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Entrevista com Aderivaldo Santana: “O tráfico de escravizados foi um dos mais importantes sistemas de acumulação de capitais”
Renato Shakur

Publicamos abaixo a entrevista de Aderivaldo Santana, historiador, doutor em história moderna e contemporânea pela Universidade Paris Sorbonne, membro da rede de historiadoras negras e historiadores negros. Nesta entrevista, tocamos em assuntos referentes aos temas de pesquisa que ele se envolveu ao longo de sua carreira acadêmica, como a relação entre pensamento médico, racismo, gênero e raça e de seus recentes estudos sobre a história de liberdade do ex-escravizado Osifekunde. Além de abordar o tema da relação entre capitalismo e racismo e da abolição da escravidão. Esta entrevista foi concedida a Renato Shakur, doutorando em História pela UFF.

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Ideias de Esquerda: Aderivaldo, você desevolveu estudos sobre a ciência e a escravidão, mais precisamente sobre o pensamento “cientìfico” e suas relações com gênero e raça. Gostaria que você comentasse sobre o desenvolvimento desse tipo de pensamento e sua relação com a manutenção da escravidão.

Aderivaldo Santana: Obrigado pela pergunta! Na minha pesquisa sobre o pensamento médico brasileiro no século XIX com relação à epilepsia, ficou evidente que não havia o interesse de aplicar o tratamento convencionalmente aplicado aos indivíduos não escravizados. Em outras palavras, o senhor de engenho ou o proprietário de escravizado da cidade não pretendia curar sua mão de obra escrava. Por isso, havia um silêncio completo, sepulcral, nas fontes no que tange à epilepsia e escravidão. Na minha pesquisa eu fiz um corte de raça e gênero justamente para contrapor esse silêncio. O que eu consegui identificar foi que, para a medicina brasileira e também o pensamento médico internacional, a mulher era o principal vetor de transmissão da epilepsia. Isso se dava, em parte, porque havia um total desconhecimento do corpo feminino e de suas alterações no decorrer dos anos (infância, adolescência e idade adulta). Assim sendo, foi impressionante encontrar um número expressivo de casos de mulheres epilépticas. Mesmo assim, quase nunca ou muito poucos casos eram mencionados quando o paciente era uma escravizada. Respondendo pontualmente a sua questão, o pensamento médico brasileiro agia em favor da manutenção da mão de obra escravizada quando dava a entender que os escravizados não contraiam a doença epilepsia. Isso porque o tratamento demandava, em geral, o afastamento do trabalho, das atividades físicas, etc.

IdE: Você também tem pesquisado acerca de trajetórias de escravizados e suas diferentes formas de se relacionar com a liberdade, como o caso de Osifekunde, um comerciante que foi escravizado. Gostaria que você comentasse sobre sua trajetória e pudesse falar um pouco sobre a atualidade da historiografia sobre as histórias transatlânticas.

AS: Pesquisar a biografia de Osifekunde tem sido uma oportunidade de trazer para o primeiro plano histórias de vida singulares. É evidente que nem todos os africanos escravizados no Brasil tiveram a possibilidade de contar suas trajetórias de vida ou deixaram registros que nos permitam contá-las. O Brasil foi a nação que mais deportou africanos durante os três séculos do tráfico transatlântico. Um total de 5.300.000, dos quais aproximadamente 1.500.000 morreram na dolorosa travessia. Em geral, uma vez reduzidos à condição escrava, a maioria desses africanos morreu como escravos. Porém, alguns enfrentaram sua condição e por diversas vezes fugiram, outros se rebelaram - em grupo ou individualmente, outros negociaram por melhores condições de trabalho.

