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UNICAMP | Unidade com as federais e metroviários de SP: os desafios dos estudantes da Unicamp

Organizados em luta no ano passado, os estudantes da Unicamp conseguiram barrar os novos critérios meritocráticos que a reitoria de Knóbel queria impor para a concessão de novas bolsas permanência. Essa luta mostra que é só pela auto organização que poderemos garantir nossas demandas e barrar toda e qualquer ofensiva contra a juventude e a classe trabalhadora, em um momento de grave crise econômica e sanitária, no qual novamente as universidades federais estão sob ataque de Bolsonaro e os metroviários iniciam forte greve contra o golpista Doria.

quarta-feira 19 de maio | Edição do dia

Foto: Antonio Scarpinetti

O que os capitalistas reservam à juventude são ataques ao nosso futuro: quando não é a bala da polícia, como vimos em Jacarezinho contra a juventude negra, é trabalho precário e cortes nas universidades, justamente quando esses centros de pensamentos vêm mostrando mais fortemente seu potencial de servir à população com os hospitais universitários e vacinação, apesar dos cortes e ajustes que as reitorias vêm gerindo. Querem dividir os trabalhadores entre os que têm mais ou menos direitos para atacar de conjunto, como fazem com os metroviários, que lutam por vacinas para todos e por um transporte melhor a toda população.

Há dois anos, no 15 de Maio, os estudantes da Unicamp organizavam assembleias e tomavam as ruas contra os cortes no Tsunami da Educação. Mais uma vez, está colocado o desafio de batalharmos pela nossa organização pela base contra Bolsonaro, Mourão e os golpistas, em apoio às federais rumo ao dia 29, data chamada como dia de luta contra os cortes pela UNE, e desde agora expressando a mais forte solidariedade aos metroviários de São Paulo. Essa luta pode ser ponto de apoio para as batalhas por permanência, contra o novo código de conduta que o CONSU quer aprovar e em defesa das centenas de empregos das terceirizadas do bandejão, que precisamos travar na Unicamp com o início da gestão Tom Zé.

Lições da luta contra o ataque às bolsas na Unicamp

Para isso, as lições de como barramos o ataque às bolsas de Knobel nos servem muito. No ano passado, em setembro, os estudantes da Unicamp foram informados de um novo ataque da reitoria de Marcelo Knobel junto ao CONSU (Conselho Universitário), que por meio da CEPE (Comissão de Ensino, Pesquisa e Extensão) tentou impor aos estudantes, novos critérios que, como explicamos aqui, eram para restringir a concessão de bolsas aos estudantes mais pobres e avançar ainda mais com o caráter meritocrático que já existe no processo seletivo para os auxílios. Esse ataque absurdo, veio em um contexto de pandemia fruto da gestão negacionista de Bolsonaro, dos governadores e do conjunto do regime político do golpe, com Doria, o STF e o Congresso. No final de 2020, o desemprego já atingia 29,8% da juventude, segundo o IBGE, colocando para os estudantes mais pobres a necessidade de buscar trabalhos para complementar a renda em suas casas, muitas vezes ocupando postos precários de trabalho. Assim, a pandemia abriu espaço para que o projeto burguês e excludente para a universidade pública avançasse a passos largos.

Como forma de responder a essa situação, os estudantes da Unicamp, usando os métodos de organização e luta do movimento estudantil, organizaram assembleia com mais de 700 estudantes, bolsistas e não bolsistas, que encaminhou o GT Contraproposta (Grupo de Trabalho para formulação de uma proposta dos estudantes para a concessão de bolsas) e um ato, saindo da Moradia Estudantil da Unicamp até a frente da Reitoria onde ocorria a votação dos novos critérios da CEPE. A pauta foi retirada de votação, graças à mobilização do movimento estudantil.

