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CONTROLE OPERÁRIO | White Martins: quem deve comandar a produção de oxigênio?

No capitalismo, tudo é passível de tornar-se mercadoria, incluindo as necessidades humanas mais básicas como alimentação e hidratação. Nem mesmo o oxigênio escapa de ser uma fonte de lucro para grandes multinacionais, podendo ser purificado, enlatado e vendido para o tratamento de pacientes com o sistema respiratório debilitado.

quarta-feira 17 de fevereiro | Edição do dia

"Somos uma empresa com quase 4 mil colaboradores na América do Sul. Estamos no Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. Na região, representamos a Linde, líder global na produção de gases industriais e medicinais, presente em mais de 100 países."

No Amazonas, não houve oxigênio suficiente quando uma nova onda de infecções e internações por Covid-19 atingiu a região em janeiro, gerando uma tragédia com centenas de pessoas, incluindo idosos, bebês e crianças, que morreram pela falta de oxigênio em macas nos corredores e chão dos hospitais lotados.

Porém, assim como as mais de 230 mil mortes pelo Brasil, o colapso do sistema de saúde em Manaus foi uma tragédia não só premeditada como deliberadamente produzida por aqueles que detém o poder. Contudo, não só do poder dos que governam, como também daqueles que detém os meios para a produção e distribuição dos insumos e produtos necessários, como o oxigênio, que faltou em Manaus.

Os negacionistas do Governo Bolsonaro, em especial seu ministro, mestre na logística de descartar vidas, Eduardo Pazuello, assim como as figuras regionais que comandam o estado, tiveram um suporte fundamental na completa ausência de uma plano para não repetir o colapso que já havia ocorrido em 2020 no Amazonas: a White Martins, grande multinacional que monopoliza os meios de produção de oxigênio em todo o país. É a única distribuidora de hospitais públicos e privados em Manaus.

Os laços econômicos e políticos da White Martins e do Governo Bolsonaro

A grande multinacional possui uma história suja por denúncias de formação de cartel. Em 1999, foi acusada de “práticas anti competição" após comprar a Liquid Carbono e passar a controlar 73% da produção de gás carbônico. Como para todo capitalista em ascensão, a necessidade do aumento das taxas de lucro sempre se coloca acima de qualquer regra formal sobre a competição em um ilusório livre mercado.

Em 2010, o Conselho Administrativo de Defesa Econômico aplicou a maior multa de sua história à White Martins, R$2,218 bilhões de reais, acusada de formação de cartel no setor de oxigênio e gases industriais que funcionava desde 1998, um dos mais longevos da história. O processo foi aberto em 2004 e em 2017 chegou ao STJ e STF. Em 2018, a americana Praxair, dona da White Martins, fundiu-se com a líder mundial da produção de gases, o monopólio alemão Linde AG, numa operação de US$ 70 bilhões.

A White Martins monopoliza grande parte da produção, logística e comércio nacional de gases voltados às necessidades hospitalares e medicinais. Contudo, a multinacional, como todo grande capitalista, não tem por objetivo garantir um tratamento digno de seres humanos, mas sim expandir a acumulação de seu capital. Para esse objetivo, é aliada de primeira ordem do governo Bolsonaro e seu programa econômico entreguista, que junto ao imperialismo, a Globo e a hoje finada Lava-Jato, sempre tiveram como objetivo privatizar a Petrobrás, adversária da White Martins em sua constante busca de altas taxas de lucro.

Neste sentido, a multinacional avança para o controle produtivo das cadeias de produção de gases industriais, e conta com o apoio do Governo Bolsonaro para esse objetivo. Em setembro de 2020, Bolsonaro e Paulo Guedes decidiram dar de presente a White Martins a principal empresa de logística de gases industriais do país, Gás Local, gerida até então pela Petrobras; a entrega a preço de banana de 40% das ações da distribuidora garante mais uma parcela da logística nacional de gases naturais para a White Martins

Os CEOs da White Martins são capazes de articular uma complexa rede de metas e objetivos para aumentar seu lucro diante de qualquer cenário. Contudo, quando se trata de planejar a distribuição de oxigênio em meio a uma pandemia, a tragédia em Manaus demonstra que não há o mínimo interesse e preparo desses capitalistas. Assim como o Governo Bolsonaro, a empresa afirma que não esperava um novo colapso da saúde em Manaus; faltando uma semana para o desastre, a empresa afirmou ser incapaz de atender a demanda por oxigênio.