É provável que Osifekunde tenha experimentado mais de uma dessas formas de resistência. Ele era um comerciante de "etnia" Ijebu, fazia parte de um subgrupo iorubá do atual sudeste da Nigéria. Descendia de uma família importante, seu avô era um membro importante no reino Ijebu e seu pai um respeitado guerreiro. Osifekunde foi capturado e não houve negociação, até o presente momento não sabemos o por quê do seu resgate. Ele foi vendido para o Brasil na condição de escravizado em 1820 e dezessete anos depois chegou à França. Em Paris ele descobriu que não poderia ser escravizado na metrópole francesa e passou a viver e trabalhar na condição de homem livre. Essa até então era uma história que estava acessível a todos os pesquisadores. Meu trabalho foi encontrar documentos para comprovar que boa parte do que contou Osifekunde correspondia à verdade. Ao me interessar por essa biografia, descobri que no início do século XIX, os "homens de ciência”, europeus, norte-americanos e brasileiros se interessaram em entrevistar africanos nos quatro cantos do mundo. O objetivo principal desses homens era conhecer o interior do continente africano e, em última instância, preparar o que depois seria conhecido como imperialismo europeu, no caso dos franceses, portugueses, ingleses e alemães. Ao perceber esse interesse e tomar conhecimento dessa prática de entrevistas, eu percebi que havia uma documentação interessante a ser trabalhada no que diz respeito à biografia de escravizados, documentação que nos possibilita contar histórias transatlânticas como a de Osifekunde. E por falar nele, o mais interessante foi que durante minha pesquisa eu consegui validar uma hipótese importante acerca do seu retorno. Sim, após viver quase 4 anos em Paris, Osifekunde decidiu voltar para o Brasil onde havia deixado um filho. O retorno foi complicado. Ele havia recebido uma melhor oferta de trabalho de seu segundo proprietário, um francês de nome Navarre que havia enriquecido no Recife, atuando no ramo da cana de açúcar. Osifekunde conseguiu vaga num primeiro barco que naufragou alguns dias depois de zarpar do porto do Havre. Ele poderia ter desistido depois dessa desaventura mas não foi o caso, ele voltou a comprar um novo bilhete e regressou ao Brasil em abril de 1841. Durante a pesquisa, não tive dúvida que Osifekunde era um desses personagens que negociou toda sua vida. Quando pôde, ele negociou por melhores condições de tratamento e trabalho. Eu infelizmente não tenho fontes para confirmar se ele reencontrou seu filho, nem mesmo sei se o filho vivia na condição de escravizado quando Osifekunde deixou o Brasil em 1837. O certo é que Osifekunde voltou a trabalhar para os Navarre e adotou um nome de liberto e passou a se chamar Joaquim da Costa, embora ele fosse visto como escravizado, certamente porque permaneceu vivendo e trabalhando para seu ex-proprietário. E foi como Joaquim da Costa que ele foi brutalmente assassinado em julho de 1842, quando alguns indivíduos o levaram para uma casa, rasparam sua cabeça e o espancaram até a morte.

Essa fascinante e singular trajetória de vida mostra também como a escravidão na sociedade brasileira foi brutal para o corpo do negro. Osifekunde foi vítima de um dos mecanismos mais opressores de violência. Sobreviveu a travessia do Atlântico, aos primeiros anos de escravização onde muitos indivíduos padeciam, lutou e negociou por melhores condições de trabalho, mas não resistiu à covardia do sistema escravocrata. Eu não tenho dúvidas de que ainda teremos mais trajetórias de vidas a serem reveladas. Eu penso que a historiografia brasileira avançou muito nesse sentido e minha pesquisa pretende contribuir chamando a atenção dos pesquisadores para outras possibilidades de trabalhar as fontes, a documentação em que esses indivíduos estão involuntariamente inseridos. Ainda temos muito o que trabalhar, mas a historiografia brasileira vem avançando muito nesse sentido, em particular os trabalhos do historiador João José Reis. Não podemos esquecer que existem outros personagens igualmente importantes nessas trajetórias transatlânticas que são os homens que traficavam e escravizaram milhões de indivíduos, me refiro aos capitães de navios, os marinheiros, os armadores de embarcações dedicadas ao infame comércio. Também é preciso conhecê-los e tenho me interessado também por essas histórias.

IdE: O 13 de Maio é a data em que comemoramos a luta contra a abolição rememorando as histórias de luta dos negros e negras escravizadas. Gostaria que comentasse sobre o que foi o tráfico transatlântico, isto é, o que foi esse comércio mundial de negros africanos roubados de suas terras para sustentar o padrão de acumulação capitalista e como se deu os processos de resistência a isso tanto no continente africano como na América portuguesa.

