfias da Seturn, enquanto atrasava salário de servidores efetivos e terceirizados. Renunciou em meio ao segundo mandato para disputar o governo estadual com Fátima, dando lugar para seu vice, Álvaro Dias, atual prefeito da cidade.

Ou seja, antes era rival direto do PT, que quando venceu as eleições alegou ter “derrotado as oligarquias” do estado, agora é novo aliado no combate à extrema-direita aliada à oligarquia dos Faria. Os Faria que, diga-se de passagem, quando elegeram Robinson Faria ao governo do estado em 2014, tinham Fátima Bezerra na mesma chapa concorrendo ao Senado pelo PT.

A verdade é que o PT sempre governou submetendo-se às disputas entre as oligarquias estaduais, que se beneficiam de todo tipo de privilégio e recursos fisiológicos do Estado para aumentar seu patrimônio, e oscilam entre os governos de turno na medida em que possam atender melhor seus interesses. Oligarquias que são responsáveis historicamente por não haver sequer demarcação de terra indígena no Rio Grande do Norte, e que são parte daquele 1% que aumentou sua renda em meio à crise.

Há setores do PT, como as parlamentares Natália Bonavides, Isolda Dantas e Brisa Bracchi que foram contra a Walter Alves como vice de Fátima, propondo manter as alianças que Fátima tem hoje com o vice-governador do PCdoB, Antenor Roberto. Tampouco essa proposta oferece qualquer alternativa frente a que foi essa aliança que aprovou a reforma da previdência estadual e outros ataques, inclusive tendo que se enfrentar com greves como a do DETRAN-RN, dos professores e servidores da saúde, que com diferentes resultados puderam impor conquistas frente a intransigência deste governo. A crítica que esses setores fazem ao acordo eleitoral com os Alves não se opõe em nada a defesa da estratégia do PT de voltar a ter protagonismo no regime, administrando o legado econômico do golpe institucional, só que com uma cara mais “popular” para a conciliação e com os empresários e oligarquias. Não obstante, Brisa, Bonavides, Isolda, após tomada a decisão da aliança eleitoral no RN, se comprometeram a levar adiante um apoio unificado a chamar voto nos Alves junto a Fátima.

Por uma alternativa da classe trabalhadora contra a extrema-direita as oligarquias!

A forte rejeição a Bolsonaro no RN é um ponto de apoio fundamental para dar uma resposta consequente a essa extrema-direita e seus ataques. Uma rejeição que é canalizada para a expectativa de um eventual governo Lula com Fátima no RN poderá devolver condições de vida anteriores à crise. Mas não há as mesmas condições econômicas de quando Lula governou, e sem revogar cada uma das reformas, cortes e privatizações, será um governo de administração da miséria deixada por esses governos, enquanto garante os lucros dos capitalistas.

As greves do DETRAN-RN, de professores, servidores da saúde, e outras categorias do estado que se enfrentaram com o governo Fátima Bezerra, demonstraram que somente o caminho da luta de classes para de fato dar uma resposta à situação de crise e dos ataques. Se depararam com o fato de que com um “governo de esquerda” não teriam melhores condições de luta e conquistas como era esperado, e tiveram que aprofundar a sua auto-organização, enfrentando as direções burocráticas da CUT e CTB, que trabalham para isolar cada uma dessas batalhas. Foram uma experiência embrionária dos possíveis choques a nível de massas no país com as expectativas geradas com uma possível volta do PT ao Planalto, tendo que conciliar interesses cada vez mais antagônicos.

É necessário confiar na força dos trabalhadores potiguares, de todo o nordeste, como mostrou a fúria sergipana contra o assassinato de Genivaldo, bloqueando vias e se enfrentando com a polícia, que podemos revogar cada um desses ataques e mandar os escravistas da extrema-direita de uma vez por todas para a lata de lixo da história. Retomar o legado de Zumbi e Dandara, os irreconciliáveis combatentes da escravidão, que não caiam nas armadilhas da Coroa e botaram medo nos colonizadores, fazendeiros com seus quilombos, fugas, greves e tantas lutas pelo país. São os trabalhadores os herdeiros dessa combatividade hoje, que precisa ser desprendida das amarras colocadas pelas burocracias sindicais da CUT e CTB, dirigidas pelo PT e PCdoB, que dividem nossas batalhas, sejamos servidores, efetivos, terceirizados ou informais, a serviço da unidade do PT com nossos inimigos.

Com essa força, impor um programa que enfrente o lucro dos capitalistas e das oligarquias, começando pelo reajuste automático dos salários conforme a inflação, redução da jornada de trabalho para 6h e emprego com direito para todos, efetivando cada informal ou terceirizado sem necessidade de concurso. Junto disso, revogar toda a reforma trabalhista, da previdência, a lei do teto de gastos, levantando o não pagamento da dívida pública. Por uma reforma agrária radical que exproprie as terras das oligarquias, colocadas sob gestão operária e popular, com demarcação das terras dos povos indígenas. Expropriação das indústrias e empresas de Flávio Rocha sob controle operário e popular. Medidas estas que poderão ganhar força através de uma grande mobilização nos locais de trabalho, estudo, moradia e no campo, por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que coloque a possibilidade de amplas maiorias populares decidirem sobre o destino do país, e não os militares e juízes autoritários, acabando com os seus privilégios, assim como negócios fisiológicos dentro do estado. Colocando fim nos tribunais militares, ao artigo 142 e punição aos torturadores, assim como a elegibilidade e revogabilidade dos juízes do STF.

 
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