Knobel, para contornar a mobilização dos estudantes, impôs um GT Indicador como forma de chegar a uma proposta mediada. Esse espaço escancarou que os interesses dos que queriam nos fazer pagar pela crise não são compatíveis com os interesses dos estudantes. Assim como a estrutura antidemocrática do CONSU, que tem uma representação inversa à realidade, com uma maioria da burocracia acadêmica e a minoria de estudantes, o GT se fez da mesma forma, impedindo que as propostas formuladas pelo GT dos estudantes, que são os mais afetados e quem verdadeiramente sabe das necessidades das bolsas permanência, se expressasse nessa nova proposta em comum. Ademais, os representantes da reitoria quiseram encerrar as discussões sobre os novos critérios às pressas sem um debate profundo sobre os impactos que essa medida arbitrária acarretaria na vida de centenas de bolsistas. Demonstrando que mesmo aparecendo como oposição a Bolsonaro, longe de se importar de fato com os estudantes, colocam na frente seus interesses e acordos com os setores privados, negociações com Doria e adotando políticas de ataque e precarização.

Desde o início nós da Juventude Faísca viemos defendendo em assembleia que não era possível chegar a um consenso em um GT conjunto, com os estudantes em minoria com os que vinham defendendo os ataques. Por isso, sempre fomos contrários, quando setores do DCE, da APG e da Oposição de Esquerda da Unicamp, como Afronte, defendiam que era necessário abrir mão de elementos da contra-proposta dos estudantes como forma de negociar melhor. Ao final do processo, os representantes tomaram a decisão acertada de romper com o esse GT antidemocrático, demonstrando que nós não aceitaremos nenhum tipo de ataque à permanência estudantil.

Aprofundar nossa organização, com assembleias, para garantir uma forte participação dos estudantes no dia 29

Os estudantes mostraram no processo que barrou a implementação dos novos critérios de bolsa permanência qual deve ser o caminho para enfrentar os ataques. A nível nacional, estamos diante de um ataque muito superior, que pode significar que universidades federais, como a UFRJ, fechem suas portas e interrompam o atendimento à população e a vacinação em seus hospitais em plena pandemia. Também as bolsas de pesquisa e as terceirizadas serão alvo prioritário para pagar por essa crise. Bolsonaro sempre declarou as universidades e o movimento estudantil como seus inimigos.

A Unicamp sempre foi linha de frente das lutas nacionais, como no golpe de 2016, quando na maior greve dessa universidade em sua história recente arrancou as cotas e o vestibular indígena, contra a direita. Sabemos que Doria, apesar do discurso demagógico pró-ciência, além de atacar fortemente os metroviários, com apoio da mídia golpista e mentirosa, também tem as estaduais como alvo. No ano passado, demonstrou isso com a tentativa de atacar nossas reservas técnicas (que as reitorias conquistaram atacando os salários dos trabalhadores), com o PL 529. Como parte das estaduais, batalharmos pela unificação com as federais e com os trabalhadores em luta, também é nos prepararmos contra os ataques do regime golpista, que vieram precarizando a educação e a saúde com o Teto de Gastos e reformas, que afetarão a Unicamp e os planos da reitoria Tom Zé. Nossos inimigos são Bolsonaro, Mourão, Doria e todos os golpistas.

Por isso, o desafio do movimento estudantil nacional e na Unicamp passa pela mais forte organização dos estudantes. Assim, como se mostrou crucial a auto organização dos estudantes no último período, é necessário construir assembleias de base, com voz e voto ao conjunto dos estudantes, para pautar os cortes e se somar a luta dos estudantes das federais.

Por isso, fizemos um chamados aos companheiros do PSOL, em especial a gestão majoritária do CACH (Centro Acadêmico de Ciências Humanas), que é dirigida pelo Afronte e da qual somos uma parte minoritária, para pautar a luta contra os cortes e discutir como os estudantes do IFCH vão se incorporar ao dia 29 em assembleia de curso, assim como a exigência do DCE da Unicamp, que hoje é dirigido pela majoritária da UNE, para que construam essa luta em toda a universidade.

