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Lunes 21 de Junio de 2021
16:45 hs.

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“IndustriALL Brasil”: qual é a unidade necessária para derrotar os ataques do capitalismo em crise?
Tatiane Lima

Em meados de novembro de 2020, as duas maiores centrais sindicais brasileiras, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical, realizaram a fundação da IndustriALL Brasil — uma entidade comum que unifica suas direções sindicais dos ramos da indústria têxtil, de vestuário, do couro, metalúrgica, química e farmacêutica. A entidade nasce em meio à profunda crise econômica mundial, agravada pela pandemia da Covid-19, com um discurso de defesa da reindustrialização nacional, da oferta de empregos de qualidade e pela adequação às novidades tecnológicas.

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Imagem: Alexandre Alves

A iniciativa de criação da IndustriALL Brasil foi baseada na IndustriALL Global Union, um sindicato global fundado em 2012 para unificar sindicalistas do setor industrial de mais de 140 países. Destes, há destaque para o Brasil, que já contava com a participação de dirigentes sindicais da CUT e da Força na entidade e elegeu o ex-diretor de comunicações do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Valter Sanches, como seu secretário-geral, em 2016.

A IndustriALL Global Union tem sua sede em Genebra, na Suíça, e escritórios na América Latina e Caribe, no sudeste e sul da Ásia, no Oriente Médio, no norte da África e na África Subsaariana, e também na Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Sua fundação veio da fusão de sindicatos globais filiados à Federação Internacional dos Trabalhadores em Metal, à Federação Internacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Minas, Energia e Química e à Federação Internacional dos Trabalhadores em Têxteis, Vestuário e Couro (FMI, ICEM, ITGLWF respectivamente, nas siglas em inglês).

Com a live de lançamento realizada no dia 17 de novembro [1], a IndústriALL Brasil se apresentou como uma nova articulação entre a CUT e a Força para se colocar no debate sobre os rumos do setor industrial brasileiro, junto às representações patronais, vislumbrando inclusive a construção de propostas legislativas a serem encaminhadas via parlamentares aliados.

A aproximação dessas centrais historicamente opositoras já havia se dado desde o ano de 2018, através da criação do Movimento Brasil Metalúrgico, com um slogan contra o fim dos direitos dos trabalhadores, em meio à ascensão de Bolsonaro. Anos antes, em 2011, ambas centrais também se reuniram junto à FIESP e a alguns destacados representantes do governo Dilma para realizar o Seminário “Brasil do diálogo, da produção e do emprego".

Com o anúncio de que segue aberta para novas adesões de outras centrais sindicais e de que não se trata de uma entidade com funções sindicais propriamente ditas, os fundadores da IndustriALL Brasil remarcaram em seu lançamento a concepção sindical totalmente institucional que possuem, pautada em primeiro lugar pelo diálogo com patronais, governos e o Estado, por fora da própria luta da classe trabalhadora, a despeito da força material que poderiam articular — essa unificação representa cerca de 10 milhões de operários e operárias industriais nacionalmente, de um total de 18 milhões de trabalhadores do setor.

Esse fato fica claro com a declaração do presidente da entidade, o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC), Aroaldo Oliveira, em entrevista ao Valor Econômico:

“Não sei se o termo certo é parceria, mas queremos fazer um trabalho muito próximo com sindicatos patronais e associações empresariais. Por mais que a gente tenha divergências, a convergência é o desenvolvimento do Brasil. Em grande parte, o discurso é o mesmo, criar política industrial, produção nacional. Mas o que a gente avança é que nosso intuito é criar emprego de qualidade e geração de renda.”

É emblemático que em todo o material de divulgação da entidade unitária, assim como nas diversas entrevistas realizadas, não há sequer uma menção do papel que a base dos trabalhadores teria nesses debates. A nova entidade já nasce com a mais velha prática burocrática de suas direções, que são acostumadas a negociar os interesses dos trabalhadores em reuniões de cúpulas, a portas fechadas.

