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Biscuit: crônicas de uma aeroviária [Parte final]
Mateus Castor
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Repouso

Quando cheguei em Salvador, gastei 150 reais com testes. Foda-se, já estava endividade mesmo. O primeiro, deu negativo, o segundo, positivo. Era um empate, era necessário a decisão final de um terceiro teste e assim foi. Negativo, positivo e, por fim, negativo. Com margens de erro, estava curada em menos tempo que o necessário, mesmo assim continuei usando duas máscaras e muito álcool em gel.

Todos os funcionários em minha volta pegaram Covid e tiveram seu momento de descanso de quinze dias. Com ressalva da Margarete que trabalha no embarque. Diabética, morreu logo no começo da pandemia. Outra exceção era Carlos, responsável por guardar gravações as quais recorria para tirar o veredicto dos meus diagnósticos de passageiros. O descanso deles foi eterno, assim como de outras 600 mil pessoas. Eu estava intacta. Como poderia? Trabalho em um dos locais com mais circulação do vírus, um ambiente fechado e imenso, sem nenhuma preocupação da Goltam com nada que não seja um bom atendimento sorridente. Seria o patinho no meu bolso?

- Olha ela, a imunizada! - Sempre comentava o meu melhor amigo quando nos víamos na troca de turnos, ele trabalhava de noite.

Estudamos no cursinho juntos. Ele desistiu de administração e eu de psicologia. Ele se endividou com o tio e eu com o Prouni. Nos tornamos aeroviários juntos e lá estávamos nos fudendo juntos. Ele contraiu Covid 3 vezes, de três variantes. Ganhou um apelido carinhoso de minha parte de Coronalover, Sarcástico, fazia comentários sobre o descanso merecido de 45 dias que teve, logo em seguida se sentia culpado e retirava o que disse. Ele sabia que eu havia contraído Covid, joguei a culpa na patricinha, e assim continuaria. Decido ligar para ele, agora, saia da orla, meus pés tocavam a areia da praia, que já havia esquecido o nome. A alguns metros, via as marolinhas de Salvador. Jovens jogavam bola de um lado, guarda sóis se amontoavam do outro, música alta a cada grupinho, crianças corriam.

Fechei os olhos por um momento para sentir o cheiro daquela brisa, caminhei. Tive medo de que quando os abrisse, veria o céu vermelho. Abri, se mantinha azul com nuvens esparsas. Pensei no lamaçal das casas de muitos baianos, nos infernos, bem reais, que estavam sendo vividos, lembrei do meu melhor amigo.

- Adivinha onde eu tô, Leonardo - perguntei

- Chorando as pitangas de mais um boy ai do seu quarto? - retrucou

- To na Bahia, aceita a vídeo chamada - falei pra ele

- Ah tá, você tá de molho no teu quarto só na siririca, acha que me engana, otária - disse do jeito mais gay possível que ele poderia ter.

Aceita, porra! - ele aceitou, olhei pra sua cara, estava no ônibus a caminho do trabalho, era final da tarde, a câmara se mexia, seu pescoço também. Escancarou a boca por debaixo da máscara, tapando-a, embora a máscara estivesse tapando sua boca. Olhou para os lados para ter certeza que ninguém estava vendo.

- Eu vou tirar um print e mandar pra sua mãe - provocou

Faz isso que eu tenho um arsenal de crimes seus pra relevar. Aceita que eu to praticamente no teu quintal e você tá ai, se fudendo - me arrependi na hora de ter feito a provocação final.

Ai amiga vamo voltar pra faculdade esse ano, não quero viver aqui pra sempre - comentou. Não o ofendi, ainda bem - Dá uma olhada no grupo do zip zop, mandaram uma matéria de um jornal lá que é uma “denúncia anônima”, acho. Alguém botou a boca no trambone. Tá escrito lá, sem direito à ir no banheiro, sem direito à comer. Sei que a matéria chegou em líderes mais escrotos, que no privado responderam que se tá ruim trabalhar na Goltam, tem gente que queira. Pro sindicato, a chefia disse que é um completo exagero. Mas olha só, nosso horário de janta voltaram a dar aqui, com 10 minutos a mais. Ficaram com medo.

Que sindicato? Eles não aparecem nunca. - respondi - de noite eu dou uma olhada, agora vou aproveitar aqui. Pelo amor de Deus, bico fechado

Relaxa linda, depois lê as conversas lá. Teve funcionário lambe bota se relevando, teve xingamento de “comunista”, “bolsonarista”, etc. Barraco do bom, deu vontade de xingar uns otários, mas fiquei de fora.

Quando eu voltar descansadinha, queria fazer uma greve. Mas o sindicato só fala, não organiza e não faz nada - comentei

- Pois é… - respondeu o Leo.

Não percebi, mas meus pés já tocavam a espuma branca, que desaparecia na areia e depois voltava em mais uma marolinha.

- Leo, vou desligar, beijo.

- Aproveita sua surtada, beijo

Peguei o Biscuit de patinho nas mãos, olhei para o horizonte, onde o mar tocava o céu. Pressionei o patinho com força, fechei os olhos. Curvei meu braço para trás, taquei com todas as minhas forças aquele pequeno objeto amarelinho. Não consegui ver em qual local caiu e afundou em meio às pequenas ondas.

- Descanse em paz, vó

 
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