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Sábado 24 de Octubre de 2020
14:56 hs.

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DEBATE CORONAVÍRUS
Milhares em debate ao vivo com Safatle, Antunes e Virgínia Fontes no Esquerda Diário
Redação

O debate com os três intelectuais pautou os principais temas da atual crise política que se potencializa e aprofunda no marco do alastramento da crise sanitária gerada pela COVID-19. Nas interações entre os intelectuais, comentadas por Simone Ishibashi, editora do Suplemento teórico Ideias de Esquerda, ficou clara a visão mais profunda e inegável dessa crise: é preciso colocar as vidas acima do lucro.

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O debate com três dos intelectuais marxistas mais relevantes do país pautou os principais temas da atual crise econômica e política que se potencializa e aprofunda no marco do alastramento da crise sanitária gerada pela COVID-19. No Brasil, diferente da grande maioria dos países do globo, os próprios capitalistas já projetavam uma crise de enormes proporções, com um vivo debate em amplos setores sobre quais serão os seus efeitos. Nesta, que é uma primeira nota sobre esse importante debate ocorrido na noite dessa sexta-feira, 03/04, ressaltamos o caráter anticapitalista e de denúncia das medidas capitalistas para a crise que deram o tom da discussão, assistida por milhares de pessoas.

Virgínia Fontes, professora de história da UFF e autora de Brasil e o capital imperialismo, fez a primeira fala indicando que “A crise não começa com a pandemia. A burguesia sabia que já vinha...é uma crise de superprodução de capital, mas que veio associada com a crise da pandemia. É uma crise de uma escala que a gente ainda não conhece. O que traz uma disjuntiva brutal que foi o debate entre a defesa da vida ou a defesa do lucro. O conjunto das lutas sociais que vinham lutando contra os ataques, contra o racismo, contra o machismo, de alguma maneira se encontram canalizadas na luta pela vida e contra o lucro. Esta disjuntiva não vem sozinha, vem como uma espécie de continuidade do que já vinha um aumento de controle brutal dos seres singulares, que também é contraditório. Ao mesmo tempo que permite que estejamos aqui conversando nas redes sociais, os grandes amealhados de recursos, inclusive recursos públicos utilizam isso aqui com robôs. Acaba de sair uma matéria com os dados de uso de robôs bolsonaristas. Mas o mais importante é não perdemos essa dimensão estratégica de lutar pelas vidas e não lucros. (...) Essa disjuntiva está posta não apenas no cenário brasileiro, mas internacional. (....) A possibilidade de violência está posta. Não se pode esquecer o encarceramento, a repressão policial, que aumentou muito nos últimos 15 anos”.

Também destacou que a base do Bolsonaro são as milícias do Rio de Janeiro, organizados pela segurança privada, grupos de baixa patente, que se conformam principalmente depois que Bolsonaro tivesse seu acesso a essas bases facilitado pelas Forças Armadas. A partir da formação de uma espécie de grupo de capangagem que se reúne em torno do” leva a tensões e fissuras, com dois comandos das forças militarizadas, o das Forças Armadas, e outro difuso, que é publicamente expresso pelo que ficou conhecido como “gabinete do ódio”.

Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP e autor Dar Corpo ao Impossível, seguiu as discussões da noite ressaltando o aspecto histórico da formação da burguesia brasileira, marcada pelo saque, a banalização da morte de determinadas parcelas da população, e o alastramento da miséria social. Reforçou uma leitura fundamental à esquerda e à intelectualidade brasileira, de que nas mãos de Bolsonaro, os rumos da crise são de milhares de mortes e muito mais lucro capitalista. Ressaltou que essa classe burguesa que domina a política e tem nas mãos os rumos da crise não está forjada na solidariedade, enquanto há diversas ações solidárias que comprovam o caráter transformador das populações mais pobres e da classe trabalhadora. Em suas palavras:

O Brasil foi uma dupla crise, a crise do coronavírus e do governo federal que faz de tudo para que transformar essa crise em algo completamente ingerenciável. Eu insisto em alguns aspectos sobre isso porque me parece que isso desnuda de maneira muito clara a matriz do que é o capitalismo brasileiro e o que é a sociedade brasileira. Nessa crise emerge com muita força uma lógica que mostra como o Estado brasileiro se organizou a partir de uma matriz escravocrata. E essa matriz tem como uma das suas características estabelecer duas formas de sujeitos. Existem aqueles sujeitos reconhecidos como pessoas que quando morrem têm direito a luto, a comoção nacional, a narrativas na história. E sujeitos que são colocados na condição de coisas. Eles são números, quando morrem viram números. Isso sempre foi uma matriz da gestão do Estado brasileiro, gerenciando uma certa lógica de desaparecimento de corpos. Só que agora existe um dado novo. É que esta lógica foi colocada para toda a população, que foi colocada nesta lógica de que o engenho não pode parar”.

