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Debate
UFMG: Eleições no DA FAFICH e a luta por entidades democráticas e combativas
Elisa Campos
Coordenadora do CAFCA-UFMG
Mafê Macedo
Estudante de Psicologia da UFMG

Essa semana acontecem as eleições do Diretório Acadêmico (DA) da FAFICH, uma entidade que representa todos os estudantes da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Neste texto queremos seguir o debate com a Chapa 1, que foi gestão do DA FAFICH nos últimos 2 anos, sobre a importância do nosso DA cumprir o papel de ser uma ferramenta de luta e organização dos estudantes com um sentido antiburocrático e combativo, sempre aliado aos trabalhadores, movimentos sociais, e a população que não tem direito à universidade.

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Foto: Reprodução/UFMG

O Ensino Remoto durante a pandemia trouxe enormes desafios para todos. Segundo pesquisa realizada pelo Centro Acadêmico de Filosofia (CAFCA), mais da metade dos estudantes de Filosofia trancaram o curso parcial ou totalmente no último período. Entre os motivos relatados estão problemas de saúde mental, sobrecarga, falta de acesso à permanência estudantil, dificuldades de acesso a internet, terem começado a trabalhar, entre outros. Os relatos de vários dos nossos colegas de faculdade infelizmente confirmam que essa não se trata de uma realidade isolada de um curso. Diversas outras pesquisas também apontam números recordes de evasão no ensino superior e básico. Um reflexo direto das consequências da pandemia e da crise capitalista que afetaram a vida de milhares de estudantes.

Além da evasão, as gerações de ingressantes em 2020 e 2021 praticamente não tiveram experiência com a vida universitária presencial. No entanto, toda semana somos bombardeados com notícias de cortes orçamentários, ameaças de fechamentos de universidades, e um longo etc. O governo Bolsonaro e Mourão sempre deixou claro que a educação era uma das suas grandes inimigas e nunca pensa duas vezes quando se trata de retirar dinheiro do orçamento para conceder privilégios a seus aliados do Centrão. Até mesmo aqueles setores da direita que supostamente se dizem preocupados com a educação, na maioria das vezes votam junto com Bolsonaro ataques diretos, como os cortes no orçamento, ou indiretos, como as reformas e privatizações que precarizam de nosso futuro.

Ao longo desses dois últimos anos, os movimentos que constroem a Chapa 1 - FAFICH em Movimento, Afronte e Juntos (PSOL), Correnteza (UP), MUP/UJC (PCB), estiveram à frente das gestões do DA FAFICH e também do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFMG. Na prática, nesse período tão complexo para a vida dos estudantes, o que vimos foi uma gestão do DA que se adaptou a concepção de entidade representada pela chapa 2, composta pelo Levante Popular da Juventude, UJS e PT, mesmos movimentos que são parte da majoritária da UNE. Essas organizações em todo país atuaram para que os DCEs, DAs e CAs fossem meramente ouvidorias para que as Reitorias pudessem implementar o Ensino Remoto e os cortes na permanência sem maiores atritos com o movimento estudantil, que havia sido linha de frente da oposição a Bolsonaro em 2019 mas acabou por entrar num profundo refluxo durante a pandemia. Também a gestão do DA FAFICH concentrou suas iniciativas em meramente sentar para negociar com a direção da faculdade e da universidade, fazendo com que nossas entidades terminem por subordinar os desejos dos estudantes aos estreitos limites, possíveis de serem conquistados, da institucionalidade da burocracia acadêmica e da Reitoria, que por sua vez precisa se subordinar aos mandos e desmandos do MEC comandado pelo governo Bolsonaro.

Esses elementos combinados à lógica burocrática de não realizar assembleias ou reuniões foi aprofundando a fragmentação dos estudantes colocada diante da necessidade de isolamento social. Tirando a recente Assembleia Eleitoral, a última assembleia sob gestão dos movimentos que compõem a Chapa 1 no DA FAFICH aconteceu antes da pandemia, em 2019. Ao invés de batalhar para superar a fragmentação imposta pelo Ensino Remoto e construir espaços democráticos na base, com assembleias, reuniões e fóruns que pudessem de fato envolver o conjunto dos estudantes de todos os cursos da FAFICH, para que nos autoorganizando pudéssemos fazer valer nossas demandas e junto aos professores e trabalhadores, impor à Reitoria que fosse a comunidade escolar quem decidisse sobre como, de que forma e sob quais condições a universidade poderia funcionar, inclusive para colocar seu conhecimento a serviço de combater a pandemia. O que vimos foi que a gestão da entidade concentrou suas iniciativas em confiar que a burocracia universitária responderia a nossas demandas, inclusive com todos os movimentos que compõem a chapa se colocando contrários a que os estudantes votassem um posicionamento exigindo da Reitoria a realização de plebiscito para que a comunidade escolar pudesse decidir sobre a implementação do Ensino Remoto.

