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Martes 11 de Mayo de 2021
08:04 hs.

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90 ANOS DE TROTSKISMO NO BRASIL
Como nasceu o trotskismo no Brasil?
Willian Garcia
Mateus Castor

No dia 21 de Janeiro de 1931 nascia a Liga Comunista, tendência fundada por Mário Pedrosa, Aristides Lobo e Lívio Xavier no interior do PCB.

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Foto: Mário Pedrosa

Em 1934 a LC transforma-se na Liga Comunista Internacionalista, congregando uma porção de militantes oposicionistas de esquerda alinhados a Leon Trotsky. Nesse movimento se somam a eles importantes dirigentes sindicais, como João da Costa Pimenta, operário gráfico que anos mais tarde cumprirá um papel importante na luta contra o integralismo.

Ainda em 34 acontece a famosa "Batalha da Praça da Sé", em que o movimento operário da época combateu fisicamente o fascismo no Brasil. Mais de 10 mil fascistas da Ação Integralista dirigida por Plínio Salgado decidiram que fariam uma grande manifestação na Praça da Sé, no centro de São Paulo. No dia 7 de outubro daquele ano se dirigiram para a praça da Sé e ali encontraram o que desejaram nunca ter visto: uma forte resistência de esquerda e operária armada até os dentes com paus, pedras, facas e armas de fogo.

Por iniciativa da Liga Comunista Internacionalista se organizou na esquerda a Frente Única Antifascista. A LCI fez um chamado aos anarquistas, socialistas e reformistas de todo tipo para que mobilizassem seus sindicatos e organizassem a resistência em Frente Única. Os trotskistas na época dirigiam a grande União dos Trabalhadores Gráficos (UTG) e fizeram um chamado aos outros sindicatos, inclusive imprimindo milhares de panfletos.

Com seus uniformes verde-oliva, os integralistas tiveram que recuar após horas de enfrentamento físico. Saíram da Praça da Sé desesperados e todos estropiados. E dizem que era possível vê-los correndo a quilômetros de distância dali, esparramados pelo centro. Uma verdadeira "revoada das galinhas verdes", como ficou conhecida na esquerda da época a batalha da Sé. Foi desse modo - não sem enfrentamento físico, não sem feridos e mortos - que a esquerda fez o fascismo voltar para o esgoto.

Mário Pedrosa
Sem dúvidas o episódio das galinhas verdes conferiu enorme referência a Mario Pedrosa enquanto dirigente trotskista, a ponto de em 1938 ele ser eleito delegado da LCI e de todas as seções da Oposição de Esquerda da América Latina para o congresso de fundação da Quarta Internacional em Paris.

Foto: Reprodução / Livro Mário Pedrosa Primary Documents

Pagu
Mais tarde, em 1940, adere ao trotskismo brasileiro Patrícia Galvão. Crítica ao stalinismo e considerada subversiva da moral burguesa, ela rompeu com o PCB e alinha-se à LCI, passando a fazer parte da redação do jornal A Vanguarda Socialista. Pagu foi presa 23 vezes, passou mais de 5 anos presa, foi torturada, perseguida e até obrigada pela direção do PCB a assinar um documento onde se declarava “agitadora individual, sensacionalista e inexperiente”, após ser presa na greve dos estivadores na cidade de Santos. Pagu é sem dúvidas uma das militantes mais emblemáticas da nossa história.

Foto: livro Paixão Pagu - A autobiografia.

A luta dos trotskistas brasileiros pela independência de classe e internacionalismo

Dos nove delegados que fundaram o PCB na década de 20, dois deles passam a reivindicar as bandeiras do internacionalismo contra a burocratização da URSS, aderindo às posições da Oposição de Esquerda Internacional e, depois, com o desenvolvimento do stalinismo, da Teoria da Revolução Permanente de Leon Trotski. João da Costa Pimenta e Joaquim Barbosa eram o nome destes dirigentes operários.


Os fundadores do PCB, entre eles está João da Costa Pimenta (indicado pela flecha)

A luta teórica internacional entre stalinismo e trotskismo teve seu capítulo nacional. Durante os anos 30, o PCB desenvoleu uma tese escrita por Otávio Brandão caracterizando o Brasil como um país de estrutura feudal e agrária e que, portanto, a revolução deveria ser por etapas. A revolução democrática traria a industrialização e modernização capitalista e, apenas com esta concluída, seria a hora da luta pela revolução socialista. Uma concepção típica dos mencheviques russos e que o stalinismo adotou para os países atrasados.

Mario Pedrosa e Lívio Xavier publicam uma teses polemizando abertamente com esta concepção, dando as primeiras bases teóricas nacionais ao jovem grupo trotsksita. Os trotskistas afirmavam o caráter intrínseco capitalista do Brasil, cujo atraso e características pré-capitalistas são mecanismo chave do processo de acumulação nacional e espoliação imperialista. Da mesma maneira que Lênin e Trotsky, não depositavam a mínima confiança na burguesia, mesmo na industrial, já que esta estava umbilicalmente conectada com o latifúndio brasileiro. Era necessário uma estratégia com independência de classe para a conquista dos direitos democráticos mais elementares, assim como para derrotar os descendentes de senhores de engenho que fizeram sua fortuna com a escravidão.

E as conclusões políticas desta tese pudemos ver no processo que narramos acima. Foi com a independência de classe que as galinhas verdes voaram. Foi através da unidade da classe trabalhadora, se colocando a luta, mas mantendo as diferenças e limites entre as organizações operárias, que o integralismo foi jogado na lata de lixo da história brasileira.

Nos dias de hoje, em um momento de intensa crise capitalista, rasgada por uma pandemia global, há lições da história do trotskismo brasileiro que precisam ser retomadas. Não será buscando alianças "táticas" com Doria, STF, Paes, Rodrigo Maia e nenhuma outra figura que em 2016 deu um golpe mas que hoje se posa de opositora contra o governo, que Bolsonaro e todos seus ataques antidemocráticos e econômicos serão barrados.

Somente a classe trabalhadora, aliada aos setores mais oprimidos da sociedade brasileira, é quem detém a força para derrotar os ataques de Bolsonaro e conjunto deste regime apodrecido.

 
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