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Assédio na UFRN | "Você já normaliza o assédio porque você sabe que pode acontecer" relata estudante da UFRN

A reitoria mostrou que é responsável pelos casos de assédio na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A reunião do Conselho Universitário (CONSUNI) da UFRN, na última terça-feira, 26, foi palco de mais uma amostra da omissão e negligência de diversos casos de assédio denunciados à ouvidoria. O ato de estudantes foi convocado pelo DCE após mais um caso escandaloso de assédio que foi arquivado, a denúncia foi feita por uma aluna da Escola de Música da UFRN (EMUFRN) e integrante do coro do Madrigal contra o professor Erickinson Bezerra de Lima. Após a fala da coordenadora do DCE em protesto ao arquivamento do caso, o atual vice-reitor Henio Ferreira de Miranda respondeu: "Você disse aí uma informação muito importante, o caso foi arquivado”. Arquivada a denúncia, a estudante perdeu a bolsa do Madrigal.

Jojo de Paulaestudante de Design da UFRN e militante da Faísca

Felipe ColaresEstudante de Letras da UFRN e militante da Faísca Revolucionária

sábado 30 de julho | Edição do dia

O caso da integrante do coro do Madrigal, o coro mais antigo do Rio Grande do Norte, criado em 1966, se soma a vários outros. Até julho de 2021, haviam 11 casos de assédio moral registrados, que foram negligenciados e tiveram seus processos arquivados, como é o caso da servidora Helena Velcic Maziviero, de 31 anos, que corajosamente denunciou um professor do Instituto Metrópole Digital (IMD), em 2018, após uma campanha realizada pela própria Universidade de incentivo à denúncia por assédio. Na reunião do Consuni, ela também denunciou a UFRN por inocentar o assediador.

Leia mais: Organizar es estudantes contra os assédios na UFRN, Bolsonaro, Damares e a conivência da reitoria

A estrutura de poder da UFRN, representada pela reitoria, é diretamente responsável pela violência machista institucional na Universidade.

Recebemos o relato anônimo de uma estudante e ex-integrante do coral sobre a sua experiência:

E aí ele começou a falar assim “nossa, seu pé é muito bonito, você calça quanto?” aí eu “36”, tem isso até hoje, ele fica falando sobre o meu pé. E teve várias outras apresentações em que ele às vezes… ele conseguiu meu número, ele falava comigo e do nada… ele sabia que eu tava aprendendo francês começava a falar um monte de coisa comigo em francês e eu tipo “meu deus o que é que eu faço?” e eu não cortava porque cortar maestro é você saber que você vai ser perseguida, é você saber que podem do nada falar “olha, ela nem é da escola de música, corta a bolsa dela e expulsa essa menina”, entendeu? Você já normaliza o assédio porque você sabe que pode acontecer e quando acontece com você, você só tenta dar aquela escapada sem se queimar.

Teve várias vezes ainda que ele elogiou tipo “Ah, nossa, você tá com a maquiagem perfeita pro coral, acentuando seus lábios e tudo e sai e entra numa postura” e ele falava isso pra todo o coro “olha como ela entra, vocês deveriam copiar” e tal. Assim, você fica altamente constrangida, você não sabe o que falar, você não sabe o que dizer, você só olha pra baixo, você dá aquele risinho e fica nisso. E aí vamos lá, isso eu falo do sexual que eu tive, só que esse maestro também é conhecido por ser um assediador moral sem precedentes. Ele constrange, ele irrita, ele faz as pessoas chorar de tanto que ele é exigente. Teve até uma notícia que falou “Ah, aquele maestro do Whiplash [Filme de 2015] não é só…” cara, óbvio que no Whiplash foi baseado na vida real, existem vários maestros que são assim e eu via.

Eu vi uma apresentação, uma menina que tava tocando uma nota errada e a ele falando “Você não está ensaiando” e ela “Não, eu ensaio” “Você não está. Você não vai tocar hoje não, troca por ‘fulaninho’” e ela “Não, mas…” “NÃO VAI!” gritando com ela e tipo, pedindo pra ela sair imediatamente. Foi um constrangimento porque tava todo o coral ali, tava toda a orquestra e fazendo aquilo. E aquilo é um caso isolado e que ele estava de bom humor. Quando você fala com os integrantes eles falam coisas horríveis, mas eles nunca vão fazer uma crítica porque ele tem poder na escola porque ele sabe que se denunciar os outros professores vão acobertar, como acobertam, muito.