Mesmo diante da imposição antidemocrática do Ensino Remoto e todas as suas consequências, as organizações das gestões do DA FAFICH e do DCE no último período não tiraram as lições necessárias. Novamente se posicionaram em reuniões contrários a defesa de que o poder de decisão sobre o retorno híbrido fosse de toda a comunidade universitária e não somente delegado às comissões e órgãos de representação institucional onde os estudantes, professores e trabalhadores que mais diretamente são afetados pelas consequências dessas escolhas são uma minoria.

Na UFMG, assim como nas universidades federais de conjunto, o impacto dos cortes do MEC em meio a pandemia se deu em especial na permanência estudantil, onde e a Reitoria se resignou a aceitá-los e implementá-los, retirando justamente dos setores mais oprimidos e explorados que conseguem furar o filtro social do vestibular: negres, indígenas, as mulheres e LGBTQIA+. Ao longo da pandemia soubemos como em várias universidades pelo país os trabalhadores terceirizados, uma maioria de mulheres negras, sofreram com demissões ou com a obrigatoriedade de seguirem trabalhando em meio a pandemia mesmo sem o ensino presencial na universidade. Na UFMG, a Reitoria avança com o retorno híbrido mas se nega a oferecer dados ao DCE sobre como ficaram os terceirizados no último período, se eximindo da responsabilidade em relação a esses trabalhadores essenciais para o funcionamento da universidade. Nesse cenário, lutar por permanência estudantil para todos que precisarem, defender as cotas e o fim do vestibular para que todos possam ter direito de estudar, além de estarmos ao lado dos trabalhadores terceirizados, levantando a bandeira da efetivação sem necessidade de concurso público, são pautas fundamentais que para nós devem ser tomadas por todas entidades para que nossas demandas consigam transbordar os muros da universidade e se encontrar com os trabalhadores e a população que estão fora dela.

Como já dissemos anteriormente, apesar de estarem em chapas separadas para as eleições estudantis do DA FAFICH, todas as organizações que compõem as Chapas 1 e 2 estão unificadas na política de defesa do impeachment, subordinando nossa mobilização à tentativa de convencer Arthur Lira a pautar um dos mais de 100 pedidos apresentados para substituir Bolsonaro, pelo também defensor da ditadura militar, general Mourão. Acreditamos ser importante debater sobre isso pois muitos estudantes da nossa faculdade saíram às ruas nas marchas pelo Fora Bolsonaro, inclusive na primeira mobilização se expressou fortemente um bloco da UFMG onde também se colocava a luta contra os cortes nas universidades. No entanto, a política das direções majoritárias das nossas principais entidades como a UNE, em especial do PT e do PCdoB (UJS), busca manter essas manifestações como parte da sua estratégia eleitoral.

Isso levou a uma separação da luta contra os ataques econômicos, como os cortes, as reformas e as privatizações, da luta por uma resposta política, onde primava um duplo discurso por parte das organizações petistas, cujo centro é Lula 2022, mas pautando também o impeachment como forma de desgaste de Bolsonaro. Ambos tinham como consequência direta a busca por alianças com a direita, já que tanto para dar início ao processo de impeachment, quanto para costurar alianças eleitorais em 2022, era preciso convencer parte da direita que implementa ataques econômicos junto com Bolsonaro a estar junto com esses partidos. Ao defender o mesmo programa político, as organizações de esquerda, e consequentemente nossa entidade estudantil, se subordinam a essa estratégia eleitoral, por mais que no discurso falem que não podemos esperar 2022.

Agora, depois de mais de 45 dias do último ato pelo Fora Bolsonaro antes do dia 7, o bolsonarismo avançou com sua retórica golpista, ao mesmo tempo que junto com o Congresso e o STF passam uma verdadeira boiada de ataques contra nossos direitos. Nesse dia 7 de setembro vimos novamente a extrema direita ocupar as ruas, com atos que foram expressivos, ainda que não tenham chegado a ser maiores que nossas grandes mobilizações contra Bolsonaro, mesmo com todo o investimento patronal e do agronegócio. Porém, foram suficientes para que Bolsonaro junto aos militares e os setores mais reacionários sigam a crise política e a tensão entre os poderes, enquanto o povo sofre com a fome, o desemprego e o agravamento da crise capitalista.

