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Lunes 19 de Agosto de 2019
21:11 hs.

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CRISE NA VENEZUELA
"Trump e o imperialismo não são alternativa diante do autoritarismo de Maduro na Venezuela"
Redação

A Venezuela vive momentos decisivos com o salto na intervenção imperialista por parte de Trump, que tenta forçar um golpe de Estado no país. Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, é um fantoche da direita nas mãos de Washington, e tem um programa que agravará a situação de miséria imposta por Nicolás Maduro contra os trabalhadores e a população venezuelana. Entrevistamos Simone Ishibashi, doutoranda em Relações Internacionais pela UFRJ e dirigente do MRT, sobre a crise da Venezuela e quais saídas possíveis para os trabalhadores.

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A Venezuela vive momentos decisivos com o salto na intervenção imperialista por parte de Trump, que tenta forçar um golpe de Estado no país. Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, é um fantoche da direita nas mãos de Washington, e tem um programa que agravará a situação de miséria imposta por Nicolás Maduro contra os trabalhadores e a população venezuelana. Entrevistamos Simone Ishibashi, doutoranda em Relações Internacionais pela UFRJ e dirigente do MRT, sobre a crise da Venezuela e quais saídas possíveis para os trabalhadores.

ED: O que está acontecendo na Venezuela nesse momento?

Simone: Há um tempo que a Venezuela vem passando por uma situação muito difícil, uma verdadeira catástrofe econômica e social que afeta a vida de milhões de trabalhadores. Isso é indiscutível. A questão é que, frente a isso, o governo de Trump nos EUA e a direita venezuelana começaram a usar o justo descontentamento com o governo para avançar no plano de forçar um golpe de Estado reacionário que não tem nada a ver com os interesses dos trabalhadores e do povo pobre da Venezuela. No ano passado essa situação foi escalando, ganhando força com os novos governos de direita na América Latina. No dia 23 de janeiro desse ano, com a agudização da situação, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, se autoproclamou presidente da Venezuela em Caracas e chamou ao povo e as Forças Armadas para apoiá-lo. Essa tentativa de golpe, que foi pensada em Washington, foi rapidamente reconhecida pelos EUA e por vários governos de direita da América Latina. Mais recentemente foi reconhecida também pelo Parlamento Europeu. Pela primeira vez, um militar do alto comando da Força Aérea, da ativa, se posicionou publicamente pela queda de Maduro.

Frente a isso, é necessário repudiar abertamente essa escalada golpista na Venezuela, que representa um aumento da ingerência imperialista na América Latina.

Somos críticos a Maduro, lutamos contra sua política econômico-social que gera a fome em milhões enquanto beneficia os capitalistas venezuelanos, seu autoritarismo e a política repressiva contra os trabalhadores. O governo Maduro continua pagando a dívida externa e garantindo a impunidade dos especuladores responsáveis pela fuga de bilhões de dólares da Venezuela enquanto uma parte do povo está na miséria, além de aplicar um ajuste anti-operário e antipopular. Enquanto deixa impune todos os empresários que fecham empresas e demitem em massa na Venezuela, o governo desrespeita os acordos coletivos dos trabalhadores estatais e mantém um salário mínimo de 6 dólares. Além disso, também reprime grupos de esquerda e dirigentes sindicais que não sejam alinhados com o governo.


Trump e John Bolton

Entretanto, isso não nos pode deixar de ver que há um salto na ingerência golpista dos EUA, que apenas piorará as condições de miséria da população.

Trump e o imperialismo norte-americano não tem a menor moral para falar de direitos humanos ou criticar o autoritarismo de governos.


Juan Guaidó

É o cúmulo do cinismo que Trump e seus comparsas, como Bolsonaro, queiram defender que a política imperialista se baseia numa preocupação com os Direitos Humanos e o povo venezuelano. Trump tem feito crianças morrerem na fronteira com os Estados Unidos, as separa de suas mães, com sua política anti-imigração e a indignante tentativa de construção de um muro fronteiriço com o México.

