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Eleições no Chile | Uma primeira análise do resultado das eleições presidenciais no Chile

Apresentamos uma primeira análise do Partido dos Trabalhadores Revolucionários (PTR), o partido irmão do MRT no Chile, que também impulsiona a rede de diários La Izquierda Diario, sobre o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais em que prevaleceu a extrema-direita com José Antonio Kast, que disputará o segundo turno com o centro-esquerdista Gabriel Boric. O que expressam esses resultados dois anos após a rebelião popular de 2019?

segunda-feira 22 de novembro | Edição do dia

Do lado esquerdo Gabriel Boric, do direito José Antonio Kast

Com mais 99% das urnas apuradas, o candidato à presidência da extrema-direita, José Antonio Kast, obteve 27,91% dos votos, liderando o primeiro turno. Ele irá ao segundo turno com o candidato da centro-esquerda, Gabriel Boric, da Frente Ampla, que obteve 25,83% dos votos. Os candidatos de centro-direita apoiados por Piñera foram derrotados. A surpresa destas eleições foi Franco Parisi que terminou em terceiro lugar com 12,80%, um candidato "populista" que se apresentou como "outsider", mas mantém um programa de direita. Que leitura podemos fazer desses primeiros resultados das eleições presidenciais?

As eleições e a rebelião

José Antonio Kast obteve quase 28% dos votos, mas seus votos se somados ao candidato da direita tradicional apoiado por Piñera, Sebastián Sichel, esse número chega a 40% dos votos. Se a isso somarmos também os votos de Franco Parisi, fica evidente um giro à direita no cenário chileno, embora com contradições e limites.

Muitos estão chocados com o resultado, principalmente com a quantidade de votos recebidos por Kast e Parisi. Como isso aconteceu depois da rebelião de 2019 em que todo o patrimônio econômico e social da ditadura de Pinochet, preservado por trinta anos após a ditadura por governos direitistas e reformistas, foi desafiado? Por que isso acontece depois que milhões de chilenos se mobilizaram contra o sistema de aposentadoria e o sistema de saúde privados, contra a miséria neoliberal implantada durante a ditadura e sustentada pelos governos da Concertación?

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Há um fator óbvio: os grandes grupos econômicos, o Governo e os meios de comunicação têm levado a frente nas últimas semanas uma "campanha de terror" e difamação, tentando reduzir o eixo do debate à oposição entre "ordem" de um lado e a “violência” de outro. Ao mesmo tempo, querem responsabilizar os milhões de trabalhadores que retiraram parte dos seus fundos de aposentadoria durante a pandemia pela inflação que neste momento atravessa o Chile. Com isso, querem preparar as condições para 2022 em que os gastos fiscais serão reduzidos e as condições econômicas deverão ser mais complexas. Esta campanha levada a frente pela Direita também é uma resposta aos conflitos que ficaram em aberto desde a rebelião de outubro de 2019 e visa atingir os setores que lutam, como é o caso do povo mapuche.

No início, o candidato dos grandes empresários era Sichel e, para enfraquecer Gabriel Boric, procuraram levar a frente esta campanha de terror. Mas com isso eles acabaram jogando a favor de Kast. Como parte dessa campanha de terror, o governo e a mídia bombardearam temas como o narcotráfico. Há poucas semanas, 118 mil dos 144 mil habitantes da região de Araucanía, no sul do país, onde estão localizadas as principais comunidades mapuche, votaram a favor do estado de emergência, que na prática significa a presença de militares na região. O resultado eleitoral deste domingo naquela região é coerente com esses fatos: Kast obteve mais de 42% e Boric apenas 16,56%.O discurso anti-imigrante também ganhou coro em setores da população , como pôde ser visto na cidade de Iquique, no norte do Chile, onde foram realizadas marchas em que setores da extrema-direita queimaram tendas típicas e roupas de imigrantes. Na região norte de Arica, este domingo Kast obteve 29,69% dos votos e Boric 17,78%. Fica claro que, de certa forma, toda aquela campanha funcionou a favor de Kast e a extrema-direita.

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O fenômeno Parisi

O que chama a atenção em regiões do norte como Arica e Parinacota ou na região de Antofagasta é a quantidade de votos para o candidato populista Franco Parisi. No caso de Antofagasta, Parisi venceu obtendo 33,2% dos votos, mais que Kast, que obteve 21,08%, e Boric, que obteve 20,69%. O que expressa essa alta quantidade de votos para Parisi? Expressa um giro à direita, porque o programa de Parisi é neoliberal, embora para muitos eleitores seja uma forma de mostrar um distanciamento dos partidos tradicionais. Parisi provavelmente também canaliza parcialmente a derrocada da Lista do Povo, uma coalizão de organizações e candidatos de centro-esquerda e da chamada "esquerda independente", que concorreu às eleições constituintes com bons resultados, mas posteriormente se envolveu em uma série de escândalos políticos e pessoais, de alguns de seus membros. Este candidato que mora nos Estados Unidos, não foi ao Chile para fazer campanha ou votar e nem mesmo participou dos debates presidenciais, focando seu discurso em propostas econômicas para as famílias e alimentando a perspectiva neoliberal de ascender financeiramente como fruto do trabalho individual.