As marchas do Grito dos Excluídos mostraram que existe disposição de setores que não vão ficar passivos diante da volta do bolsonarismo para as ruas. Mas também escancararam como sem a realização de assembleias de base, sem um plano de lutas que pudesse unificar os indígenas que estão em pé de guerra com o agronegócio, Bolsonaro e o STF contra o Marco Temporal e o PL 490, as greves operárias como da MRV, da Sae Towers, dos rodoviários da Carris, dos radialistas da Rede TV e toda classe trabalhadora, juventude e movimentos sociais, essa disposição termina por se dispersar ou se desgastar com o tempo.

Retomamos esse balanço porque sabemos que muitos estudantes da FAFICH são parte desses setores que estão nas ruas lutando contra Bolsonaro e seus ataques, e nesse sentido é importante também discutir o papel da nossa entidade. Ao invés de votar contra a exigência as centrais sindicais e a UNE dirigida majoritariamente pelas correntes que compõe a chapa 2, como fizeram as organizações da Chapa 1 na única assembleia da UFMG organizada pelo DCE nesses dois últimos anos, um DA que se propusesse a ser de fato uma alternativa à esquerda deveria jogar todas as suas forças para impulsionar a organização dos estudantes, em primeiro lugar para cercar de solidariedade as lutas em curso, mas também para se articular com outras entidades e batalhar nacionalmente para conformar uma frente que reunisse todos aqueles que querem barrar agora os ataques em curso. Realizando reuniões, plenárias, assembleias e pensando diversos meios de superar a fragmentação que foi se aprofundando nos últimos anos.

Essa é a perspectiva de entidade que defendemos, uma entidade democrática que organiza desde a base os estudantes, que apoia as lutas em curso, que não alimenta confiança nos limites impostos pelas instituições, sejam elas a Reitoria, o Congresso ou o STF. Uma entidade que confia na força dos estudantes auto-organizados para na prática se contrapor às burocracias que mantêm nossas entidades paralisadas. Essa é a batalha que damos como parte da Faísca Anticapitalista e Revolucionária dentro do movimento estudantil. Acreditamos que nessas eleições faz falta a existência de uma chapa em que abertamente se coloque essa perspectiva, pois, como já expressamos, vemos que a experiência do último período de atuação da Chapa 1 à frente do DA FAFICH e do DCE da UFMG foi cada vez mais adaptada às concepções da Chapa 2.

Seguimos discutindo com todos estudantes essas propostas e perspectivas, mas entendemos todos aqueles que não querem que nosso DA tenha a sua frente uma gestão que abertamente defende a entidade como mera representante para negociar com a reitoria e que nacionalmente é responsável por adaptações ao governo Bolsonaro e importantes traições de nossas lutas. Por isso, acompanhamos esses setores votando criticamente na Chapa 1, mesmo com essas importantes diferenças políticas que expressamos aqui, e outras ideológicas e históricas com organizações como Correnteza (UP) e UJC (MUP/PCB) que recentemente saíram cantando e defendendo que “Stalin matou foi pouco”, quando o stalinismo representa a degeneração e um banho de sangue do processo revolucionário da URSS junto a sua restauração capitalista, além de ser uma deturpação do marxismo revolucionário que isolou e burocratizou revoluções pelo mundo.

Colocamos esses debates e esse balanço sobre a gestão do DA FAFICH no último período justamente para debater a partir das experiências práticas como de fato podemos construir uma outra concepção de entidade no movimento estudantil. Uma entidade que seja democrática, participativa e combativa, que esteja profundamente aliada aos trabalhadores e aos movimentos sociais para lutar contra Bolsonaro, Mourão e todos os ataques. E, como parte dessa perspectiva, convidamos as duas chapas e seus apoiadores a impulsionarem dentro da FAFICH e da UFMG uma campanha de solidariedade com os trabalhadores metalúrgicos da Sae Towers de Betim que estão em greve a mais de um mês se enfrentando contra a dura intransigência da patronal, e também fortalecer a luta dos povos indígenas que, depois do enorme acampamento que reuniu mais de 10 mil pessoas em Brasília, essa semana seguem acampados rumo a marcha da mulheres indígenas. Lutas que nos inspiram e precisam ser parte das bandeiras do movimento estudantil.

 
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