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Domingo 25 de Octubre de 2020
10:37 hs.

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CULTURA
Beija-Flor e o Mercado do Carnaval
Marcela de Palmares
São Paulo
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Com o título de “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial” o samba-enredo fala sobre a África e esse país, mas esconde que é considerado um dos mais pobres da África e é há 25 anos governado por um dos estadistas mais ricos do mundo segundo a revista Forbes. São inúmeras as denuncias de violação de direitos humanos de todos os tipos, fora o alto nível de corrupção que levou a todo esse montante de dinheiro acumulado e que serviu para doação à escola de samba.

Como é possível que no carnaval, construído por mãos negras, exista um samba-enredo financiado por um ditador que domina um país africano ganhando rios de dinheiros e deixando o povo negro na miséria?

Se olharmos para trás vamos perceber que esse tipo de negociação não acontece só na Beija-Flor. Pelo contrário, não é a primeira vez, nem provavelmente a última, que o carnaval das escolas de samba do Rio e São Paulo se envolvem nesse tipo de escândalo. Se pararmos para procurar, encontraremos casos como dinheiro da Petrobrás para escolas do Rio, relacionamento com bicheiros, ditadura militar etc.

Nascidas nas favelas e morros, as escolas de carnaval fazem parte da cultura popular brasileira, foram construídas por trabalhadores das comunidades, em sua maioria negros e negras. As escolas de samba nascem como forma de resistência dos negros contra o Estado que queria apagar as formas de cultura ligadas aos escravizados africanos. Essas escolas são parte da luta negra para conseguir um espaço para legitimar suas manifestações.

Na década de 60 já podemos observar a transformação dos desfiles em um grande espetáculo e com o passar do tempo é possível constatar que assim como outros elementos de nossa cultura, o carnaval também se adaptou à lógica de mercado do capitalismo, onde tudo vira mercadoria.

Hoje, só em São Paulo e no Rio de Janeiro, o desfile das escolas de samba se transformou num grande balcão de negócios, com a venda de ingressos, camarotes de grandes marcas, turismo, venda de fantasias para desfilar na escola por preços altíssimos etc. Todas essas mudanças fazem do carnaval das grandes escolas de samba cada vez mais elitista e afastado do povo que tem que se contentar em ver as escolas de samba na TV.

Além de sua mercantilização, o carnaval também vai perdendo sua origem mais negra, nas passarelas podemos ver rainhas de baterias, em sua maioria famosas e brancas, desfilando com fantasias que custam milhares de reais. As passistas negras ainda tem seu espaço nas passarelas, mas já não ocupam os lugares de destaque.

Apesar de ainda reservar no desfile lugar para a comunidade, o destaque das escolas hoje são os famosos homenageados ou que compram seu lugar. E como com outro elemento de resistência da cultura negra vemos também no carnaval se reproduzir um embranquecimento da cultura para poder vendê-la como mercadoria.

O que o escândalo da Beija-Flor teve a nos mostrar é que por trás dos grandes espetáculos dos desfiles da escolas de samba, o que existe é um grande balcão de negócios, onde poucos ganham muito e onde cada vez mais a comunidade vai perdendo espaços para grandes empresários, famosos e quem mais estiver disposto a gastar muito dinheiro.

 
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