Política

GABINETE DO ÓDIO

Youtubers bolsonaristas lucram R$ 100 mil por mês com informantes do planalto

Inquérito sigiloso aberto em abril, conduzido pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, constata relação lucrativa e oportunista entre a Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) e os youtubers bolsonaristas do “gabinete do ódio”, termo cunhado para descrever a rede de fake news comandada diretamente pelo presidente e seus filhos.

sexta-feira 4 de dezembro de 2020| Edição do dia

(Foto: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO)

Após sete meses, as apurações revelaram a ligação direta entre o assessor especial da Presidência da República, Tércio Arnaud Tomaz, e o Coronel Mauro Cesar Barbosa Cid com o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, dono do canal “Terça Livre”. Essa ligação entre integrantes internos do governo e o youtuber se mostrou um negócio bastante lucrativo que se fortalece em cima das fake news e do delírio bolsonarista.

O inquérito apura a organização e o financiamento de manifestações contra o STF e o Congresso, com isso revela que, devido a esse elo entre o assessor Tércio e os youtubers que passam a possuir acesso privilegiado a Bolsonaro, esses blogueirinhos do “gabinete do ódio” faturam mais de R$ 100 mil por mês.

Segundo seu depoimento à Polícia Federal, Tércio nega à PF sobre dar tratamento diferenciado a esses blogueiros, porém afirma que participa de grupo de WhatsApp com os youtubers para “discutir questões do governo”. Enquanto isso, Cid atua como mensageiro entre ele e o bolsonarista Allan, que também está nesse grupo de WhatsApp e afirma receber R$ 12 mil por mês como “sócio” do “Terça Livre”. A partir disso, o bolsonarista passa a ser um “representante” das demandas dos outros canais bolsonaristas.

A investigação ainda não terminou, mas incide sobre o bolsonarismo de conjunto por encurralar a militância digital bolsonarista. Dentre as 30 pessoas ouvidas até agora, está o suposto comandante do “gabinete do ódio”, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), e seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Importante notar que, durante o período dos protestos bolsonaristas, vídeos com títulos apelativos como “Bolsonaro rebate conspiradores”, “Bolsonaro invade STF” e “A Força de Bolsonaro é maior que Congresso e STF” viralizaram na internet.

Subsequentemente, o número de inscritos de onze canais sob investigação aumentou 27% no total, de 6,7 milhões para 8,5 milhões, entre 1° de março e 30 de junho, ou seja, durante o período das manifestações bolsonaristas. Já de julho até o fim do mês, quando os protestos já haviam se encerrado, os canais cresceram apenas 6%, segundo levantamento do Estadão.

Nos interrogatórios, tem sido questionado, também, se os donos dos canais seriam “laranjas de terceiros”. Como aconteceu no depoimento de Anderson Azevedo Rossi, criador do “Foco do Brasil”, que afirma, porém, que não repassa o dinheiro recebido da monetização do Youtube a outros, contudo é escandaloso que receba, sim, ajuda de Tércio Tomaz para abastecer a sua página. Tércio, por meio do WhatsApp, não só repassa vídeos de Bolsonaro, como também ele mesmo filma situações que possam constranger quem incomoda a Bolsonaro.

Rossi é um desses youtubers que teve a carreira alavancada com a ascensão de Bolsonaro. Antes recebia um salário de R$ 3,5 mil como técnico de informática, agora faturou 330.887,08 dólares (o equivalente a R$ 1,7 milhão) com o seu canal entre março de 2019 e maio de 2020.

A lista de canais do “gabinete do ódio” é extensa e inclui "Vlog do Lisboa”, de Fernando Lisboa, que fatura de R$ 20 mil a 30 mil por mês, “Professor Opressor”, de Emerson Teixeira, que fatura R$ 11 mil por mês, ambos os canais, juntamente com “Terça Livre”, veicularam propaganda da Reforma da Previdência, essa mesma que é um dos maiores ataques ao trabalhadores brasileiros, ainda paga pela própria Secretaria de Comunicação (Secom).

Essas informações, saídas diretamente do Palácio do Planalto, usadas por essa rede de canais no Youtube têm consequências reais, desde as manifestações bolsonaristas e os milicianos dos “300 do Brasil”, as denúncias delirantes sobre o “comunismo” do STF e o lançamento de fogos de artifício em direção ao prédio do STF para simular um bombardeio.

É preciso deixar claro que o STF é também uma força autoritária, um poder sem voto e parte integrante de golpe de 2016 e todos os ataques aos direitos desde então. Para derrotar Bolsonaro, Mourão e o regime golpista é preciso organizar a luta dos trabalhadores, com a juventude negra e precarizada, sem nenhuma confiança a essas instituições golpistas.




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