AS: Essa é uma das perguntas cruciais para compreendermos parte da história brasileira. O tráfico foi um dos mais importantes sistemas de acumulação de capitais, um mercado globalizado mesmo antes que o conceito pudesse existir, em que alguns indivíduos - com apoio das principais instituições de poder, como Estado e a Igreja - conseguiram subjugar todo um grupo populacional com base em argumentos raciais, e isso precisa ficar claro. O tráfico enriqueceu cidades como Liverpool, Boston, Nantes, Rio de Janeiro, Cuba, alimentou a economia dos bancos e empresas de seguros, foi responsável pela fortuna de homens tidos como ilustres filantrópicos, benfeitores que construíram hospitais, bibliotecas, tudo com o dinheiro arrecadado do tráfico de seres humanos. Sempre se fala que a escravidão está presente na história da humanidade e isso é bem certo. Porém, no caso do tráfico transatlântico de africanos escravizados, houve o interesse e criou-se todo um sistema justificativo para escravizar os africanos subsaarianos. No caso específico do Brasil, esse comércio global durou por três séculos, com apoio da classe política, de funcionários de Estado e dos grandes proprietários brasileiros.

De norte a sul do Brasil, só houve consenso a respeito do tráfico e da escravidão. Com a desculpa da necessidade de mão de obra, o Brasil desrespeitou acordos e tratados, importou ilegalmente mais de 700 mil pessoas, homens, mulheres e sobretudo crianças mesmo depois de sancionada lei pela abolição definitiva do tráfico transatlântico, em 1831. Existem diversos relatos de resistências, resistências durante as capturas em solo africano, resistência nos navios negreiros que em muitos casos eram verdadeiros cemitérios flutuantes. E também houve resistência à condição de escravizados. Mas em geral houve muita negociação também. Aí está, na minha opinião, a importância do trabalho do historiador em compreender essas nuances entre as negociações e conflitos, para ler a contrapelo as histórias de vida nas fontes e arquivos. Os escravizados resistiram até quando se embriagavam e, voluntariamente, impossibilitavam-se ao trabalho. Houve os que abreviaram sua própria existência buscando a via do suicídio. Outros tiraram as vidas de seus filhos para que eles não fossem escravizados. Houve os que pegaram em armas e lutaram nos quilombos e rebeliões como a revolta dos Malês em 1835, na Bahia. Mas sobretudo houve os que negociaram, os que de tanto fugir ganharam o direito de ficar mais tempo na rua, pra visitar amigos e até parentes. Os que fizeram, na marra, senhor de engenho entender que não se podia separar família.

Ainda sobre resistência, quando eu estava fazendo pesquisa nos arquivos do Recife, lendo os jornais, deparei-me com um desses surpreendentes - pelo menos para mim - casos de negociação. Havia nos anos 1830, um juiz de paz linha dura com senhores de escravizados urbanos. Esse juiz vivia proibindo manifestações dos escravizados, até mesmo queria reprimir os cantos que eles entoavam quando trabalhavam no "ganho", carregando de tudo pela cidade. Certa vez esse juiz de paz precisou de uma ama de leite. Conseguiu alugar uma e logo sua família ficou dependente da serviçal. Pois bem, ele acabou por comprá-la e alforriá-la. Tempos depois ela ganhou a rua e abandonou a casa do juiz de paz. Nem sei ao certo se essa alforria era condicional e se o dito juiz de paz conseguiu recuperar a dita ama de leite, mas esta aí um exemplo, talvez clássico, de conquista de liberdade através da negociação. Contudo, como já mencionei anteriormente, o sistema escravista brasileiro foi um dos mais violentos e para compreender isso basta ler os anúncios de jornais em que eram registrados as fugas de escravizados, é possível notar os maus tratos, as mutilações e condições de vida dos escravos no Brasil.

É preciso ler o 13 de maio e a chamada primeira abolição nessa chave de entendimento, não perdendo de vista a pressão que os escravizados fizeram - em permanência - por liberdade. A historiografia brasileira da conta dessas resistência, da maioria delas, também da atuação dos abolicionistas no final do século XIX, mas ainda estamos trazendo fatos e nossas histórias estão sendo contadas por historiadoras negras e historiadores negros, histórias que dão conta do tráfico transatlântico de africanos escravizados, das diversas narrativas de negociação e também de muita resistência e protagonismo negro. Ao contar essas histórias, é evidente que se compreende a construção da sociedade brasileira, seu racismo peculiar, o papel da elite e do Estado na sistematização desse racismo, e na prática se traduz numa das sociedades mais desiguais do mundo!

 
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