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Jueves 17 de Octubre de 2019
05:18 hs.

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CONTAGEM REGRESSIVA 8 DE MARÇO
Mulheres, negras e lutadoras: Tia Ciata, a mãe do samba
Leticia Parks
Brasília - DF

Na contagem regressiva para o 8 de Março, o Esquerda Diário quer trazer as grandes referências de mulheres negras lutadoras. Hoje falamos sobre quem foi Tia Ciata e porque sua história recupera a luta dos negros pelo direito à identidade.

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Tia Ciata, Hilária Batista de Almeida no nome de batismo, nasceu em 1854 na Bahia. Lá era tia baiana do Candomblé e é obrigada a ir para o Rio de Janeiro aos 22 anos, fugida da repressão às religiões de matriz africana, que no ano de 1876 ficava ainda mais forte com a crise de regime que assolava a elite nacional e fazia explodir quilombos por todo o território nacional.

Tia Ciata vai para o Rio junto a milhares de ex escravos que buscavam a dita "modernização" do sul para fugir dos engenhos e dos maus tratos do nordeste brasileiro. A chamada diáspora bahiana deixou uma marca cultural fortíssima no Rio de Janeiro.

Ali as negras e negros dos portos, as lavadeiras e todas as outras ocupações urbanas, cheias de miscigenações das diversas regiões da África que ali se encontravam, começavam a encontrar-se com as negras e negros bahianos que traziam ritmos do atabaque, das cabaças, dos afoxés e dos agogôs. As negras e negros dos centros urbanos, em especial do Rio de Janeiro, haviam sido expostos às cordas européias e, do espírito natural de comunidade de toda a humanidade, esses instrumentos se encontraram e surgia ali o samba.

Tia Ciata foi uma grande lider desse encontro. Isso não era um detalhe naquela época. Pensem em uma situação política de profunda crise social no regime, de intensa repressão aos quilombos e de profundo desgaste da Coroa. As comunidades negras eram duramente perseguidas, seus ritos proibidos e havia uma tentativa incessante de esmagar qualquer forma de manifestação cultural.

Da casa dessa corajosa Tia Ciata, na Praça Onze, o samba estrapolou os muros, e todo o bairro se tornou um centro de produção cultural. A região da casa dela ficou apelidada de "Pequena África" entre outras coisas pela manifestação cultural e racial da região, que estava nos arredores da Pedra do Sal, oficializada como local do berço do samba.

No ano de 2017 se completam 100 anos do primeiro samba gravado, "Pelo Telefone", de Donga e Mauro de Almeida. Nos primeiros anos das escolas de samba, passar pela frente de sua casa era obrigatório, e os trajes das escolas de samba são inspirados nessas corajosas "tias" do candomblé que enfrentavam a repressão pelo direito a sua expressão cultural. Para nós, lembrar de Tia Ciata não é apenas recuperar a verdadeira história de resistência que há por trás do samba, hoje em grande medida roubado pelas elites e descontextualizado de toda repressão que os negros sofreram para produzir esse mote da cultura popular brasileira.

Se para as escolas de samba Tia Ciata é símbolo do samba, para nós revolucionários ela é também símbolo das dívidas que esse país carrega contra os negros escravizados, seus idiomas assassinados, sua cultura amordaçada, em nome da acumulação capitalista, das bases para os grandes monopólios e indústrias imperialistas.

É símbolo de que lutar contra o capitalismo é exigir cada centavo dessa dívida.

 
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