Com Trump a xenofobia do imperialismo elevou-se ainda mais. O apoio e financiamento às alas opositoras na Venezuela tem base em interesses próprios, para quem todo o povo dos países da América Latina servem apenas para serem atacados, manipulados, roubados e reprimidos. Além disso, Trump é aliado dos governos mais autoritários do mundo, como Bolsonaro no Brasil, Iván Duque na Colômbia, Erdogan na Turquia, Netanyahu em Israel e a monarquia saudita (além de uma admiração por Putin e pelo presidente chinês, Xi Jinping, ambos autoritários notórios). Em suas incursões militares, os EUA cometeram um número recorde de violações de direitos humanos e até hoje mantém a base militar de Guantánamo, onde usam métodos de tortura contra os presos. Fora isso, os EUA financiaram e apoiaram politicamente várias ditaduras na América Latina, como a brasileira, chilena e argentina, estas últimas com dezenas de milhares de mortos. A própria medida recente de Trump de congelar os ativos da PDVSA (empresa estatal de petróleo venezuelano) mostra que os EUA não tem qualquer preocupação com o sofrimento do povo venezuelano, que se agravará. Além disso, Guaidó é apoiado por presidentes como Bolsonaro, que se elegeu em uma eleição manipulada pelo judiciário e disse que o problema da ditadura foi “apenas torturar, e não matar”; por Macri, cuja família enriqueceu durante a ditadura argentina; e por Ivan Duque, presidente da Colômbia, que vem reprimindo fortemente as manifestações nesse país que em 2016 teve 566 assassinatos políticos. O que também é deplorável é a posição de alguns líderes considerados “progressistas” como Cristina Kirchner, e presidente da Argentina, e Pepe Mujica, ex presidente do Uruguai, que apoiam o plano de eleições monitorados por órgãos internacionais como a imperialista ONU, mesmo que isso atropele a soberania e autodeterminação do povo venezuelano.

Devido a crítica situação da Venezuela, muitos trabalhadores acreditam que Guaidó pode representar uma saída pois “pior que está não fica”. Nós afirmamos categoricamente que isso é um engano, que pelas mãos de Trump e do imperialismo não há saída para o povo venezuelano. O programa que a direita levanta hoje por exemplo inclui o congelamento dos salários, o aumento dos preços e entrega do petróleo às multinacionais, ou seja, nenhuma medida que pode tirar a Venezuela da situação que se encontra hoje. Por trás de toda a demagogia com a democracia, os reais interesses dessa oposição de direita é aumentar os lucros dos capitalistas imperialistas e o seu controle sobre o petróleo venezuelano e a geopolítica da região.

ED: Qual foi a atitude do governo Bolsonaro diante da ofensiva golpista na Venezuela?

Simone: Bolsonaro se orgulha de atuar como um vassalo de Trump na América Latina. Diante da “autodenominação” de Juan Guaidó, fantoche da Casa Branca, como presidente interino da Venezuela, Bolsonaro não perdeu tempo em abençoar o golpismo dos Estados Unidos. Ernesto Araújo, o ministro das Relações Exteriores de Bolsonaro, já declarou que vê Trump como um profeta de sua cruzada para recuperar os valores do “ocidente”, e aplaude cada comando vindo de Washington. Não é nenhuma surpresa que estes lacaios que querem entregar o petróleo brasileiro para as petroleiras estadunidenses como a Chevron e a ExxonMobil, e promover diversas privatizações, obedecessem prontamente ao chamado de Trump para que todos países das Américas apoiem o auto-declarado governo interino da Venezuela.

Repudiamos as declarações desse governo de extrema direita, ele mesmo fruto da continuidade de um golpe institucional orquestrado pelos setores mais reacionários da burguesia brasileira junto ao capital estrangeiro – através do instrumento da Operação Lava Jato, de Sérgio Moro, amigos das petroleiras estrangeiras que querem devorar a Petrobras – e que atende a todos os interesses que venham de Trump, John Bolton ou Mike Pompeo.