Também é notória a ausência de um combate contundente à reforma trabalhista nas apresentações do projeto. Reforma esta, vale lembrar, que foi aprovada no governo golpista de Temer com a traição das referidas direções sindicais à aspiração de resistência dos trabalhadores, e que veio sendo aprofundada pelo governo de Bolsonaro e Guedes, com o aval do Congresso e do judiciário para rasgar a constituição e as leis trabalhistas, alcançando uma ampla implementação sem uma resistência ativa, mesmo com o fato de que somente a base operária comum da CUT e Força ultrapassa 37 milhões de trabalhadores de diversas categorias.

Capitalismo em crise, tecnologias e a localização das centrais sindicais

Os ataques aos trabalhadores da indústria brasileira foram parte da agenda do capitalismo globalizado. A política neoliberal chegou ao Brasil e impactou fortemente a indústria, sobretudo no fim dos anos 80 e início dos 90, com a privatização de empresas, demissões massivas ou fechamentos de filiais de grandes multinacionais. Esse ataque frontal às condições materiais dos trabalhadores, também tinha como alvo impedir a organização enquanto uma só classe que atua para si — Sendo esta uma via de derrotar estrategicamente os setores mais organizados e radicalizados, como os próprios metalúrgicos, que no ascenso de fins dos anos 70 e início dos 80 haviam dado um golpe de morte na Ditadura Militar.

O parque industrial nacional já representou um terço do PIB em décadas anteriores, sendo hoje responsável por cerca de 11%, porém segue com enorme relevância e está distante de cenários catastróficos como o apelado no vídeo exibido no lançamento da IndustriALL Brasil, com a afirmação de que “caminhamos para a extinção da nossa indústria”.

Apesar das aspirações de Bolsonaro de que o Brasil se torne uma grande fazenda de commodities do mundo “e ponto” e do seu sonho servil de uma primarização da economia ao sabor do agronegócio, há a classe operária industrial e urbana de milhões que precisa ser derrotada para levar adiante esse plano, além do próprio papel que o Brasil cumpre nas cadeias globais de valor. Nem mesmo Trump foi capaz de enfrentar a estrutura do capital globalizado com suas aspirações nacionalistas, de outra ordem das de Bolsonaro.

No tema da desindustrialização, os objetivos elencados pela CUT e Força no lançamento dessa entidade são a “promoção de empregos e renda de qualidade” e o desenvolvimento de pesquisa e de tecnologias para integrar os trabalhadores à “inovação” que ocorre no setor produtivo à nível internacional, para que o parque industrial nacional seja fortalecido em nome da “soberania nacional”.

Um discurso um tanto contraditório, se visto pela lente do cenário atual, no qual os atores que as direções sindicais buscam “mobilizar” estão unificados ao governo Bolsonaro, ao Congresso Nacional e ao poder judiciário em um pacto para aplicar ajustes fiscais draconianos, seguindo religiosamente a agenda do capital financeiro. Mais que isso, a própria agenda de “inovação” e “modernização”, com os interesses patronais em primeiro plano, é um instrumento de maior precarização do trabalho e não o seu oposto.

É ausente, também, nos planos das centrais uma visão de classe do desenvolvimento do capitalismo e o lugar que seus representantes querem relegar aos trabalhadores. De fato, o advento das novas tecnologias marca significativamente o mundo do trabalho nos dias atuais, porém, o faz de uma maneira desigual e combinada, na economia globalizada. Prova disso é que, mesmo diante deste cenário de retração, na indústria nacional há experiências com tecnologias de ponta sendo realizadas nos chãos de fábricas de gigantes multinacionais, como é o caso da Mercedes-Benz de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde através da plataforma da Indústria 4.0 serve aos capitalistas duplamente: automatizando, provendo de informações e ampliando a capacidade produtiva nos postos de trabalho, ao passo que fornece dados de todas as operações realizadas nesses postos, ampliando a capacidade de controle da patronal de maneira recorde [2].

