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ESQUERDA ARGENTINA | Unidade da esquerda classista e socialista: conheça a proposta do PTS a toda a esquerda argentina

O Esquerda Diário entrevistou Nicolás Del Caño, ex-deputado federal na Argentina, e Myriam Bregman, principais referências da esquerda argentina e membros do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), sobre a proposta de seu partido no interior da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade: unificar toda a esquerda classista e socialista sobre um programa de independência de classes nessas eleições, para enfrentar o governo peronista e a direita macrista. Trata-se de uma importante proposta para toda a esquerda, que merece ser conhecida no Brasil.

André Barbieri São Paulo | @AcierAndy

segunda-feira 21 de junho | Edição do dia

Esquerda Diário: Em que consiste a proposta do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) à esquerda classista e socialista argentina?

Nicolás Del Caño: Em síntese, convocamos todas as forças da esquerda classista e socialista a se unirem para criar uma poderosa aliança diante do próximo processo eleitoral nacional. Dirigimos o chamado às forças que já compõem a Frente de Esquerda e Trabalhadores - Unidade (FIT-U) e as outras organizações de esquerda: Autodeterminación y Libertad, Nuevo MAS e Política Obrera. Embora a FIT-U tenha obtido 80% dos votos da esquerda nas últimas eleições, consideramos que devemos unir a totalidade das forças que lutam por uma solução própria dos trabalhadores e evitar que tanto o oficialismo peronista (representado no governo por Alberto Fernández e Cristina Kirchner), quanto a oposição de direita (representada na formação Juntos por el Cambio, de Mauricio Macri), explorem um divisionismo inexplicável na esquerda.


Nicolas Del Caño e Myriam Bregman

Essa proposta está sendo veiculada na Argentina (com uma petição de apoio que reunirá dezenas de milhares de assinaturas), e inclusive os grandes jornais burgueses, como o Clarín, deopis de muita demora, foram obrigados a publicar a iniciativa que tivemos. Queremos ir juntos à batalha política para conquistar novos bancadas parlamentares, que mostraram que nas mãos da esquerda são instrumentos de luta e de denúncia do regime político burguês argentino. Uma unidade de toda a esquerda classista e socialista para estas eleições não seria apenas uma novidade na cena política, mas um salto na construção de uma referência política que desperte o entusiasmo de centenas de milhares que buscam uma saída para a crise favorável aos interesses populares.

Estamos nos propondo explorar todas as possibilidades de chegar a um acordo que expresse a diversidade entre nossas correntes. Se não chegarmos a um acordo, temos o recurso do PASO (Primarias Abiertas Simultáneas y Obligatorias, um método de seleção de candidatos, definindo quais serão os políticos que participarão das eleições gerais) que usamos na Frente de Esquerda em 2015 a nível nacional e em 2019 na província de Salta, para ordenar as chapas proporcionalmente ao que cada partido (ou bloco de partidos) obtém, e apresentar listas unitárias da esquerda em todas as categorias de cada distrito nas eleições gerais de 14 de novembro.

Spot da proposta unitária do PTS à esquerda argentina

A situação dos trabalhadores e da juventude só piora com os ajustes encabeçados pelo governo peronista, que passou a administrar a herança direitista do governo Macri (um alerta para o próprio Brasil, em que Lula busca se mostrar o melhor administrador da herança do golpe institucional que deu origem ao governo reacionário de Bolsonaro). Não é hora de mesquinharia. Está nas mãos das próprias organizações da classe esquerda romper com a mesquinhez e o sectarismo e assim evitar que ambos os bandos da burguesia se vanglorie da "fragmentação da esquerda", mesmo que a FIT-U tenha clara primazia sobre os votantes da esquerda.

ED: O que é a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade, e qual a importância da unidade da esquerda nessas eleições?