ED: Quais são as causas da atual crise venezuelana?

Simone: A Venezuela é atualmente a maior reserva de petróleo do mundo. Sua economia e sua relação com o imperialismo sempre esteve muito marcada por esse fator. Durante as décadas de 80 e 90, com governos do pacto de Punto Fijo que aplicaram a mesma política de ajustes neoliberais e entreguismo dos recursos naturais que a direita propõe hoje, a Venezuela também chegou a situações críticas de fome e miséria comparáveis com as atuais. Houve levantamentos de massas contra as políticas neoliberais do FMI, como o Caracazo em 1989, que foi duramente reprimido pelo governo de Carlos Andrés Pérez, deixando um saldo oficial de 279 mortos e inúmeros desparecidos e feridos (outras fontes dão números muito maiores). Com o desgaste dessas políticas, Hugo Chávez ganha a eleição de 1998, sendo o primeiro de um conjunto de governos ditos “pós-neoliberais” na América Latina.

Uma vez no poder, o governo chavista implementou algumas medidas políticas que não se enquadravam tanto com os interesses do imperialismo norte-americano, acostumado a mandar totalmente na política venezuelana, onde escolhia diretamente seus ministros e os administradores da PDVSA; da mesma forma, Chávez se opôs à ALCA, um plano do imperialismo norte-americano que buscava criar uma área de livre comércio dos EUA com a América Latina. Além disso, o chavismo buscava aliados internos na burguesia venezuelana e nas Forças Armadas, enriquecida fabulosamente e tornada o principal sustentáculo do governo (e continua sendo até hoje). Isso deu origem a uma camada de empresários que enriqueceram com negócios ligados ao petróleo venezuelano, a chamada “boliburguesia”. Muitos dos cargos importantes do governo da PDVSA estavam na mão das Forças Armadas e dessa burguesia que emergia com o chavismo. A questão é que todo o projeto chavista se baseava na alta dos preços das commodities, essencialmente do petróleo, que foi um fenômeno que aconteceu na década passada, de modo que de cada 100 dólares que entravam no país, 93 eram produto da venda do petróleo. O país, durante o chavismo, seguiu refém completo da estrutura primária de exportação do petróleo.


Hugo Chávez

Com a queda dos preços do petróleo, a Venezuela entrou numa forte crise econômica. Com isso o governo de Chávez começou uma política de ajustes tanto nos programas sociais quanto também atacando os direitos dos trabalhadores, enquanto garantia o lucro dos capitalistas.

Isso torna evidente que, apesar da retórica, o “Socialismo do século XXI” não passava de uma fábula, de um projeto burguês que não hesitou em atacar os trabalhadores quando foi necessário. Vemos sua continuidade agravada com o governo de Nicolás Maduro.

É importante frisar que, apesar dessas medidas pontuais que punham certos limites ao imperialismo, o chavismo nunca rompeu sua subordinação às principais potências capitalistas mundiais. Durante o governo de Chávez, como o de Maduro, as empresas multinacionais continuaram a ser as principais beneficiadas com os negócios da PDVSA. Além disso, a Venezuela continuou pagando a dívida externa e não fazendo nada contra a fuga de capitais (mais de 600 bilhões de dólares expatriados). Junto a isso, também nunca foi feito um plano que diversificasse a economia nacional venezuelana e aumentasse sua soberania, deixando-a totalmente dependente do imperialismo e de seus interesses na aquisição do petróleo.

Inclusive é bom marcar qual foi a relação do chavismo com a esquerda realmente socialista e revolucionária. Grande parte dos sindicatos foi totalmente integrado a estrutura do Estado. Foi criada uma burocracia que expulsava qualquer setor que se opusesse a política oficial do governo e alguns sindicatos chegaram a ser militarizados, sendo colocados diretamente na mão do Exército. Mesmo fora dos sindicatos a esquerda que não era alinhada com o regime foi duramente perseguida.