E segue:

o regente atual o moral começou depois que eu saí, começaram vários relatos e coisas que as pessoas estavam sendo tratadas de forma tensa mesmo, aquele assédio moral pesado, começaram a ter exigências de uniforme tipo “as mulheres precisam usar necessariamente maquiagem tal”, “mulheres com o cabelo cacheado tem que ficar com o cabelo preso, porque tiram a atenção da plateia do coro, porque chama muita atenção os cachos” a gente falava… teve um protesto porque falavam “então prendam também vocês, se a gente vai fazer coque, as alisadas, as lisas também vão fazer” porque elas não faziam, era só a cacheada que tinha que ter o cabelo preso pra não chamar atenção porque podia ofuscar o outro com o volume. E aí eu fiquei… a roupa também tinha todo um padrão, antes a gente tinha um uniforme que era no joelho, passou a ser um uniforme que tinha que ser até o pé e tinha que ser completamente preto. Eu tive que comprar um vestido aí eu comprei um de renda que era rendado do joelho pra baixo mas ele era até o pé. Me proibiram. Falaram “Você não vai ficar na frente, você tem que ficar atrás, isso chama muita atenção, você não está no padrão”.

Sobre a reunião do Consuni e a resposta da reitoria diante das denúncias, a estudante opina que:

Tiveram duas falas, três falas durante a reunião que foram altamente preocupantes, de professores. Teve uma professora chegando a falar que na verdade a gente precisa na verdade de educação, como se as pessoas não fossem educadas aqui, como se as pessoas não fossem instruídas aqui, como se as pessoas não tivessem acesso a informação. Esse assédio cometido por professores, por funcionários, todos eles tem uma formação extensa, tem total ciência do que estão fazendo, entendeu?

Ela conclui afirmando que “o último comentário então e até o posicionamento do próprio vice-reitor que prometeu reuniões e tudo, mas tipo, dava pra ver que toda a mesa ali não tava tendo o interesse daquela pauta. É como se a gente tivesse ali só provocando “balbúrdia” e não tivesse nada a falar. O último professor [Ivonildo] chegou a defender um assediador porque foi julgado por uma comissão e ele foi inocentado. É claro que foi inocentado! A gente tá lutando exatamente contra isso! Então eu creio que é necessária uma posição não só da reitoria, porque a reitoria a gente já sabe que se não houver uma pressão, não vai fazer nada. Então é aquele posicionamento realmente estudantil, da população, de canais, de tudo, pra poder ter uma mudança realmente efetiva.

Na Universidade de Brasília (UnB) ocorreu um caso de estupro, após diversas denúncias de casos de assédio e importunação sexual na Universidade, que foi respondida com uma forte mobilzação estudantil contra o estupro e assédios, no dia seguinte, 11 de julho, contra a omissão da reitoria frente aos casos.

Leia mais: Chega de estupro e assédio na UnB! Todes ao ato segunda

É fundamental seguir fortalecendo a mobilização e defender que a conformação de uma comissão de apuração independente da burocracia universitária, ligada ao DCE, à ADURN, ao Sintest, junto ao movimento de mulheres, para exigir da reitoria todas as condições necessárias para essa apuração, além de batalhar pela restituição imediata da bolsa da estudante que foi cortada em decorrência da denúncia.

A reitoria deixou evidente mais uma vez que não podemos depositar nenhuma confiança nessa estrutura de poder, responsável pela violência machista na Universidade e por aplicar os cortes e ajustes de Bolsonaro na educação, que quer jogar nas costas dos estudantes que dependem da permanência e dos setores mais precarizados, como os terceirizados, em sua maioria mulheres negras. Por isso é fundamental confiar somente na força da nossa luta da juventude, construindo desde as bases e se organizando em assembleias para definir o rumo da nossa luta e para estar ombro a ombro com a classe trabalhadora e unificado com mulheres, LGBTQIA+, negros e negras para se enfrentar com a reitoria, Bolsonaro, Damares, toda extrema-direita e esse regime apodrecido do golpe de 2016.




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