Supondo, que de fato, eram ignorantes da alta probabilidade de uma segunda onda, a empresa teve sete dias para direcionar todo seu gigantesco aparato, em especial a planta industrial no Ceará, que pode produzir 2 mil toneladas de oxigênio por dia, junto à empresa de transportes que tomo da Petrobras por um preço simbólico, para garantir a chegada dos 70 mil metros cúbicos necessários por dia no auge da crise em Manaus. Tendo essa meta, a empresa teria que ter maiores gastos, não valeria a pena. Garantir que enfermos pudessem respirar entrava em choque com a necessidade de preservar seus lucros.

Quem deve comandar a produção de oxigênio? O lucro ou a necessidade de salvar vidas?

No Brasil, quem comanda a produção e distribuição de oxigênio é uma empresa imperialista, que pouco se importa com a saúde da população; para sobreviver ela não necessita de oxigênio como as diversas vítimas que sufocaram nos hospitais, ela precisa expandir seus lucros fazendo a produção desse gás sua propriedade monopolizada. A White Martins procura aproveitar dos espólios de cada ataque do governo entreguista neoliberal à Petrobras para expandir o seu império, cuja lei serve só para aumentar as riquezas de acionistas bilionários

A falta de oxigênio que assolou Manaus é consequência direta de uma política econômica que se sustenta na irracionalidade capitalista e sua busca eterna pela acumulação de capital. Através do apoio do Judiciário, que aceita de bom grado todos os recursos possíveis dos advogados da White Martins para cancelar a multa bilionária - o mesmo Judiciário que aprova as privatizações na Petrobrás - a multinacional segue explorando seus trabalhadores.

Os proprietários e acionistas da White Martins aliam-se a este governo reacionário para a implementação do plano econômico entreguista intensificado com o golpe institucional em 2016, hoje gerido por Paulo Guedes e Bolsonaro. A burguesia e seus políticos, como fica claro até aqui, acumulam mais e mais riquezas e deixam para a classe trabalhadora as contas para pagar pela crise que o sistema capitalista, sustentado pela propriedade privada dos meios de produção, gerou. É a população pobre e trabalhadora quem paga a conta, morrendo asfixiada pela falta de oxigênio nos hospitais, com o desemprego, com seus salários reduzidos e direitos cortados.

A saúde em todas as suas necessidades, o oxigênio uma das mais vitais, não pode ser fonte de lucro através da exploração de dezenas de milhares de trabalhadores da White Martins distribuídos em indústrias para a produção e serviços de distribuição por todo o país. A produção de gases medicinais não pode ser comandada pela irracionalidade de uma classe que coloca a acumulação de capital acima da necessidade de enfermos em respirar, e cuja vida depende dos meios de produção dominados ditatorialmente por um punhado de capitalistas com sede na Alemanha, protegidos pela propriedade privada.

São os milhares de trabalhadores da White Martins, que mesmo cotidianamente explorados podem apresentar uma saída. Somente eles podem acabar com o regime autocrático dos patrões de sua empresa e imporem que seu trabalho seja para aquilo que deve ser: produzir e distribuir oxigênio como parte de um plano emergencial de combate à pandemia. É preciso democratizar o controle dos meios de produção que são ditatorialmente comandados pelos proprietários dessa multinacional. Somente a socialização da cadeia produtiva coloca acima a necessidade de toda a população e da manutenção da saúde pública. O controle operário, com todos os trabalhadores da White Martins organizando de maneira democrática a produção do oxigênio, é a única saída consequente para garantir todo o tratamento possível dos infectados por coronavírus que apresentam quadros mais severos e necessitam de oxigênio, que deve ser público, gratuito, e gerido pelos operários da empresa e toda a população.

É necessário fazer os CEOs da White Martins sentirem na pele o que fazem com a Petrobrás e com toda população pobre e trabalhadora, que paga pelas políticas neoliberais do governo Bolsonaro, grande aliado desses patrões. Se no arsenal burguês está a privatização e o controle ditatorial da produção para manutenção do domínio capitalista, no arsenal da classe trabalhadora deve estar a estatização sob controle dos operários da White Martins, os únicos que sabem como operar a produção na prática do oxigênio para preservação de vidas.

Se a irracionalidade da busca eterna por altas taxas de lucro - protegidas justamente pela propriedade privada dos meios de produção de oxigênio medicinal - tem um papel central para o desastre em Manaus e nas cidades do Norte do país, a socialização da produção, controlada sob um regime democrático pelos próprios trabalhadores da White Martins, é a única garantia para que o oxigênio sirva aos pulmões e não ao capital.




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