No Brasil, o chavismo sempre foi um aliado próximo dos governos do PT, tanto de Lula quanto de Dilma Rousseff, que com suas especificidades também se ligaram à burguesia nacional e estrangeira, pagaram trilhões de reais ao saque da dívida pública aos especuladores internacionais, contiveram a luta de classes e reprimiram os trabalhadores, e que com sua estratégia de conciliação de classes abriu caminho para a direita golpista brasileira.


Dilma Rousseff e Chávez

ED: A direita diz que o problema da crise Venezuela é do socialismo. Mas pelo que você disse o “Socialismo do século XXI” é uma fábula. O que você pode acrescentar sobre o tema?

Simone: Aqui, acho que nos cabe retomar o conceito de socialismo, contra aquilo que foi sua vulgarização tanto pela direita, quanto pelo chavismo e seus aliados. Se formos analisar o processo da Revolução Russa, veremos que ela deu origem a um Estado operário baseado nos soviets (conselhos operários, de camponeses e soldados), organismos de auto-organização de massas dos trabalhadores, num sistema infinitamente mais democrático do que qualquer democracia burguesa, onde os representantes eram eleitos e revogáveis e ganhavam o mesmo que um trabalhador comum. Além disso, uma das primeiras medidas dos bolcheviques ao tomar o poder foi uma profunda reforma agrária e o rompimento com os acordos firmados pelo czarismo com potências imperialistas (especialmente França e Inglaterra) que, naquele caso, obrigavam que a Rússia estivesse na primeira guerra mundial junto com aquelas potências. A nascente URSS nacionalizou as grandes empresas e fez uma planificação de todos os recursos econômicos – ainda que escassos, tendo em vista a herança do atraso feudal e os anos de devastação da guerra imperialista e da guerra civil – em função das necessidades das massas trabalhadoras da cidade e do campo. A expropriação da burguesia russa e estrangeira se colocava em função do desenvolvimento das forças produtivas e o progressivo avanço da técnica, cujo futuro, aos olhos do partido bolchevique dirigido por Lênin e Trotsky, estava indissociavelmente ligado ao desenvolvimento da revolução mundial, para o qual trabalhou estrategicamente a Internacional Comunista. A burocratização stalinista, negação contrarrevolucionária do bolchevismo, foi minando cada uma das posições conquistadas pelos trabalhadores, expropriando-os politicamente na URSS e bloqueando a dinâmica internacional da revolução ao destruir processos insurrecionais ao redor do globo, processo que abriu caminho à catástrofe da II Guerra Mundial e que décadas depois resultou na restauração do capitalismo na Rússia. As bases para a burocratização do Estado vieram com a imensa guerra civil, protagonizada pela reação e os exércitos imperialistas estrangeiros, que não podem tolerar que os trabalhadores e o povo sejam senhores de sua própria história acabando com os capitalistas e sua existência parasitária.

Em suas origens, a partir de 1917, a experiência russa, retomando e aprofundando em nova escala a experiência da Comuna de Paris de 1871, representou “o marxismo em ação” e a primeira comprovação à escala nacional da correção do programa do socialismo.

A despeito do papel contrarrevolucionário do stalinismo, responsável pela deterioração das conquistas da revolução (e pela restauração do capitalismo), foi graças as conquistas da revolução de 1917, como a propriedade nacionalizada e a planificação econômica (que foi tornada burocrática após 1924, quando Stálin e a burocracia que surgiu ao seu redor tomaram as rédeas do país, resultando na eliminação dos soviets e do próprio partido Bolchevique), que a URSS pode ter uma das maiores taxas de crescimento do mundo durante a década de 20 e de 30, saindo de um país agrário a uma potência mundial em apenas duas décadas, coisa que nenhuma país capitalista jamais fez. É de se imaginar quais teriam sido os resultados caso a URSS, ao invés de ter ficado isolada e ter se burocratizado, tivesse mantido sua dinâmica revolucionária e ter se expandidos ao resto do mundo!