Myriam Bregman: A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade é uma frente político-eleitoral que agrega o PTS, o Partido Obrero, o MST e a Izquierda Socialista, organizações que se reivindicam do trotskismo. É a principal força da esquerda argentina, com um programa de independência de classe e que defende um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo. Trata-se da única experiência de uma frente político-eleitoral de independência de classe do mundo. A FIT-U se delimita como princípio dos chamados “progressismos latinoamericanos”, forças nacionalistas burguesas como o peronismo kirchnerista na Argentina, o petismo no Brasil, o chavismo na Venezuela e o evomoralismo na Bolívia, que governaram para os capitalistas (na Argentina, governam com Alberto Fernández e Cristina Kirchner) com uma estratégia de conciliação de classes com os empresários, aplicando os seus ajustes e administrando a herança neoliberal. A FIT-U também se diferencia dos fenômenos “neoreformistas” vindas da Europa, como o Syriza da Grécia e o Podemos no Estado espanhol, expressões da estratégia reformista de humanizar o capitalismo, e que fracassaram fragorosamente, aplicando os ajustes para suas burguesias e comandando o Estado burguês. Tornou-se a mais forte alternativa independente de classe da esquerda latinoamericana, e na Argentina a única força independente do Estado, das grandes patronais e da burocracia sindical. Com essa força, tendo representação política não apenas no Congresso Nacional, nas câmaras estaduais e municipais, mas também tendo influência no interior da classe trabalhadora e da juventude, buscamos unificar a esquerda que está fora da FIT-U (nomeadamente, a Política Obrera, o Nuevo MAS e Autodeterminación y Libertad) para atuarmos com um programa comum numa chapa única nestas eleições.

É evidente que tanto os oficialistas peronistas quanto os opositores de direita não simpatizam com a idéia da unidade da esquerda classista e socialista se tornando uma realidade. Eles sabem que o fortalecimento da esquerda de classe é um perigo para sua gestão do capitalismo. Em lutas históricas e massivas como as dos trabalhadores da saúde de Neuquén (que, não por acaso, ganharam o reajuste salarial mais alto do país), como a dos trabalahdores agrícolas das províncias de Tucumán e Mendoza, como a dos portuários em Buenos Aires, e muitas outras, a presença ativa desta esquerda não é ignorada por nenhumaforça burguesa. Sabem que em todo conflito por salários, contra demissões, pela efetivação dos terceirizados em cada fábrica, contra a mineração a céu aberto, em toda luta contra os feminicídios e pelos direitos das mulheres e dos LGBTs, a esquerda classista e socialista está presente. Esta esquerda se caracteriza por ser independente de todas as variantes políticas que defendem o sistema de exploração capitalista e tem como norte a luta por um governo dos trabalhadores, ao contrário do Partido Comunista Argentino ou do PCR/PTP maoísta (que como os stalinistas brasileiros, do PCB e da UP, sempre defendem setores “progressistas” da burguesia), da Patria Grande e de dezenas de grupos e movimentos sociais que se dizem de esquerda e fazem parte da coalizão governamental.

Nossa proposta de unidade se dá porque a inexplicável divisão, por menor que seja, da classe e da esquerda socialista nas próximas eleições joga a favor das coalizões políticas que estão concorrendo para administrar o capitalismo decadente da Argentina e suas conseqüências da fome e da miséria.

ED: Em que condições políticas se dão essas próximas eleições na Argentina?

Nicolás Del Caño: A pandemia veio revelar de forma acelerada a absoluta incompatibilidade entre um regime dominado pelo FMI e os credores financeiros internacionais e a defesa da vida, a recuperação salarial, a eliminação do desemprego e do trabalho precário. O governo de Alberto e Cristina não apenas não rompeu com a "herança macrista", mas a está administrando. Os banqueiros, os produtores de soja, os proprietários dos laboratórios médicos estão ganhando cada vez mais, enquanto os trabalhadores estão ficando cada vez mais pobres ao mesmo ritmo.

Ao lidar com a pandemia, o governo optou por garantir os lucros dos capitalistas, levando milhões de pessoas a terem que viajar diariamente em condições superlotadas para vender sua força de trabalho. Isso mostra a falácia do discurso eleitoral de 2019, de que as “pessoas reconquistariam o perdido”; estão perdendo as próprias vidas para a pandemia e para o desemprego. Longe de se preparar para a inevitável segunda onda que já havia começado na Europa e nos Estados Unidos, o governo baixou o orçamento da saúde e garantiu que cerca de 100 milhões de doses da vacina AstraZeneca produzida na cidade de Garín deixariam o país, como parte de sua aliança com burgueses como Hugo Sigman. Milhares de mortes poderiam ter sido evitadas desde janeiro se, como nós da Frente de Esquerda Unidade propusemos, o laboratório de Sigman fosse declarado de utilidade pública e todos os recursos nacionais fossem colocados a serviço do fim do processo de embalagem das vacinas no país. Os salários continuam a cair pelo quinto ano consecutivo. A redução das aposentadorias e a pulverização do salário é parte fundamental de um ajuste feito sob medida para o FMI e credores, enquanto 60% das crianças foram jogadas na pobreza.

