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Jueves 15 de Abril de 2021
01:50 hs.

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ENEM
O adiamento do ENEM é o mínimo diante da gravidade da pandemia do Coronavírus
Ricardo B

O ministro lunático Weintraub e o INEP decidiram manter o calendário do ENEM mesmo em meio à pandemia de Covid-19. Em um momento em que as aulas em todo o país estão suspensas ou ocorrendo de forma precária por plataformas digitais, a manutenção do calendário significará a exclusão dos estudantes que não têm acesso a meios alternativos de estudo. É um aprofundamento do caráter de filtro social de uma prova que excluirá ainda mais jovens pobres e negros de entrarem nas universidades.

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Nas últimas semanas surgiu o tema da manutenção do ENEM em meio à pandemia, defendida por Abraham Weintraub e pelo INEP, que coloca em relevo uma série de questões referentes a acesso ao ensino, qualidade da educação e segurança dos estudantes. Uma medida de um governo inimigo da educação, que desde ano passado vem aplicando cortes na pesquisa e no ensino, tentando avançar na privatização e nomeando interventores nas universidades, desta vez, mostram mais uma vez que em seu projeto de educação não há lugar para os estudantes pobres, negros e filhos de trabalhadores.

Como esperam que os estudantes se preparem para o Exame Nacional do Ensino médio em um momento de escolas fechadas e aulas paralisadas? Quase todas as redes de ensino do Brasil suspenderam as atividades escolares e algumas poucas, privadas em sua maioria, mantiveram atividades à distância (EaD).

Weintraub afirmou em uma declaração escabrosa em seu twitter que os estudantes devem continuar se preparando: “Eu sei que o coronavírus atrapalha um pouco, mas atrapalha todo mundo. Como é uma competição, tá justo”. Do alto de seu mau-caratismo despreza completamente as profundas desigualdades que atravessam a educação básica no Brasil, que já em situações de “normalidade” nos mostra escola públicas caindo aos pedaços, com falta de professores, salas super-lotadas, falta de materiais didáticos, falta de merenda e uma completa insuficiência para atender às necessidades de grande parte da juventude que muitas vezes se encontra em situações de vulnerabilidade social, familiar e/ou econômica.

Com a quarentena das redes de ensino, tais desigualdades se aprofundam ainda mais. Se antes a maior parte dos alunos do ensino médio tinham acesso a um ensino precário, agora amplos setores da juventude não têm acesso a ensino nenhum.

A “alternativa” do ensino à distância por si só acarreta vários problemas estruturais e pedagógicos da educação, representando um avanço nos projetos privatistas e de desmonte da educação (e das relações de trabalho dos educadores) e dificultando a relação de aprendizagem com um método mecânico de ensino que não dá conta das particularidades dos estudantes, como o sociólogo Mauro Sala explorou muito bem neste artigo. Ainda assim, neste momento acaba sendo, de certa forma, um privilégio de redes privadas, com melhores recursos para implementar um sistema de ensino em plataformas digitais e alunos com maior facilidade de acesso a aparelhos digitais e internet.

Em um sistema de ensino que a EaD se torne regra, os estudantes das redes públicas, das escolas carentes e das periferias serão extremamente prejudicados. Já começam a se esboçar para algumas redes de ensino públicas parcerias com a Google para aplicar ensino à distância. Porém, ao analisar os dados de inclusão digital no Brasil, as perspectivas para este ensino à distância nas redes públicas se mostram catastróficas.

No Brasil, 30% da população e 33% dos domicílios ainda não tem acesso a internet, e os dados são ainda mais alarmantes quando dizem respeito às zonas rurais ou às camadas mais pobres da população: apenas 49% da população rural e 48% das pessoas que se encontram nas “classes” D e E tem acesso à internet. Ou seja, menos da metade.

Os dados também mostram que o acesso se dá predominantemente por celulares. O que faz a conexão de grande parte da juventude ser extremamente precária, seja pelos pacotes de dados limitados, seja pelas limitações tecnológicas de seus aparelhos. De qualquer modo, aceitar o EaD como política educacional significa excluir completamente grande parte da juventude mais pobre desse processo.

Além disso, a quarentena muitas vezes torna o ambiente de casa muito mais conturbado, com pais e irmãos em casa, sobretudo nas casas das famílias mais pobres, numerosas e das favelas em que as casas muitas vezes têm poucos cômodos para muitas pessoas.

Não pode ser que diante de tudo isso o Ministério da Educação e o INEP mantenham o calendário convencional do ENEM, excluindo a juventude pobre, trabalhadora e negra de entrar nas universidades. Além de, é claro, colocar a vida de milhões de estudantes em risco mantendo, em meio a uma pandemia que já matou dezenas de milhares, um evento que envolve o deslocamento e participação de 5 a 8 milhões de inscritos todos os anos.

Os capitalistas querem uma educação para poucos, privatizada e que seja voltada aos lucros das grandes empresas. Vemos nesta pandemia as terríveis consequências de anos de cortes e desinvestimento em educação e pesquisa, com uma insuficiencia generalizada para tomar medidas que possam frear a pandemia. Ainda assim as universidades vêm cumprindo um papel importantíssimo na produção de álcool 70%, testes e pesquisa para a produção de respiradores mecânicos de baixo custo, mostrando o potencial que têm estas instituições caso fossem voltadas totalmente para atender as demandas sociais da classe trabalhadora e toda a população. A exclusão da juventude trabalhadora que é promovida pelos filtros sociais do vestibular e do ENEM, e o aprofundamento dessa exclusão que quer Weintraub mantendo o ENEM em meio à pandemia vai na contra-mão desta perspectiva.

É preciso adiar o ENEM! Toda a juventude deve ter acesso à educação e direito de acessar uma universidade. A UNE e os DCEs e CAs precisam colocar todo seu peso em uma campanha exigindo o adiamento do ENEM para depois da pandemia, com professores e estudantes debatendo a melhor forma de readequar o calendário e o próprio ENEM, para que nenhum estudante seja excluído da universidade por conta de uma crise sanitária do capitalismo que a burguesia têm sido incapaz de resolver. Assim como para que, desde iniciativas de trabalhadores e estudantes, todas as universidades e escolas do país estejam a serviço de combater a pandemia e seus impactos sanitários, sociais e econômicos, para que não sejamos nós jovens, trabalhadores e todo o povo negro e pobre a pagarmos por esta crise.

Veja também: A Covid-19 e o papel das universidades na busca por respostas à crise capitalista (Parte 1)

 
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