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Lunes 26 de Octubre de 2020
12:18 hs.

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RIO GRANDE DO SUL
A unidade do MES/PSOL com a REDE golpista em Cachoeirinha e a falta de independência de classe
Guilherme Costa

A aliança com a REDE em Cachoeirinha, sob um programa de conciliação de classes e “parceria” com empresários, vai na contramão da constituição de um polo de independência de classes nessas eleições municipais. Abrimos esse debate com o PSOL, em especial o MES, tendo em vista a importância dessas eleições em meio ao governo Bolsonaro, a própria situação dos trabalhadores de Cachoeirinha e os caminhos para se fortalecer uma alternativa independente dos trabalhadores em nosso país.

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Depois de tentar insistentemente compor a chapa de Manuela D’Ávila, em aliança também com o PT em Porto Alegre, o PSOL gaúcho, dirigido pelo MES, fecha aliança com a REDE Sustentabilidade na cidade de Cachoeirinha, na zona metropolitana de Porto Alegre, para disputar a prefeitura em 2020. O candidato à prefeito da REDE, Antonio Teixeira, selou aliança com Ester Ramos, do PSOL, e vem de uma trajetória antiga na política da cidade. Com 74 anos, o ex-bancário e atual empresário do ramo de sítios de lazer já teve 4 mandatos de vereador na cidade gaúcha, fez parte do PSB do atual prefeito durante 12 anos, pulou para a REDE, flertou com o PRB do ultrarreacionário Marcelo Crivella durante o ano passado, entrou no PTB do bolsonarista Roberto Jefferson durante alguns meses de 2019 e voltou para a REDE para disputar a prefeitura em 2020. A REDE de Marina Silva, vale lembrar, é a mesma que defendeu o impeachment de Dilma, pulando no barco dos golpistas de mala e cuia, golpe que abriu espaço imenso para o fortalecimento da extrema-direita e Bolsonaro no país.

A justificativa para sair do PTB não teve nada a ver com o apoio do partido à reforma da previdência, à política criminosa ao governo Bolsonaro e todas as suas atrocidades – foi mero cálculo eleitoral, tendo em vista que dificilmente se lançaria como prefeito nessa legenda. Pelo contrário, Teixeira ainda agradeceu pelo tempo dentro da sigla do corrupto Roberto Jefferson. De volta à REDE, Teixeira quer ser eleito e, dessa vez, encontrou no PSOL um bom aliado para disputar a prefeitura contra o atual prefeito Miki Breier (PSB).

É absurdo o PSOL estar fechando chapa com uma figura errática como essa que pula de partidos burgueses para outros em base a cálculos eleitorais. O PSOL aprovou em seu congresso nacional a possibilidade de alianças com partidos como PT e PCdoB, deixando em aberto aliança com os partidos burgueses como PDT, PSB e REDE, que tiveram parlamentares votando na reforma da previdência e outros ataques. Em Cachoeirinha governa o PSB de Miki Breier, que ficou famoso nacionalmente pelo super salário de quase R$ 30 mil, o maior do país na época entre prefeitos, e indícios de nepotismo na administração).

Criticamos o PSOL várias vezes pelas alianças eleitorais com partidos burgueses por seguir caminho semelhante ao do PT e, Brasil afora, ter práticas semelhantes aos velhos partidos fisiológicos do regime. Alianças como essas dificultam a emergência de uma alternativa política dos trabalhadores, com independência de classe, que permita aos trabalhadores apresentar um programa que enfrente o capitalismo, o próprio bolsonarismo, as distintas alas golpistas do regime e a política de massacre da população em meio à crise pandêmica e econômica.

E chama ainda mais atenção o PSOL gaúcho impulsionar alianças desse tipo, tendo em vista que a direção estadual esteja nas mãos do MES, corrente interna que recentemente criticou a direção nacional por se aliar a partidos como o PT e PCdoB. A pré-candidatura de Sâmia Bonfim, por exemplo, em São Paulo, se pautou por críticas a Boulos pela sua aproximação programática com o Partido dos Trabalhadores. Por que as críticas em São Paulo não valem em Cachoeirinha onde o PSOL se alia à REDE de Marina Silva, a mesma que chamou voto em Aécio Neves em 2014, apoiou o golpe em 2016 e busca construir um capitalismo verde? Em Novo Hamburgo o PSOL vai sair em chapa conjunta com o PCdoB e o PT, desprezando novamente a independência de classe. Qual será a posição da direção estadual? Em Porto Alegre, Melchionna vai sair sozinha, mas menos pela defesa de um projeto independete do PT do que pela negativa deste. Como colocamos em outro texto, durante meses o MES tentou se aliar ao PCdoB de Manuela D’Ávila e ao PT de Tarso Genro para compor chapa conjunta à prefeitura de Porto Alegre, mas sua proposta de prévias foi negada. O MES vem de uma trajetória de receber dinheiro de Zaffari, Gerdau, Braskem, Panvel e outras na campanha de Luciana Genro, de apoiar um empresário no Rio Grande do Norte em 2018, passando por uma política de apoio ao implementador do ajuste neoliberal grego, Syriza, e mais recentemente se apoiando na candidatura de Bernie Sanders dentro do Partido Democrata Norte Americano. Ou seja, acumula exemplos de ruptura da independência de classe, indo no sentido oposto da construção de um polo que supere a conciliação de classes.