Além disso, a restauração capitalistas da URSS e do Leste europeu na década de 90, ao invés de resolver os problemas daqueles Estados operários burocratizados como a propaganda de direita prometia, apenas agravou os problemas sociais, trazendo problemas típicos do capitalismo, como desigualdade social e altos níveis de desemprego, problemas que a Venezuela enfrenta hoje.

Portanto, fica claro que nada parecido com as medidas tomadas pela Revolução Russa foram tomadas pelo chavismo na Venezuela. O principal ator político do governo venezuelano não foi a classe trabalhadora, e sim as Forças Armadas. O chavismo manteve os acordos firmados pelos outros governos neoliberais com o imperialismo, que incluía entregar boa parte do petróleo às multinacionais e pagar a dívida externa. A propriedade burguesa nunca foi ameaçada, e os trabalhadores, ao contrário de tomarem em suas mãos as rédeas econômicas e políticas do país através da socialização dos meios de produção e a planificação dos recursos nacionais a serviço dos interesses da população, seguiram sendo sistematicamente reprimidos (a repressão da greve da fábrica siderúrgica de Sidor, em 2008, foi um exemplo emblemático). O sistema bancário venezuelano continuou na mão dos grandes capitalistas, principalmente imperialistas, que continuavam a especular e sugar capital paro exterior livremente. O mesmo vale para o sistema produtivo, que continuou na mão de grandes empresas multinacionais. Quanto a reforma agrária, o chavismo realizou apenas uma tímida reforma que não mudou o essencial da distribuição fundiária. Isso faz com que a economia e as receitas estatais venezuelanas estivessem totalmente atreladas aos preços do petróleo e das commodities, através de um projeto político que visava enriquecer a burguesia ligada a esses setores, além de continuar com um sistema produtivo totalmente dependente do investimento imperialista.

Este projeto quando estava em seu auge conseguia lograr apoio popular através de algumas concessões e políticas sociais, fato que mudou rapidamente com as alterações nos preços do petróleo e dos commodities. Ou seja, o problema da Venezuela não foi o socialismo, mas a ausência deste.

Mesmo se formos comparar com a Revolução Cubana, processo que foi muito mais limitado que a Revolução Russa, devido ao fato de ter dado origem a um Estado operário deformado já em sua origem por uma burocracia stalinista (Fidel Castro, ligado ao Partido Comunista Cubano) - e que em nenhum momento de sua histórico contasse com organismos de auto-organização das massas como os soviets (e que agora infelizmente passa por um processo de restauração capitalista pelas mãos da própria burocracia) - este processo ainda trouxe conquistas sobre a propriedade burguesa, como a nacionalização e a planificação (burocrática) da produção e uma reforma agrária mais profunda, dentre outras. É graças a essas conquistas da Revolução - que nunca ocorreram na Venezuela - que Cuba consegue manter ainda hoje, apesar de um bloqueio criminoso do imperialismo americano, um dos índices sociais mais altos da América Latina.


Nicolás Maduro

Essa “ausência de socialismo” foi reconhecida até por dirigente oficial do governo, Rodolfo Sanz, que durante uma entrevista em 2006 disse que não queria a “ditadura do proletariado” nem um “capitalismo de Estado” como classificou, em suas palavras, Cuba.

Portanto, podemos dizer que o que ocorre na Venezuela hoje é fruto de não ser se tratar de um regime socialista, e sim de um regime econômico capitalista: o chavismo, longe de qualquer projeto socialista revolucionário, foi uma variante do nacionalismo burguês, fenômeno político que teve várias versões no nosso continente durante o século XX.

ED: Como foi a relação do chavismo com a direita pró-imperialista durante os últimos 20 anos?