A reivindicação acrítica das ferramentas e plataformas tecnológicas, bem como da relação das entidades trabalhistas com centros de excelência e universidades para promoção de pesquisa passa uma interessada visão de que tais tecnologias e processo de produção e emprego do conhecimento são neutros. Contra essa visão, como já discutimos neste semanário não por um acaso a Ifood, uma das maiores marcas da uberização do trabalho e dos seus efeitos brutais no Brasil e na América Latina foi “incubada” nos laboratórios da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Enquanto isso, a opinião de especialistas em saúde ocupacional mostra que a aplicação de ferramentas tecnológicas combinadas ao maior controle patronal pode levar até mesmo a graves consequências para a saúde dos trabalhadores [3].

Além dos efeitos contra a saúde, o uso capitalista da tecnologia tem como objetivo controlar e minar a organização dos trabalhadores, atacando a própria morfologia da classe operária. Numa fragmentação aprofundada em patamares históricos, nossa classe não é dividida apenas entre empregados e desempregados ou efetivos e terceirizados como no auge da ofensiva neoliberal, mas passa também pela divisão de novas modalidades e regimes de trabalho precários, intermitentes, uberizados, pejotizados, imigrante etc.

Não se trata de uma incompreensão por parte das direções da CUT e Força Sindical do uso de classe que fazem os capitalistas nacionais e internacionais das tecnologias e da reestruturação produtiva. Trata-se de uma concepção reformista que é conciliadora por essência, e que se torna ainda mais reacionária em tempos de crises agudas como a que enfrentamos. A construção dessa nova entidade pode ter objetivos reais mais ligados à auto preservação das burocracias sindicais em um cenário que estas também foram impactadas, como a imposição do governo do fim da obrigatoriedade do imposto sindical. Podem estar buscando unir forças para se mostrar útil em meio às transformações em curso, ao passo que buscam barganhar junto à patronal e setores da política dominante, buscando atuar enquanto agentes do controle e da ordem, o que significa prestar auxílio à implementação da agenda da uberização contra a base de trabalhadores industriais.

Compromisso com a classe trabalhadora ou com os patrões?

A política completamente adaptada ao regime político vigente, mesmo com seu alto grau de degradação e autoritarismo do bonapartismo institucional desatado pós-golpe de 2016, se expressou ao longo deste ano, em plena pandemia, com a passividade fundamental e os acordos traidores dessas centrais para a aplicação da Medida Provisória 936.

A MP 936 permitiu acelerar a aplicação das regras da reforma trabalhista em plantas fabris onde ainda não havia sido implementada, assegurando aos lucros patronais a garantia das demissões, cortes de salários entre outros ataques contra a classe trabalhadora, espremida entre a ameaça do desemprego e o risco do coronavírus. Esse foi um papel criminoso, de “parceiro” das centrais com os principais atores do regime do golpe institucional.

A essa parceria reacionária se soma a atuação das centrais na contenção e desarticulação da luta dos trabalhadores diante de ataques brutais, como no caso do fechamento da Ford de São Bernardo do Campo e das demissões massivas na LATAM. Também é parte da prática dessas burocracias frear as aspirações de combate dos trabalhadores, apostando numa estratégia judicial para controlar e disciplinar greves nacionais de fôlego, como a luta por empregos e contra a privatização da Petrobrás e dos Correios ocorridas neste ano.

A unidade necessária é a dos fragmentados setores da classe operária, através da sua organização e luta coordenada nacionalmente para enfrentar todos os ataques impostos pelos governos, patrões e seus representantes no Estado e na sociedade civil. A estratégia petista de frente ampla, com unidade política com os inimigos dos trabalhadores no terreno eleitoral, ou mesmo no terreno sindical nos compromissos com a patronal, já mostrou que serve apenas para facilitar a ofensiva do capital.

CUT, Força Sindical e todas as centrais sindicais estão chamadas a colocar os sindicatos que dirigem em função dessa tarefa urgente de construção de uma frente única operária em cada chão de fábrica e local de trabalho, superando as barreiras organizativas, unificando os trabalhadores filiados e os não sindicalizados, junto aos temporários, imigrantes e levando adiante um grande chamado à mobilização nacional, incluindo a juventude que luta em defesa da educação e que pode disputar a produção científica e tecnológica das universidades para que sirvam aos interesses dos trabalhadores.

 
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