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Unicamp fala em expandir o acesso com PAAIS e SISU, sem falar de cotas

Recentemente foi divulgado que, além de aumentar a pontuação do PAAIS, a Unicamp cogita a utilização do SISU como forma de ingresso.

Guilherme Zanni

Professor da rede municipal de Campinas.

sexta-feira 7 de agosto de 2015| Edição do dia

A Unicamp se orgulha de ter como política de ação afirmativa o PAAIS (Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social), um programa que acrescenta pontos na nota dos alunos oriundos de escolas públicas e dos auto declarados negros ou indígenas. Até a última edição do vestibular, eram acrescidos 60 pontos na nota da segunda fase dos candidatos que fizeram todo o ensino médio em escolas públicas, e mais 20 pontos aos que também se declarassem pretos, pardos ou indígenas.

Já no próximo vestibular serão acrescidos na nota da primeira fase 60 pontos para os que cursaram o ensino médio em escola pública, e mais 30 pontos aos que se declararem pretos, pardos ou indígenas. Além de, na segunda fase, um acréscimo de 90 pontos na nota dos que estudaram na rede pública e 30 pontos aos pretos, pardos ou indígenas.

O PAAIS foi uma tentativa da reitoria da Unicamp de contornar o debate de cotas como processo inclusivo e colocar um bônus que seria mais justo e atenderia a demanda da população segundo ela, mas que na prática não se mostra desse jeito. Isto porque, essa mudança vem depois de no último ano, ter uma queda de 21% no número de matriculados que fizeram o ensino médio em escola pública, deixando ainda mais distante da meta da reitoria de ter até 2017, 50% de escola pública e 35% de pretos, pardos e indígenas.

Analisando os dados de 2015, percebemos que a elitização da universidade começa ainda durante as inscrições do vestibular. Apesar de 85% dos estudantes de ensino fundamental e médio do estado de são Paulo estarem matriculados na rede pública, apenas 27% dos inscritos estudam nestas escolas. A universidade é tão desligada do cotidiano da população, que não faz parte das perspectivas dos jovens pobres ocupar esse espaço. Além do fato de que, dos estudantes de escolas públicas que se matricularam esse ano na UNICAMP, cerca de 40% são de escolas técnicas, que geralmente já tem um processo seletivo prévio.

Sabemos que o PAAIS não irá modificar esse caráter elitista e excludente da Unicamp, inclusive a própria reitoria sabe disso, quando diz que irá pensar sobre o Sisu. De acordo com dados da COMVEST no ano de 2002, quando ainda não tinha o programa, 31.5% dos ingressantes vinham de escola pública. Mais de uma década depois, apenas 30,2% dos ingressantes vieram da rede pública neste ano. Outro número que alterou muito pouco é o de negros e indígenas. Antes do PAAIS, em 2004, era 11,8%. Neste ano chegou a 15,7%.

Esse sistema de bonificação, na verdade mascara o real acesso da população negra e pobre à UNICAMP. Até agora, vimos apenas os índices gerais da universidade, mas estes variam muito entre os cursos, e nas salas de aulas o que percebemos é que a maior parte dos ingressantes negros e pobres estão nos cursos mais precários, como as licenciaturas, e não na medicina ou nas engenharias mais concorridas.

Mas o que significa a reitoria estar pensando em debater um pouco mais sobre o SISU? Tendo em vista que desde sua implementação o PAAIS não alterou quase nada na democratização do acesso, o SISU passa a ser uma carta na manga da reitoria para alcançar a sua meta até 2017. Significa também uma nova lógica vinda da reitoria que pode se assemelhar e se basear no que ocorreu na USP, em que uma minúscula parte das vagas pode ser acessada via SISU, como resposta as mobilizações em torno de cotas para USP.

Não podemos ter nenhuma confiança nesse programa (PAAIS), que na prática, não mudou em nada estrutura e composição social da universidade, muito menos na possibilidade da reitoria conceder o acesso de uma pequena parte das vagas pelo SISU. O debate e a implementação de cotas sociais e raciais é urgente e é absurdo que a Unicamp ainda se negue a discutir isso.

Para que tenhamos de fato uma universidade aberta à juventude e aos trabalhadores é preciso que os estudantes se coloquem em luta contra o projeto de universidade da reitoria e do governo. Por isso a luta por cotas raciais proporcional a população negra no estado e desvinculadas das cotas sociais é fundamental para garantir o acesso, não só aos cursos menos concorridos, mas a todos os cursos da universidade.

Ainda temos que ter bem claro, que as cotas não garantem o direito básico à educação de qualidade a toda a população. Enquanto apenas cerca de 5% da juventude tem acesso ao ensino superior público, milhões estão deixando seus salários nos grandes monopólios da educação privada, como a rede Kroton-Anhanguera. A educação não pode ser tratada como mercadoria e gerar um lucro absurdo para poucos. Essas vagas têm que ser gratuitas e as universidades privadas serem estatizadas e controladas pelos trabalhadores e estudantes, para caminharmos para que todos que queiram estudar tenham esse direito, sem nenhum vestibular para impedir.




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