Simone: Para isso, é importante retomar uma definição de Trotsky. Ao estudar o papel da burguesia nativa dos países atrasados, ele define que esta, devido a seus laços econômicos com a burguesia imperialista e seu temor do proletariado (o que a deixa espremida entre estes dois atores), adquire um papel extremamente covarde que é incapaz de levar a luta contra o imperialismo e pela emancipação nacional até o fim.

É importante frisar que a direita venezuelana sempre foi golpista e praticava métodos de sabotagem, como o lockout patronal, especulação com mantimentos básicos, dentre outros. Após a eleição de Chávez, essa direita começou uma grande campanha contra o chavismo. Em 2002, após um lockout patronal junto com uma mobilização convocada pela Fedecámaras (Federación de Cámaras y Asociaciones de Comercio y Producción de Venezuela) depõe-se Chavez e colocam Pedro Carmona, presidente dessa mesma associação, no poder, tudo isso com apoio dos EUA. Nessa época, o governo Chavez ainda contava com um apoio popular e a memória dos efeitos desastrosos das medidas implementadas pela direita ainda estavam vivas. Portanto, mesmo com Chávez não convocando nenhuma mobilização, os trabalhadores e a população se mobilizaram espontaneamente contra essa tentativa de golpe, ocupando várias empresas e em alguns casos chegando até a pegar em armas. Frente a isso, a direita recuou em seus intentos golpistas e Chávez volta ao poder dias depois.

De volta ao poder, Chavez, ao invés de se apoiar na mobilização popular que barrou o golpe, prefere tentar acordos com as Forças Armadas e convoca a população a sair das ruas e voltar para casa porque “era hora do Estado cuidar das coisas”. Junto a isso, ao invés de atacar os pontos de apoio econômicos que sustentavam os golpistas, prefere convocá-los para um grande diálogo nacional. Portanto, os capitalistas imperialistas e nacionais que tinha apoiado o golpe continuaram tendo liberdade para explorar e enriquecer às custas do povo venezuelano. Durante o período do chavismo, a direita continuou também com liberdade para fazer vários chamados conclamando à derrubada do governo Chávez e Maduro. Enquanto isso, existia uma perseguição intensa contra qualquer setor da esquerda e da classe trabalhadora que não fosse alinhado com o regime. A burocracia sindical chavista fazia de tudo para impedir que esses setores atuassem no sindicato, e houve inclusive casos de prisão de líderes sindicais e ativistas.

Assim, a política do chavismo teve um papel decisivo em fortalecer a direita golpista que agora, com Juan Guaidó à cabeça, deixam a soberania venezuela nas mãos de Washington, abrindo caminho à tentativa de um golpe de Estado clássico orquestrado pelo reacionário Donald Trump.

Isso tudo só confirma as afirmações de Trotsky sobre o caráter covarde da burguesia nacional frente ao imperialismo, que não é capaz de levar as tarefas de emancipação do imperialismo porque depende estruturalmente do capital estrangeiro para sobreviver, devido a seus laços econômicos e a sua debilidade frente ao proletariado.

ED: Como foi a posição da Fração Trotskysta (organização internacional do MRT) frente ao chavismo?

Simone: Na Venezuela a FT está representado pela LTS (Liga de Trabalhadores pelo Socialismo), corrente irmã do MRT, que batalha pela construção de uma organização revolucionária dos trabalhadores nesse país, tirando as lições da catástrofe a que levou o chavismo, que fortaleceu a direita. Desde o início do governo de Chávez nós sempre fomos oposição, denunciando sempre seu caráter burguês e a fábula que era o “Socialismo do Século XXI”. Porém, sempre fizemos isso denunciando sistematicamente a direita golpista pró-imperialista na Venezuela, que odeia os trabalhadores e busca escravizar o país aos interesses dos Estados Unidos.

Durante todos esses anos, sempre polemizamos com as correntes de esquerda que apoiaram o projeto chavista, assim como com as correntes que se colocavam contra ele, mas fazendo coro com a direita reacionária. A única política consequente para uma esquerda revolucionária é a mais estrita independência de classe, denunciando o imperialismo, sem com isso dar qualquer apoio político ao chavismo e à burguesia nacional venezuelana.

