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O que é plano de luta? | Unir a esquerda para exigir que CUT e CTB organizem um plano de luta contra Bolsonaro, militares e os ataques

Babi DellatorreTrabalhadora do Hospital Universitário da USP, representante dos trabalhadores no Conselho Universitário

quarta-feira 18 de agosto | Edição do dia

Enquanto o país caminha rapidamente para a marca de 600 mil mortos na pandemia e 125 milhões em situação de insegurança alimentar, é escandaloso o número de medidas aprovadas pelo Congresso, nas últimas semanas, que retiram direitos elementares dos trabalhadores e da população, como a privatização dos Correios, a nova reforma trabalhista (MP 1045) que acaba com 13º e férias e regulamenta jornadas escravizantes de mais de 12h para mineração, além de permitir redução de salário e suspensão de contratos. Estão em vista também a reforma tributária e a administrativa, como forma de reduzir os gastos com trabalhadores e os serviços prestados à população, não para ser “eficiente” como costumam afirmar, mas para continuar o pagamento da dívida pública.

Nessa mesma semana, a lembrança da ditadura causou arrepios com o desfile dos blindados que, se bem tiveram um quê de risível, deixaram um recado claro que os militares saíram da caserna para participar da política nacional e não pretendem retroceder. As declarações golpistas do ministro da defesa, Braga Netto, demonstram que um setor dos militares abandonaram o papel de moderador do discurso de Bolsonoro, no início do seu governo, para se anunciarem como moderadores da crise entre os poderes garantindo a sustentação do governo Bolsonaro. Apesar de discursos indignados vindos do Congresso e STF, os militares e bolsonaristas estiveram à vontade para esbanjar seu golpismo e amenizar a perseguição, torturas e mortes na ditadura militar como apenas um “regime duro”. É preciso acompanhar a repercussão e adesão aos atos bolsonaristas convocados para o 7 de setembro e a ameaça de greve de caminhoneiros chamada por Sérgio Reis.

A prisão do entregador de aplicativo e ativista Galo, a condenação do ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos/SP, o Macapá, assim como a violenta repressão aos trabalhadores da educação de Betim/MG representam um duro ataque ao direito à manifestação e greve e são expressão do aprofundamento do autoritarismo do judiciário. Combina-se a todos esses elementos, o fato das manifestações contra Bolsonaro terem refluído como resultado da política das direções, como trataremos adiante.

A conjuntura ganha um caráter notadamente mais reacionário e recoloca com mais força a necessidade da esquerda se unificar em torno das valiosas lutas dos trabalhadores que hoje estão em curso, como a greve dos trabalhadores da MRV, a paralisação contra a privatização dos Correios, mas que acontecem de forma isolada. E assim dar exemplos e apontar um caminho para a construção de um plano de lutas que crie as condições para uma greve geral que coordene a indignação e força dos trabalhadores golpeando Bolsonaro, os militares e revertendo os ataques.

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O que é um plano de lutas?

Um plano de luta é composto por todas as medidas que os trabalhadores decidam tomar para superar as dificuldades que vão se impondo durante sua luta, medidas que permitam aglutinar forças e demonstrar a fortaleza da mobilização. As paralisações, atos de rua, panfletagens, assembleias, organização de comitês de luta etc são exemplo dessas medidas. Superar a divisão e desenvolver unidade com outros setores para fortalecer a luta, ganhar projeção na mídia e se dirigir a outras categorias menos mobilizadas também são.

Essas tarefas se impõem aos trabalhadores auto-organizados em luta que encontram soluções muito criativas. Como fizeram as trabalhadoras em greve da MRV, em Campinas, que escreveram uma Carta se dirigindo às mulheres atletas olímpicas chamando à uma solidariedade entre as mulheres para furar o isolamento da mídia e denunciar a demagogia da MRV que financia o esporte feminino com o projeto #ElasTransformam ao mesmo tempo em que faz mulheres e homens trabalhadores dessa empresa passarem por humilhações nos canteiros de obra. Ou as trabalhadoras terceirizadas da Blue Tech, Sun Tech e 3C que enviaram uma Carta às trabalhadoras efetivas da LG chamando a lutarem juntas contra os ataques da empresa, em São José dos Campos, batalhando pela unidade entre efetivos e terceirizados. Os trabalhadores do HU da USP que impuseram à mídia ter que falar de sua greve através de uma enorme ação que chamaram “Enquanto o reitor fecha leitos, trabalhadores doam sangue pela saúde” apontando a necessidade de unificar a luta com a população em defesa da saúde pública. E medidas como a posição do Sintusp contra a prisão de Galo e a condenação de Macapá.

Um caráter em comum desses exemplos é a possibilidade dos trabalhadores discutirem e decidirem sobre sua luta, por isso é fundamental assembleias de base onde os trabalhadores possam debater cada medida a ser tomada na sua luta contra Bolsonaro e os ataques. Poderiam debater e votar quais demandas unificariam os setores em luta, os trabalhadores com a juventude, as mulheres, os negros, o povo indígena, e a partir disso marcar fortes atos unificados, construir paralisações nacionais que construam as condições para uma greve geral. Dessa forma, também poderia impedir que as direções levassem a frente sua estratégia de atos nos finais de semana que não mexem no bolso dos patrões, e que são marcados com intervalos muito grandes sem nenhuma medida intermediária para ampliar a organização e participação dos trabalhadores e da juventude, porque no final das contas o objetivo do PT/CUT e PCdoB/CTB é desgastar Bolsonaro para eleger Lula em 2022. Mas os ataques estão acontecendo agora.

Frente ao golpismo bolsonarista e dos militares e a paralisia da CUT e CTB diante dos ataques, a esquerda deve unir toda sua força para fazer triunfar as lutas em curso

Os partidos de esquerda, como o PSTU que dirige a CSP-Conlutas e o PSOL que dirige as Intersindicais, deveriam batalhar nos sindicatos que dirigem ou são oposição para desenvolver a organização dos trabalhadores. Dessa forma, a CSP-Conlutas e Intersindicais poderiam se apresentar como um pólo anti-burocrático que batalhasse na base das categorias dirigidas pela CUT e CTB pela ideia de greve geral. Nas centenas de sindicatos da CSP-Conlutas e Intersindicais poderiam ser organizadas assembleias para votar esse plano de luta e essa exigência.

A conformação de um polo de esquerda anti-burocrático para fazer triunfar as lutas em curso poderia apontar uma alternativa para os trabalhadores agora, e não esperar as eleições em 2022, contrapondo-se às burocracias sindicais e políticas. Por exemplo, a CSP-Conlutas deveria colocar suas forças de forma decidida para apoiar ativamente a greve dos trabalhadores da MRV e desenvolver a unidade com outras categorias que estão em luta. Como os trabalhadores dos Correios, que apesar de serem dirigidos majoritariamente por PT e PCdoB, a Intersindical dirige uma base importante e a CSP-Conlutas é parte da oposição.

Estes seriam fortes exemplos que poderiam impactar os trabalhadores dirigidos pela CUT e CTB, colocando a esquerda na vanguarda do combate para criar as condições para liberar a energia das massas e construir a greve geral para derrubar Bolsonaro, os militares e reverter os ataques.




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