Nas palavras do próprio Teixeira, sua prefeitura quer ser marcada pela palavra mágica “parceria”: “Hoje não se faz nada, principalmente em uma Prefeitura em crise, sem a parceria do funcionalismo, dos empresários e da comunidade”, disse Teixeira em entrevista do final do ano passado.. Há exemplo mais ilustrativo de uma candidatura que vai expressar a conciliação de classes que tanto criticamos? Hoje o PSOL não apenas apoia uma candidatura de conciliação de classes como essa, como encampa a vice-candidatura, com o nome da psolista Ester Ramos. Uma aliança como essa, que o MES/PSOL está encampando em Cachoeirinha, vai na contramão de construir uma alternativa independente dos trabalhadores, que consiga se enfrentar com a burguesia e os empresários que querem que a população e os trabalhadores paguem pela crise capitalista. Nas últimas eleições o MES ficou marcado pelo apoio indiscriminado à Lava-Jato, o apoio ao golpe até os 48 do segundo tempo e a aliança com o PPL, este ano saem com a REDE, o mesmo partido que até a pouco liderava o governo de Marchezan na câmara dos vereadores de Porto Alegre para aprovar ataques brutais contra os servidores, rodoviários, trabalhadores de aplicativos e outros.

O projeto político do atual prefeito Miki Breier não será derrotado dessa forma, construindo uma candidatura de conciliação de classes com figuras fisiológicas que até ontem flertava com o PTB e hoje representa o partido de Marina Silva. Miki Breier vem atacando brutalmente os trabalhadores e não é de hoje. Em 2017, durante greve dos servidores, o prefeito reprimiu brutalmente os grevistas que se mobilizaram heroicamente contra o desmonte do serviço público.

Desde então seguiu atacando os servidores e trabalhadores da cidade em geral. Mais recentemente, em junho deste ano, os terceirizados de Cachoeirinha tiveram seus salários atrasados pelas empresas contratadas pela prefeitura, cuja responsabilidade recai sobre o próprio Breier. Os casos de Covid crescem na cidade e os trabalhadores da saúde chegaram a publicar uma carta à população denunciando o descaso e a enorme crise pela qual passa o sistema de saúde. Esses, e tantos outros problemas, não serão enfrentados fazendo “parcerias” com empresas, como o candidato da REDE propõe e o PSOL impulsiona.

Nesse sentido, nós do MRT lançamos a pré-candidatura de Valéria Muller em Porto Alegre, que está a serviço de desenvolver a luta e a mobilização dos trabalhadores, defendendo um programa que faça com que sejam os capitalistas que paguem pela crise. Também em Cachoeirinha é necessário defender a proibição de todas as demissões, uma reforma urbana que gere empregos e possa garantir a ampliação das redes de saúde e educação, assim como também resolver o problema da moradia e do saneamento básico. Além disso, a vida em nossas cidades é profundamente relacionada com a política nacional, por isso também as eleições municipais são um espaço para uma grande campanha pelo não pagamento da dívida pública aos banqueiros. Além disso, a cidade conta com diversas indústrias, particularmente metalúrgicas, que suspendem contratos de trabalho e cortam salários, além daquelas que demitem, deixando os trabalhadores na miséria. É preciso defender a reconversão industrial e mais contratações, além do controle operário daquelas que ameacem fechar as portas. O PSOL, ao invés de apresentar uma candidatura que apresentasse um programa para que os capitalistas paguem pela crise em Cachoeirinha, decide se aliar com um partido burguês, cuja candidatura tem histórico fisiológico, cuja política é de conciliação de classes, seguindo a mais velha tradição de oportunismo político que rompe a independência de classe.

No Brasil de Bolsonaro, e em toda a América Latina que vem recebendo ataques em distintos países, se faz urgente a construção de uma organização com independência de classe, que batalhe por um programa anticapitalista dos trabalhadores, que construa uma organização de combate de fato. O mínimo para desfazer tamanho desprezo pela independência de classe seria o MES rever essa política de aliança com partidos burgueses.

 
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