www.esquerdadiario.com.br / Veja online / Newsletter
Esquerda Diário
Esquerda Diário

Lunes 10 de Mayo de 2021
19:39 hs.

Twitter Faceboock
Sudeste Asiático
Mianmar: as mulheres na linha de frente
Rosa Vertov
Estudante de Relações Internacionais na UnB

Após o golpe militar no país do sudeste asiático, uma força descomunal fez o mundo olhar para a até então pouco conhecida Mianmar: a força de resistência operária e popular, com as mulheres operárias na linha de frente da greve geral contra o golpe de Estado.

Ver online

A pouco menos de um mês, os militares de Mianmar - a antiga Birmânia, seu nome colonial - tomaram o poder do país através de um golpe de Estado. Não foi a primeira vez que isso ocorreu na história recente no país do sudeste asiático, que passou por uma “redemocratização” em 2011. Na verdade, a história de Mianmar perpassa inúmeros golpes militares, ditaduras, colonização britânica - tudo de pior e péssimo que o imperialismo e suas contradições fazem questão de impor às nações periféricas.

Leia também: Chaves para o golpe militar em Mianmar

Mas eis que, num lugar do mundo até então pouco conhecido da maior parte do público brasileiro, aparece um gigante. Uma greve geral sem precedentes mostra a cara para todo o mundo - com centenas de milhares de mulheres na linha de frente, operárias da indústria têxtil em sua maioria, liderando a resistência ao golpe. Foram anos e anos de experiências acumuladas, na luta, na organização sistemática. A força de resistência não surgiu do nada, foi construída e solidificada em cada ataque policial, em cada abuso patronal.

O proletariado mianmarense é novo. Sua composição é majoritariamente feminina, sobretudo nas grandes cidades industrializadas como Yangon. O país é camponês, em sua maioria, uma economia atrasada, mas que passou por uma rápida industrialização, sobretudo desde o fim do regime militar em 2011.

Saiba mais em: "Os trabalhadores entenderam que o golpe em Mianmar dará ainda mais poder aos patrões"

O então presidente e a Conselheira de Estado Aung San Suu Kyi foram presos pelos atuais golpistas, sendo que a demanda pela libertação de Aung se tornou uma reivindicação de massas. Aliás, não surpreende ver que nem mesmo a própria burguesia respeita as mínimas liberdades democráticas burguesas dentro do capitalismo, o que prova mais do que nunca sua decadência e a necessidade de batalhar pela sua superação.

Um elemento importante para pensar todas essas questão foi o fato de que os militares - e nisso parecem se assemelhar e muito com os milicos brasileiros, basta lembrar os crimes às nações indígenas na ditadura militar brasileira, compiladas no Relatório Figueiredo - são os mesmos que promoveram um genocídio de uma etnia minoritária muçulmana, os Rohyngia. Aung, em boa medida, fechou os olhos para o genocídio Rohyngia, para não se indipor com os militares e causar mais instabilidade. Na época, Aung tentou até desmentir o que estava acontecendo, gerando conflitos com várias ONGs e representantes internacionais dos direitos humanos - inclusive exigindo que retirassem dela seu Nobel da Paz. As “democracias burguesas progressistas”, ainda mais na periferia do sistema, são frágeis e se subordinam ao capital imperialista. A “democracia” de Mianmar não demorou a ruir, mas não sem a resistência implacável da classe trabalhadora.

Aqui se encontra uma contradição interessante: de um lado, está Aung San Suu Kyi, uma “democrata” burguesa; de outro, as milhares de operárias têxteis resistindo com os métodos históricos da classe trabalhadora internacional ao golpe militar. A luta por liberdades democráticas, de organização sindical, de direitos às LGBTs, às etnias oprimidas, os direitos das mulheres - todos eles só podem ser assegurados até o final caso se rompa com qualquer aliança com a burguesia “nacional” (invariavelmente dependente e subordinada aos interesses imperialistas), caso o sistema de exploração e opressão morra e dê lugar à uma organização social de tipo superior. A luta da classe trabalhadora de Mianmar, com as mulheres operárias à frente, mostra o caminho.

Não sabemos o que acontecerá em Mianmar. O fato é que, como a história provou, sem uma direção marxista revolucionária, internacionalista, um partido imbuído de estratégia e preparado previamente para intervir na luta de classes, a fúria se desorganiza e é esmagada. Ou ela é destruída pela burguesia, ou é desviada por direções oportunistas, seja para dentro do capitalismo, ou mesmo para regimes bonapartistas pós-capitalistas (como China, Cuba, Coréia do Norte), sem democracia direta de massas, soviética, com uma burocracia preparando pacientemente o retorno do capital. O que acontece em Mianmar, certamente, demonstra que o capitalismo sobrevive em um equilíbrio instável - mas sem uma coordenação consciente, de uma direção política que seja um catalizador do poder de massas, o imperialismo hora ou outra volta com mais ganância e sede de explorar e oprimir.

Essas lições estratégicas são fundamentais para o Brasil atual. Nesse 8 de março, é fundamental que as centrais sindicais, a CUT e a CTB (dirigidas pelo PT e PCdoB, respectivamente) organizem uma luta consequente contra Bolsonaro, Damares e todo o regime golpista podre, que assassina mulheres trans como Lorena Muniz e Lucca, que aprovou a lei da terceirização irrestrita atingindo uma imensa maioria de mulheres negras, que até hoje não deu respostas ao brutal assassinato político de Marielle Franco. São as mulheres trabalhadoras as que mais estão sendo prejudicadas e oprimidas pelo negacionismo genocida de Bolsonaro e a demagogia elitista de todo o regime do golpe institucional frente à pandemia - por isso a força das mulheres de Mianmar deve inspirar mulheres e homens aqui no Brasil, que passa por um período reacionário.

A luta de classes está viva e pulsa forte! A força das mulheres operárias de Mianmar demonstra, com a chama da revolta e da potência da organização do proletariado, que aqueles que mais sofrem pelo velho são os que com mais vontade lutam pelo novo. Se Trótski, ao fundar a IV Internacional - fortificando os fios de continuidade do leninismo, o partido mundial da revolução - disse “lugar às mulheres trabalhadoras!”, hoje, mais do que nunca, essa bandeira não só é necessária, como também inevitável. A superação revolucionária do capitalismo a nível internacional é o único horizonte verdadeiramente realista, aquele que pode dar espaço para a emancipação da mulher, seja em Mianmar, no Brasil, ou em qualquer outro canto da Terra.

Fonte: Andrew TS/Twitter

 
Izquierda Diario
Redes sociais
/ esquerdadiario
@EsquerdaDiario
[email protected]
www.esquerdadiario.com.br / Avisos e notícias em seu e-mail clique aqui