Ademais, as eleições de 2021 estão ocorrendo no marco de um ciclo de rebeliões populares com suas conseqüências políticas no Chile e na Colômbia, dois países que foram exemplares para o imperialismo e a direita continental e onde a irrupção das massas veio para mudar radicalmente a agenda social e política. A eleição do professor e camponês Pedro Castillo no Peru, apesar de seu programa de conciliação com a propriedade privada e com o regime fujimorista de 1993, é outra expressão política distorcida do cansaço do povo trabalhador diante de um regime neoliberal corrupto de miséria e morte.

ED: Quais são as condições para uma aliança da esquerda argentina?

Myriam Bregman: Uma aliança da esquerda classista e socialista para as próximas eleições deve partir de um programa que seja delimitado de qualquer variante de centro-esquerda ou “progressista” que procure melhorar as condições de um capitalismo que, nesta pandemia, se mostrou incompatível com a própria vida. Um programa de independência de classe como o que a Frente de Esquerda Unidade já tem, que propomos como base para a construção deste processo unitário. Um programa capaz de resistir aos ataques permanentes do governo, da oposição burguesa e da imrpensa oficial, e também a ataques como os sofridos pelos deputados da FIT-U por parte do sionismo israelense e seus amigos da mídia, depois da nossa defesa pública do povo palestino. Um programa anti-imperialista que se irmane com os povos trabalhadores de toda a América Latina, algo que pudemos demonstrar neste 19J, junto com a paralisação nacional no Brasil, realizando um ato na embaixada brasileira contra Bolsonaro, Mourão e os militares.

Nessa ocasião, nós do PTS pudemos nos solidarizar com a política de independência de classe dos companheiros do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores, que denunciaram as manobras de Lula e do PT, com a ajuda das burocracias sindicais e também do PSOL, para desviar a raiva das ruas para os fins eleitorais da principal figura pública petista, defendendo um plano de luta com paralisação nacional para enfrentar já Bolsonaro e seus ataques, e uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana contra todo o regime do golpe institucional, para que os trabalhadores, a juventude e o povo pobre no Brasil tomem em suas mãos as rédeas decisórias de todas as transformações estruturais no país, na batalha por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo, baseado em seus organismos de autoorganização. Uma forte esquerda no Brasil com essa política seria um enorme alento para nossa luta na Argentina e em toda a América Latina.

Christian Castillo, do PTS na FITU, na embaixada brasileira neste 19J

ED: Quais as tarefas da esquerda argentina rumo as eleições, no que diz respeito à luta de classes?

Nicolás Del Caño: Junto com o desenvolvimento das lutas, promovendo a coordenação e a criação de organizações auto-organização dos trabalhadores que possam impor a frente única aos sindicatos, a esquerda que se reivindica classista e socialista deve fazer todos os esforços para criar uma referência política clara e poderosa para os setores em luta e os milhões de trabalhadores que começaram a fazer uma experiência com um governo peronista. Nós do PTS na Frente de Esquerda Unidade, como sempre fizemos, estamos batalhando para que a classe trabalhadora emerja como um sujeito político independente de toda variante patronal. O robustecimento da presença da esquerda nas eleições pode cumprir um papel positivo nesse avanço, que para nós tem o objetivo estratégico de fazer emergir um partido revolucionário dos trabalhadores na Argentina.

Estamos dispostos a ver a ordenação das chapas, como disse acima, ser decidida em prévias internas na esquerda. Alguns companheiros da esquerda argentina argumentam que essa possibilidade poderia significar que a esquerda "luta" nas PASO, em vez de lutar contra o governo e as chapas da direita. Mas isso não é verdade. Nada disso aconteceu em 2015, nem aconteceu em Salta em 2019, onde houve uma disputa de três chapas dentro da FIT-U, incluindo uma da então PO-Tendencia, organização encabeçada por Jorge Altamira após a ruptura com o Partido Obrero. Assim, esse argumento é bastante frágil. Do que temos certeza é que se não houver acordo, e nem eleições prévias de toda a esquerda socialista, a divisão estaria assegurada: em novembro haveria mais de uma chapa, o que poderia até impedir a conquista de assentos no Congresso, como aconteceu com a chapa de Luís Zamora confrontada com a da FIT-U na cidade de Buenos Aires em 2019. Esse é o cenário desejado pelos poderosos.

Este não é o momento para mesquinharias. A luta e o sofrimento do povo trabalhador, a crise à qual os capitalistas e suas expressões políticas nos trouxeram, merecem fazer todo o esforço para ter listas comuns da classe e da esquerda socialista em todas as províncias do país. Nós do PTS demos o pontapé inicial para a busca de unidade independente da esquerda classista. Vamos ao trabalho.




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