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Lunes 10 de Mayo de 2021
02:37 hs.

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Quando o capitalismo encalhou
Vinícius de Oliveira

Na última semana um imprevisto no cronograma de um navio foi um assunto que ganhou destaque nos noticiários e nas redes sociais. O mega navio Ever Given, da empresa taiwanesa Evergreen, ficou encalhado por 6 dias no Canal de Suez, bloqueando uma parcela significativa do comércio marítimo mundial. O que essa inusitada situação diz sobre o sistema capitalista?

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Segundo o jornal britânico BBC, o bloqueio causado pelo navio Ever Given, que ficou atravessado no canal de Suez por 6 dias, segurou por volta de 9,6 bilhões de dólares em comércio por dia. A seguradora alemã Allianz projeta que o atraso causado pelo encalhamento custará ao comércio mundial entre 6 a 10 bilhões de dólares por semana, e causará uma queda de 0,2 a 0,4 pontos percentuais no crescimento do comércio este ano.

Além desses números colossais de prejuízo, houve também um enorme transtorno para outras embarcações que cruzam o Canal de Suez em suas rotas, que ficaram em fila, esperando que algumas retroescavadeiras pudessem concluir seu trabalho de empurrar um dos maiores navios cargueiros do mundo carregado com 18 mil contêineres de volta à sua rota.

As reações foram diversas. Ao passo que as empresas ficaram desesperadas com seus lucros, as redes sociais explodiram em piadas e memes sobre essa situação peculiar. Mas para além do cômico, esse tipo de situação torna explícita, sem dúvida, a fragilidade do capitalismo.

O Canal de Suez foi inaugurado oficialmente em novembro de 1869, financiado com capital britânico, para permitir que navios europeus pudessem encurtar a distância no comércio com a Ásia, evitando assim que fosse necessária a travessia do sul do continente africano para a efetivação do comércio entre os dois continentes. A construção do canal envolveu por volta de 1 milhão e meio de egípcios, dos quais muitos perderam suas vidas na obra devido a uma epidemia de cólera. Este mesmo canal já foi bloqueado em outra ocasião, durante a Guerra de Seis Dias, entre o bloco formado por Egito, Síria e Jordânia contra o recém nascido Estado ilegítimo de Israel, em 1967.

As causas do encalhamento continuam sendo investigadas, mas a principal hipótese é que o vento forte na ocasião da travessia tenha sido o principal fator. Agora, analisemos bem a situação: condições climáticas adversas existem a todo momento, são fenômenos naturais. Mas no capitalismo uma ventania é capaz de causar prejuízos da ordem de bilhões de dólares, e como é de costume dos grandes empresários, quem paga esta conta são sempre os trabalhadores.

Há outros fatos recentes, também, que explicitam a fragilidade do sistema. O mais importante deles na atualidade é, obviamente, a pandemia do coronavírus, que aprofunda uma crise econômica que já se arrastava desde 2008 e adiciona a ela um fator muito relevante, que consiste numa crise sanitária sem precedentes. A pandemia escancarou muito da irracionalidade capitalista ao deixar evidente que os empresários preferem colocar seus funcionários em risco de morte do que arriscar seus lucros. Mas também ficou claro o como esse sistema é débil e frágil, haja visto que uma paralisação de setores de trabalhadores não essenciais pode causar quebras e perdas astronômicas no bolso dos capitalistas.

Prova de que o equilíbrio capitalista balança a todo tempo na corda bamba foi o caso da GameStop. A empresa consistia em uma loja de videogames que tinha como principal atividade a venda de jogos em mídia física, prática cada vez menos comum nesse setor do mercado. Se aproveitando da queda nos preços das ações da GameStop, um fundo de investimentos realizou uma aposta de que essa empresa quebraria em breve. Tal aposta pode gerar enormes lucros no mercado financeiro, mas usuários de fóruns na internet se organizaram para fazer valorizar as ações da empresa, frustrando assim as apostas do fundo de investimento, o que levou a milhões de dólares em prejuízo ao mesmo.

De todos esses acontecimentos, uma coisa fica muito clara: o capitalismo possui inúmeros pontos fracos, e acontecimentos muito simples podem acarretar grandes prejuízos ao sistema como um todo. Seja um barco encalhado, um vírus que poderia ser facilmente evitado com a realização de uma quarentena racional, ou alguns usuários de um fórum da internet minimamente organizados: o sistema pode perder bilhões de uma hora para a outra se não utilizar todas as suas forças para se manter equilibrado.

Se o Ever Given nos demonstrou como o capitalismo pode encalhar de uma hora para outra, ele também nos deu um exemplo simbólico de quem faz o mundo se mover: a classe trabalhadora. Foram trabalhadores do Canal que colocaram suas forças para mover o gigante de 400 metros e colocá-lo de volta em seu caminho. Com uma classe trabalhadora organizada sob uma perspectiva internacionalista é possível extrapolar esses esporádicos eventos que abalam o capitalismo e empurrá-lo de vez da corda bamba em que ele se equilibra.

 
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