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A partir de uma breve análise histórica da canção chilena “El Pueblo Unido Jamás Será Vencido”, esse texto propõe pensar, à luz da arte e da luta de classes internacional, os acontecimentos recentes no Brasil e no Chile e as tarefas da esquerda para o período seguinte.

Caio Rosa Estudante de Relações Internacionais na UnB

quinta-feira 11 de março | Edição do dia

O povo unido jamais será vencido
De pé, cantar
Que vamos triunfar
Avante já
Bandeiras de unidade
Você virá
Marchando junto a mim
E assim verá
Seu canto e sua bandeira florescer
A luz
De um amanhecer vermelho
Anuncia já
A vida que virá

A canção “El pueblo unido” é um hino histórico, um patrimônio imaterial da classe trabalhadora internacional e dos oprimidos. A música foi composta pelo grupo chileno Quilapayún em 1973, em meio ao triunfo eleitoral da Unidade Popular de Salvador Allende no Chile (formada pelo Partido Socialista, o Partido Comunista, o Partido Radical - representante tradicional da burguesia liberal - e outras organizações menores).

Se essa canção, por um lado, reflete a confiança das massas em sua direção à época, as ilusões de uma “via chilena ao socialismo" - expresso, por exemplo, em seu mote principal “o povo unido”, um sujeito indeterminado - apesar disso, essa canção é um hino de luta. Um tema de força da classe trabalhadora e dos oprimidos. Ela reflete a disposição de luta da classe trabalhadora chilena, apesar de suas direções burocráticas.

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Afinal a história pertence à luta de classes. Essa é a mesma classe que forjou os Cordões Industriais, embriões de duplo-poder de tipo soviético, em meio a onda de ocupações e expropriações de fábricas em todo país, ligando as posições estratégicas da produção e reprodução da vida e do sistema capitalista, aos bairros populares, às cidades e ao campo.

Ao contrário de Salvador Allende, dos reformistas do PS e dos stalinistas do PC, os comunistas confiam unicamente na força da auto-organização do proletariado para fazer triunfar a revolução. O Estado é um instrumento de dominação de uma classe pela outra - em última instância, ele deve ser destruído e dar lugar à ditadura do proletariado, um “Estado de novo tipo”, a mais ampla democracia direta, soviética, de massas e a mais implacável ditadura contra os burgueses - com a potência de definhar desde o primeiro dia.

Não à toa, foi Allende com sua "via chilena ao socialismo” quem colocou Pinochet dentro do governo, como Comandante em Chefe do Exército e membro do Gabinete Militar do presidente. Foi Allende e a UP quem abriu espaço à direita e o imperialismo tentando administrar um Estado burguês dependente, sem mudar as regras do jogo e sim os jogadores. As direções do PS e PC foram as principais responsáveis por desarmar os Cordões Industriais que se defendiam contra a polícia e os militares; quem desviou o poder massivo da classe trabalhadora organizada para dentro do parlamento, do Estado burguês, do instrumento de dominação burguês.

Sem que a classe trabalhadora seja o sujeito que arraste atrás de si as massas “populares”, sem que a classe trabalhadora, auto-organizada, para colocar a produção à serviço das massas e não do lucro dos patrões, não há socialismo. Para que isso se dê, um partido revolucionário, marxista, precisa se construir e se preparar previamente a fim de ser o catalisador e a direção do poder de massas.

Em 2019, a rebelião no Chile se tornou o epicentro do segundo ciclo da luta de classes. Onde nasceu o neoliberalismo, a classe trabalhadora ergue a cabeça, apesar das mobilizações de 2019 seguirem a tendência de ambos últimos ciclos de luta de classes, de predominância da dinâmica da revolta, com a classe trabalhadora que ocupa posições estratégicas (grandes indústrias, transportes etc) assumindo um “papel cidadão”. Isso se dá devido ao peso das burocracias sindicais - dirigidas em boa medida pelo PS e PC. A história acontece primeiro como tragédia, depois como farsa. No entanto, o Comitê de Seguridad y Resguardo em Antofagasta, um embrião de auto-organização operária, é exemplo das contratendências desse processo.

Em meio à rebelião, a juventude, os oprimidos e explorados, se emocionaram e viram esperança mais uma vez com a canção.

Hoje, as massas chilenas conquistaram pela sua mobilização uma Assembleia Constituinte. Mas o mesmo PC e PS de Allende, ambos deram as mãos à Piñera, desviando as mobilizações para uma Assembleia Constituinte que não é nem livre (ou seja, não se pode decidir sobre tudo), nem soberana (ou seja, os antigos poderes continuam a agir e tomar decisões em paralelo). Os tratados internacionais não podem ser mexidos; as antigas instituições do regime herdadas da ditadura militar continuarão a operar e funcionar com total normalidade - incluindo Sebastián Piñera; privilegia os partidos tradicionais; quorum de 2/3 para a tomada de decisões que favorece uma minoria que terá o poder de veto de fato; mantém na prisão cerca de 600 presos políticos da revolta para punir os que saíram à luta.

Mesmo diante dessa farsa pela qual a burguesia tenta a todo custo reabilitar o regime de Pinochet, o PTR, partido irmão do MRT no Chile, participará do processo constituinte, denunciando a direita e as direções burocráticas do movimento de massas, exigindo imediata liberdade aos presos políticos e por uma verdadeira Assembleia Constituinte livre, na qual sejam as massas quem decidam livremente sem nenhuma amarra da burguesia, e soberana, para que a Assembleia tenha plenos poderes para decidir sobre o que quiser sem interferência dos poderes antigos.

Saiba mais: O movimento de trabalhadores antes e durante a rebelião popular

É nesse sentido que precisamos ouvir a canção: apenas a classe trabalhadora organizada para lutar pode, finalmente, derrubar o regime podre de Pinochet. O mesmo ecoa com enorme atualidade para o Brasil: diante de um regime golpista ultraneoliberal, em meio a uma situação reacionária e, por vezes, sem esperança, apenas a classe trabalhadora organizada para lutar contra todos os golpistas e todas as reformas de Bolsonaro, Mourão, STF, e Congresso - só ela pode superar a crise histórica do capitalismo, libertar as massas da exploração e da opressão.

É fundamental nesse sentido que a CUT e a CTB, as maiores centrais sindicais do país e dirigidas pelo PT e PCdoB, convoquem nacionalmente a luta em cada local de trabalho e estudo por um plano emergencial operário e independente de combate à pandemia, exigindo também a estatização do sistema de saúde sob controle operário e a quebra de patentes das vacinas.

Para tanto, é preciso a mobilização sistemática da classe trabalhadora contra o regime golpista de conjunto, todos capachos dos lucros da burguesia e lambe-botas do imperialismo. Por isso, o MRT defende uma Assembleia Constituinte livre e soberana imposta pela luta da classe trabalhadora, unida, em direção a um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo - e que sejam eles quem paguem pela crise!

Ela virá, a revolução conquistará a todos o direito não somente ao pão mas, também, à poesia - Leon Trótski




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