×
Rede Internacional

EDUCAÇÃO | Vestibular: o filtro social e racial que impede os filhos da classe trabalhadora de estudar

A constituinte de 88, a dita Carta Cidadã, escrita e tutelada sob a égide dos militares e da burguesia escravocrata, diz que a educação é “direito de todos e dever do Estado”, porém, como ocorre com todos os direitos democráticos no capitalismo, a classe trabalhadora e seus filhos seguem sendo privados deles.

quarta-feira 10 de março | Edição do dia

A mesma classe que construiu, limpa e segue sendo o principal pilar que mantém as universidades públicas e privadas de pé, é a mesma que sonha com a perspectiva de um dia ver seus filhos entrando pela porta da frente e tendo acesso ao direito básico de entrar na educação superior. No entanto, o que vemos é cada vez mais a precarização, sucateamento e o desmonte da educação e das universidades pelos projetos privatistas encabeçados tanto pelo atual governo federal de Bolsonaro, que odeia a ciência e o pensamento crítico, como também por governos como do PSDB que há décadas desmontam as três estaduais paulistas, garantindo que uma ínfima parte da sociedade siga lucrando em cima do suor da maioria.

E não é possível que nós, a juventude e a futura força motriz desse mundo, contentemo-nos com simplesmente furar esse filtro. É necessário que entremos na universidade e ocupemos esse espaço que nos é tão negado, mas sem esquecer que do lado de fora dele estão milhões de nós sem o direito à educação e destinados a trabalhos extremamente precários. Devemos nos inspirar na juventude espanhola que neste momento está nas ruas lutando contra a monarquia decadente; na chilena que ocupou as ruas mobilizando todo o país para colocar abaixo a constituição herdada da ditadura pinochetista e seu projeto neoliberal; ou na juventude paraguaia que também está agora nas ruas contra os ataques e a crise sanitária.

No Brasil, com as cotas sociais e raciais, conquistadas pelo movimento negro e os movimentos sociais, as trabalhadoras e os trabalhadores conseguiram ver alguns dos seus filhos furar esse filtro e adentrar os muros das universidades até então extremamente elitizadas. Cotas essas que foram conquistadas através de muita luta, e não doadas por governos que se dizem progressistas, mas que o que fizeram foi negociar as nossas vidas com empresários que, como dito pelos governos petistas em seus 13 anos de governo, “nunca na história desse país lucraram tanto”. Entretanto, mesmo com essa conquista extremamente importante, o avanço da crise econômica iniciada em 2008 e o desemprego tendo uma escalada vertiginosa ano após ano, manter-se na universidade tem sido um desafio árduo em meio à falta de políticas de permanência e aos ataques e cortes às bolsas de pesquisas.

Mas não somente os estudantes sofreram com as políticas neoliberais dos governos do PT e agora padecem com o regime do golpe institucional e com o negacionismo de Bolsonaro - que inclusive rompeu com o regime de 88 e vem avançando nos ataques e na precarização do trabalho e das nossas vidas -, os trabalhadores e as trabalhadoras das universidades - principalmente os dos postos mais precarizados - sempre foram alvo dos ataques, e com a Lei de Terceirização Irrestrita do golpista Temer, a terceirização do trabalho avançou, precarizando ainda mais a vida da classe trabalhadora. Nada obstante, o regime golpista foi parte fundamental do avanço da uberização, tendo a juventude periférica e negra como o seu principal alvo, buscando assim lucrar através da retirada dos escassos direitos trabalhistas.

Durante a pandemia, o cenário de desigualdade se escancarou ainda mais e, magicamente, a elite nojenta parece que enxergou a realidade do Brasil com sua demagogia na mídia burguesa. Com falta de acesso a internet, a meios eletrônicos e impossibilitados de frequentar as aulas e/ou os cursinhos pré-vestibulares, os alunos pobres e negros se viram em um labirinto sem saída e o acesso à universidade se tornou um sonho quase impossível. Além disso, a realidade é que estudantes como eu quase nunca tiveram a educação como prioridade na vida. Quando você nasce na periferia, normalmente, conseguir "só" estudar é privilégio, pois trabalhar para ajudar financeiramente em casa é questão de sobrevivência. Entretanto, como já assinalado acima, com a pandemia o número de desemprego entre jovens de 18-24 anos bateu recorde no último período, como aponta o IBGE. Ou seja, para além das dificuldades materiais e a pressão psicológica do vestibular, nos vimos na dicotomia de “estudar ou tentar sobreviver”, agora com o auxílio emergencial cortado pelo Bolsonaro.

Por isso que a Juventude Faísca, anticapitalista e revolucionária, que eu construo, defende o fim do vestibular e, com isso, a estatização de todas universidades privadas sem ressarcimento para os capitalistas. Para que todos tenham o direito pleno à educação. Basta que os capitalistas lucrem com um direito tão elementar. Façamos como a juventude da Argentina que em 1918 - inspirados pela Revolução Russa de 1917 - arrancaram por meio da sua luta, com uma aliança operária-estudantil, a Reforma Universitária, onde não somente conquistaram a gratuidade no ensino, mas também a entrada sem um sistema de seleção e a participação igualitária de alunos na administração da universidade, comprovando que, diferentemente do que muitos dizem, não é impossível e irreal acabar com os vestibulares.

Para isso, é necessário que a União Nacional dos Estudantes (UNE) - dirigida pelo PT e PCdoB - e a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) - que é dirigida majoritariamente pelo PCdoB -, mas também a CUT e a CTB - dirigidas, respectivamente, pelo PT e o PCdoB - saiam das suas paralisias e organizem a nossa luta numa aliança operária-estudantil, porque só com muita organização, espaços de debate e luta é que vamos conquistar o fim do vestibular, o direito real à educação para os filhos da classe trabalhadora e universidades que estejam a serviço da maioria da população e não dos lucros de grandes empresas. É preciso lutar não somente pelo fim do vestibular e pelo direito de todos terem acesso à educação, mas também por uma Assembleia Constitucional Livre e Soberana imposta pela nossa luta e que revogue todas as reformas que atacam e precarizam as nossas vidas, nos negando o direito ao futuro.




Comentários

Deixar Comentário


Destacados del día

Últimas noticias