ED: Qual a saída para a Venezuela hoje?

Simone: Primeiramente é necessário rechaçar fortemente a escalada golpista da direita, que representa uma maior ingerência do imperialismo ianque na América Latina. Isso não quer dizer que se tenha de dar qualquer apoio político a Maduro. Chávez e Maduro, através da sua política, são responsáveis pelas condições em que o povo venezuelano se encontra hoje. Portanto, a única saída para a Venezuela é através da mobilização independente da classe trabalhadora, através de um programa que seja capaz de enfrentar o golpe e dar uma resposta de fundo para a crise venezuelana, que implica também expulsar o imperialismo e sua interferência na América Latina, rompendo todos os laços de subordinação.

Isso inclui algumas medidas como por exemplo o respeito aos acordos coletivos de trabalho, que o próprio governo Maduro vem desrespeitando. Junto a isso também é necessário um salário mínimo igual à renda familiar básica, indexado automaticamente pela inflação. E o controle de preços do governo já se mostrou totalmente incapaz para conter a hiperinflação, o que demonstra a necessidade da classe trabalhadora de organizar o seu próprio controle de preços, baseados nos seus organismos de auto-organização, não nas mãos de burocratas e militares. Também é necessário conter as demissões em massa que estão ocorrendo com total aval do governo Maduro. Portanto ao invés do que o governo faz, é necessário que a classe trabalhadora exproprie e ponha para produzir sob gestão operária de toda empresa que ameaçar fechar ou demitir. É importante frisar que enquanto o problema da fome tem assolado a Venezuela, muitos produtores rurais tem simplesmente mantido suas terras improdutivas. Por isso é necessário uma reforma agrária radical, que acabe com os latifúndios e exproprie a grande propriedade agrícola dos fazendeiros, e distribua a terra entre os camponeses e os operários agrícolas e que possa fortalecer uma aliança operário-camponesa capaz de impor um plano de emergência que dê fim ao problema da fome e da escassez de alimentos na Venezuela.

Além dessas medidas de emergência para conter a miséria que alastra na Venezuela, também são necessárias medidas que avancem sobre o poder do imperialismo e da burguesia. Essas medidas incluiriam o não pagamento da dívida externa, a nacionalização do sistema bancário e o monopólio do comércio exterior, além da repatriação de todos os capitais dos banqueiros e empresários colocados no exterior, e pelo confisco de bens de todos os capitalistas que saquearam o país. E claro, também é necessário garantir a soberania da Venezuela sobre seus recursos naturais, através do monopólio da PDVSA na exploração, refino e distribuição do petróleo venezuelano, junto com a total estatização da PDVSA, sob gestão operária e com o controle da população.

Também é absurda a perseguição aos lutadores enquanto os golpistas andam com liberdade pela Venezuela. Portanto é necessário pôr fim a perseguição contra todos os lutadores e confiscar os bens de todos os políticos e burgueses golpistas.

Se o programa de Guaidó e de Trump buscam apenas aumentar o controle dos EUA sobre a Venezuela, aumentando o padecimento da população, o que Maduro propõe é incrementar o autoritarismo e a catastrófica política econômico-social que trouxe os trabalhadores à miséria: este programa fortalece a direita, e não é capaz de enfrentar o golpe. É preciso se opor ao imperialismo e qualquer tentativa de interferência imperialista e ao mesmo tempo ter independência e inclusive combater o governo de Maduro porque é responsável pela crise. Somente uma saída independente dos trabalhadores venezuelanos pode enfrentar essa situação crítica. Isso é parte da batalha por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo, liberando a Venezuela das cadeias da opressão nacional e da decadência imposta pela burguesia, na perspectiva de uma Federação de Repúblicas Socialistas na América Latina.

 
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