Mundo Operário

TERCEIRIZAÇÃO

Um ressurgir da luta dos terceirizados no Brasil?

Entrevistamos Diana Assunção, autora do livro "A precarização tem rosto de mulher" e Diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP, que participou de inúmeras greves de trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas na Universidade de São Paulo.

quinta-feira 21 de maio de 2015| Edição do dia

Esquerda Diário: O plano de ajustes do governo Dilma está tendo efeito direto na área da educação e nas universidades. Como isso atinge os trabalhadores terceirizados?

Diana Assunção: O corte de 7 bilhões para a Educação traz uma situação dramática para o problema da educação pública no país. Enquanto Dilma cortava esta verba, dizia à população que seu lema era "Brasil Pátria Educadora". Grande parte da insatisfação popular com o governo vem daí, junto com os escandalosos casos de corrupção. As universidades públicas, sejam federais ou estaduais, já vinham de um forte sucateamento e uma disputa de "projetos", com as políticas de privatização entrando por "todos os cantos" das universidades. A terceirização foi uma poderosa arma neste caminho de destruição da universidade pública. Tudo o que era possível terceirizar foi terceirizado: lanchonetes, restaurantes, limpeza, segurança, manutenção, xerox, entre outros.

Neste sentido, quando começam os cortes a corda estoura do lado "mais fraco". Então os primeiros e primeiras a pagar esta conta são os terceirizado. Porque os seus contratos são precários, recebem salários menores, não ganham benefícios e além de tudo são considerados "de outra classe", pois usam uniformes diferentes e muitas vezes não fazem parte da vida universitária. Aqui na USP por exemplo eles não constam no Anuário, ou seja, para a Reitoria eles não existem.

Esquerda Diário: A UFRJ e a UERJ estão há meses em um conflito que escancara esse problema. O que essa situação tem em comum com as greves de terceirizados que ocorreram na USP?

Estou acompanhando a luta da UFRJ e da UERJ, que já vem de alguns meses. Ano passado vi um video dos trabalhadores terceirizados da empresa Construir, na UERJ, e postei nas redes sociais que reconhecia neles a força que também vi nos terceirizados aqui da USP. Tanto na UFRJ quanto na UERJ os terceirizados estão sendo os primeiros a pagar a conta da crise, precedidos dos estudantes mais pobres e suas bolsas cortadas. Isso mostra o caráter do plano de ajustes do governo, que atinge em especial os setores mais precários, e também as mulheres e negros, que no caso da terceirização da limpeza são ampla maioria.

Eu costumo dizer que em todas as universidades do país a situação é a mesma: as universidades fazem contratos com empresas terceirizadas que lucram muito em cima do trabalho precário, as reitorias se eximem da responsabilidade, depois as empresas somem e os trabalhadores ficam na mão. Mas agora, com a crise econômica pela qual passa o país, o atraso dos salários dos terceirizados, e demissão de muitas, está diretamente relacionado aos ajustes que começaram. Por isso a luta em defesa dos terceirizados é uma luta nacional. É profundo que o movimento estudantil destas universidades esteja levantando esta bandeira de aliança com os terceirizados, pois nesta aliança reside uma força explosiva.

Esquerda Diário: Você considera que há um ressurgir da luta dos terceirizados no país? Como isso pode se potencializar diante da aprovação do PL 4330?

Eu considero que sim e tende a aumentar. A terceirização já é muito ampla, e como mostramos em outro artigo no Esquerda Diário a terceirização aumentou de 4 milhões para mais de 12 milhões somente nos 12 anos do governo do PT. Estamos há muito tempo lutando contra a terceirização, e agora surge esse Projeto de Lei 4330 para generalizar a terceirização, expandi-la, ou seja, tornar o Brasil um país terceirizado e precário, mais do que já é.

É impressionante o quanto este debate tem sido vivo nos locais de trabalho, nas fábricas e escolas, pois diz respeito à condição de trabalho de todos. Que nestas universidades estejam ressurgindo lutas de terceirizados aponta um cenário em que praticamente todas as universidades deverão passar por situações semelhantes, e isso irá ocorrer também em outros ramos. Propagandear a luta dos trabalhadores precários - abandonados pelos sindicatos da própria esquerda e tendo que enfrentar suas burocracias sindicais - será um elemento decisivo pra chegar ao maior número de trabalhadores em todo país e mostrar que os que mais sofrem com o velho serão, com toda a certeza, os que mais lutam pelo novo. Aí estarão as mulheres, jovens e negros, da classe trabalhadora, que carregam nas costas não somente a exploração mas o peso da opressão.

Esquerda Diário: Como foi a experiência das greves que você participou na USP que poderiam ser generalizadas em outras universidades?

Em 2010 organizei um livro chamado "A precarização tem rosto de mulher", das Edições ISKRA que já está em sua segunda edição. O livro contava a história de Silvana Ramos, linha de frente da greve das terceirizadas da Dima em 2005. Logo no lançamento do livro estourou uma enorme greve de terceirizadas, a greve da União que durou 30 dias. Depois participei de mais algumas greves, como a dos jovens jardineiros da BKM e das mulheres da Higilimp. Em todas estas experiências os trabalhadores mostraram uma explosiva vontade de luta e tiveram o apoio do Sintusp, já que seu sindicato, o Siemaco, está do lado dos patrões. Levantamos em todos os momentos a defesa da efetivação dos terceirizados sem necessidade de concurso público como uma forma fundamental de enfrentar a terceirização, lutando não apenas pela reivindicação do pagamento imediato dos salários. E em todos estes momentos, o papel do movimento estudantil foi decisivo. No momento em que os estudantes percebem que enquanto estão na sala de aula aprendendo sobre escravidão, há algo similar nos corredores, algo pode mudar, e uma explosiva aliança pode se colocar em prática.




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