Também destacou como o setor que apoia Bolsonaro não o abandona em qualquer situação, porque há um processo de identificação ideológica no sentido mais clássico do termo, pois nenhum fato consegue retificar a crença. Afirmou ainda que seria perda de tempo achar que numa situação como essa se pode quebrar essa unidade, ou controlar Bolsonaro, e por isso Vladimir Safatle reafirmou sua posição de apoiar o impeachment como uma saída inexorável para a crise brasileira.

Ricardo Antunes, professor de sociologia da Unicamp e autor de O Privilégio da Servidão, fez a terceira fala da noite, e em sua intervenção reivindicou o papel da classe trabalhadora na reprodução e produção da vida, algo que essa crise capitalista está sendo incapaz de ocultar. Ressaltou então que ela deve ser a protagonista da resolução da crise, a partir tanto das demandas essenciais para evitar mortes e colocar “a vida acima do lucro” quanto as respostas políticas em tempos de crise estatal.

O mundo neoliberal é profundamente destruidor. Esta devastação mundial decorrente do coronavírus, fez o rei aparecer nu. O sistema de saúde pública foi destruído, na Alemanha, na Inglaterra. E aqui nós devemos ao SUS, que foi vilipendiado, uma possibilidade de não sermos levados nesta escala quase fordista de mortes, e de criação de valas. O sistema de capital, e em particular o capitalismo, detona um moinho satânico que é uma tecnologia mova pelo capital e pelas corporações. A disputa da China e dos Estados Unidos pela 5G o que diz a respeito da humanidade? Nada, é uma disputa comercial que está arrebentando com o mundo. (...) Quem disse há 15 anos que o trabalho não tinha nenhuma importância, os livros que disseram isso hoje não são vendidos nem em sebo. Se fosse assim não daria para explicar o avanço da China ou da Índia. O capitalismo brasileiro é o resultado dessa tragédia anunciada, de reduzir a força de trabalho brutalmente compensado pelo alto incremento digital, com a uberização do trabalho, e empresas que desbancaram a General Motors”.

Portanto, Ricardo Antunes concluiu que a classe trabalhadora, inclusive a que hoje está amplamente organizada em funções precárias nas plataformas e aplicativos, precisa ser o sujeito de uma saída às dimensões cruzadas da crise. Ressaltou ainda que os 600 reais anunciados pelo governo não garantem a existência de ninguém e que é fundamental que haja uma renda mínima que permita aos trabalhadores viverem com dignidade.

Em seus comentários Simone Ishibashi, doutora em Economia Política Internacional pela UFRJ e editora do Suplemento teórico Ideias de Esquerda, apontou que:

Não se sabe quantas pessoas morrem, e a quarentena do que jeito que é não é racional. Ela não separa os doentes dos saudáveis, mas os trabalhadores precários e informais dos que podem ficar em casa. Tudo porque não há testes massivos. Qual a dificuldade de garantir isso? Não é falta de tecnologia. É a irracionalidade capitalista. Se houvesse reconversão da produção sob controle dos trabalhadores, este problema estaria resolvido. São os trabalhadores das empresas que hoje são essenciais, como as que fabricam tudo para lidar com a pandemia, que podem reorganizar essa produção de acordo com a necessidade das pessoas, e não dos lucros. (...) Há lutas dos trabalhadores que são os primeiros exemplos. Na Itália no setor metalúrgico teve uma forte greve geral em 25 de março. Na França os trabalhadores da empresa aérea Airbus questionaram por que se destinariam para eles dezenas de milhares de máscaras para eles, enquanto elas faltam para os trabalhadores da Saúde”.

Além disso, ressaltou que a esquerda precisa superar as saídas institucionais, como o impeachment que abre o caminho para o Mourão, e não combate as ilusões no STF, governadores e nos mesmos políticos do Congresso que deram o golpe em 2016. A classe trabalhadora é o sujeito que pode, através de autoorganização, dar as respostas estruturais necessárias para fazer frente à pandemia, já que tudo produz e quem está "colocando o corpo" na linha frente do combate ao coronavírus (especialmente na área da Saúde). Simone colocou que o ensaio de organização pela base dos trabalhadores abriria caminho para um programa de emergência que fizesse os capitalistas pagarem pela crise sanitária que criaram. Seria fundamental que a esquerda debatesse a conformação de um gabinete de emergência, composto por representantes eleitos e revogáveis das organizações dos trabalhadores e dos trabalhadores da Saúde, e que preparasse as condições para convocar uma Assembleia Constituinte livre e soberana, para que seja o povo que decida os rumos do país.

Ver aqui: A saída é a unidade da classe trabalhadora que, como mostrou a pandemia, é quem move o mundo

Fruto das perguntas de um público online ativo de mais de 2 mil conexões, os convidados encerraram com novas observações sobre os diversos temas trazidos, mostrando que essas discussões precisam seguir. Por isso, convidamos o público leitor a que fique atento aos novos artigos sobre esse evento onde abordaremos outros temas lançados à reflexão por Virgínia Fontes, Vladimir Safatle, Ricardo Antunes e Simone Ishibashi, e que conheçam a iniciativa dos Comitês de nossa mídia espalhados por todo o país.

 
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