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Muitos se perguntam como se foi de uma revolta em 2019 para esse resultado em 2021? O que acontece é que a revolta foi desviada. A rebelião abalou Piñera e o regime, mas não o derrubou. Ele desafiou uma herança econômica e social, o sistema de aposentadoria e o sistema de saúde, mas não formulou um programa alternativo de sociedade, nem obteve a organização para conquistá-la.

A coalizão Apruebo Dignidad, composta pela Frente Ampla e pelo Partido Comunista, tem a responsabilidade de ter salvado Piñera e de ter deixado a Convenção Constituinte subordinada aos poderes existentes e, portanto, longe das urgências populares, o que ajudou a desmoralização a avançar, e assim fortalecer a extrema-direita.

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De todo o caso, esse giro no cenário político não é unilateral. Em regiões importantes do Chile como Valparaíso, Santiago e Coquimbo, Gabriel Boric venceu. No caso de Santiago, isso não é irrelevante, pois é a maior concentração de habitantes do país que esteve no centro da rebelião de 2019. Em importantes comunas populares de Santiago como Puente Alto e Maipú, Kast foi derrotado. É uma expressão, ainda que distorcida, de que há milhões que querem alcançar saúde, educação, habitação, aposentadoria e salários justos, são milhões de pessoas que querem mudanças profundas.

Kast tentará atacar a "esquerda" alimentando um suposto confronto entre "liberdade" e "comunismo", como disse em seu discurso na noite de domingo. Recentemente, Gabriel Boric disse que o fortalecimento de Kast se deve a uma suposta atitude arrogante que às vezes setores da esquerda têm para com quem pensa diferente. Afirma isso para justificar seu papel na assinatura do "Acordo de paz" de 15 de novembro de 2019 (15N), que tinha como objetivo prevenir a queda de Piñera e desviar a rebelião, convocando uma Convenção Constitucional limitada que foi exaltada por setores da Esquerda brasileira que não apontavam seus limites. Tanto esta ação de Boric em 2019, como a do Partido Comunista, que não buscou resistir aos ataques que os trabalhadores sofreram durante a pandemia, contribuíram para abrir espaço à extrema direita. Em 2019, a rebelião queria derrubar o sistema AFP [ o sistema de aposentadoria privada] e o sistema de saúde privatizado. Mas a “estratégia de espera” como quis setores da Esquerda chilena, sujeita ao tempo da Convenção Constitucional, levando a um ponto em que não se atendeu as demandas da rebelião e uma extrema direita está vencendo o primeiro turno, falando em “ordem” e alimentando discursos de ódio . Muitos representantes da Lista do Povo, que se apresentaram como desafiadores do sistema, acabaram em grande parte sujeitos às regras do Acordo de paz selado no 15N, sem sequer lutar pela liberdade dos presos políticos da própria rebelião de 2019.

O Partido dos Trabalhadores Revolucionários (PTR), partido irmão do MRT no Chile que impulsiona a rede de diários La Izquierda Diário, discutirá nos próximos dias que posição tomar no segundo turno para enfrentar José Antonio Kast e tudo o que representa sua candidatura de extrema-direita. Se faz necessário colocar em prática uma alternativa dos trabalhadores da esquerda revolucionária que apoie a unidade das fileiras dos trabalhadores, a frente única da classe trabalhadora, contra qualquer ataque que venha dos setores de direita que querem avançar contra nossas aspirações. A "polarização" que se expressa nestas eleições não é apenas consequência do cenário pós-rebelião de 2019, é também um anúncio dos acontecimentos mais agudos da luta de classes que certamente se desenrolarão no Chile, a partir da ajustes que os capitalistas estão preparando.

Diante desta situação, o PTR buscará fortalecer a auto-organização e a unidade dos trabalhadores, mulheres, jovens e povos originários para defender todos os direitos e conseguir as demandas, que seguem mais atuais que nunca, pelas quais milhões chilenos lutaram na rebelião. A partir do PTR foram apresentadas candidaturas de trabalhadores revolucionários em diferentes regiões do Chile para lutar com essa perspectiva e forjar um partido que pretende enfrentar os capitalistas.

Os votos de trabalhadores, jovens e mulheres que o PTR recebeu em Antofagasta e outras cidades são muito importantes para avançar neste caminho. O voto no PTR se concentrou nas famílias da classe trabalhadora e nas regiões com tradição combativa. Ao mesmo tempo, contou com o apoio de organizações sociais, sindicais e ativistas da região. Essa base deve ser mobilizada para se organizar e enfrentar os ataques que a direita e os grandes empresários querem impor neste novo cenário.




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