Toda a Oposição de Esquerda da UNE, que é composta pelo Afronte, Juntos, CST e UJC, deveria estar pensando como organizar os estudantes da Unicamp, de maneira unificada, uma vez que estão em importantes DCEs do país, como na UFRJ, na UFMG, na UFRN e outras federais, e têm responsabilidade para que nossa unidade seja um fator para amplificar a luta das federais. Parte das lições do Tsunami da Educação de 2019, quando a UNE, com o PT e PCdoB em sua direção, conscientemente dividiu a luta contra os cortes da luta dos trabalhadores contra a Reforma da Previdência, é que os estudantes devem tomar essa batalha nas mãos, pela base, para que se coordenem e decidam os rumos desse enfrentamento.

Precisamos que os estudantes tomem as ruas no dia 29, decidindo suas bandeiras políticas nesse momento. Nós, da Faísca, gritaremos com toda força pelo Fora Bolsonaro, Mourão e militares e para que sejam os capitalistas, não a educação e a saúde, a pagarem pela crise. Apoiaremos todas as categorias em luta, porque só nossa unidade com os trabalhadores pode nos fazer vencer. Nesse processo, seguiremos levantando que se desenvolva um forte luta, inspirada nos processos efervescentes da América Latina, como Colômbia, para impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, contra todo o regime, e não um impeachment que colocaria Mourão no poder. Não podemos esperar 2022, como quer Lula, nem confiar em uma CPI que é um teatro dos golpistas. Querem preservar as reformas e o legado do golpe. Precisamos de uma saída que enfrente o regime e sua obra de conjunto.

Isso nos fortalece contra os planos da gestão Tom Zé

A reitoria, que agora está nas mãos de Tom Zé, que desde a campanha para a antidemocrática consulta para o cargo, mostrou que seguirá o legado de Knobel, estreitando ainda mais as relações da Unicamp com as empresas privadas, justificadas pelos cortes orçamentários. Com a mesma justificativa de “problemas orçamentários”, a gestão Knobel, abriu precedente para ferir a gratuidade do ensino, com a aprovação da pós-graduação lato sensu paga, fundos patrimoniais e aprovação do corte de R$72 milhões. É assim que diz que vai buscar novas fontes de financiamento para a permanência.

Além de não se comprometer com a permanência estudantil, Tom Zé, assim como Knobel, está disposto a colocar a crise orçamentária da universidade nas costas dos setores mais pobres, aprofundando a terceirização, que precariza o trabalho dos funcionários. Agora as trabalhadoras do bandejão estão com risco de serem demitidas, como acontece em todas as renovações de contrato que a Unicamp faz com as empresas terceirizadas. É escandaloso que esse setor, que faz a universidade funcionar, em funções "invisíveis" tenham de viver constantemente com o medo de serem jogadas na rua, ainda mais em meio a uma pandemia, que administrada por esse governo e instituições genocidas, faz com que as pessoas tenham que se enfrentam com o vírus, o luto e a fome. Além disso, o anti-democrático CONSU quer aprovar novas normas de conduta que vão servir para aprofundar perseguições contra o movimento estudantil e suas lutas.

O movimento estudantil da Unicamp precisa superar a fragmentação imposta pelo ensino remoto e se colocar em cena contra todos os ataques, em aliança com os trabalhadores de dentro e de fora da universidade, e uma batalha unificada com as federais fortalece isso. Isso fortaleceria enormemente nossa luta por permanência estudantil, pela reforma e ampliação da moradia, pela garantia de bolsas e para que sejam sem contrapartida.

Há 53 anos do Maio de 68 que na França e no Brasil traz potentes exemplos da luta do movimento estudantil e operário, tomemos nosso futuro nas mãos, nenhuma resignação e nenhuma conciliação com o que os capitalistas querem para nós. Esse é o chamado da Faísca a cada estudante que vem construindo nossos grupos de estudos, debatendo a relação entre o marxismo e a questão negra, nos acompanhando em greves e atos.




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