PRECARIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

UERJ: um mês de aulas remotas escancarando a exclusão e a precarização!

quarta-feira 14 de outubro| Edição do dia

Imagem/Reprodução

A reitoria em uma nota de boas-vindas no dia 14, disse o seguinte: “É com alegria que a comunidade universitária se reencontra para retomar suas atividades, por meio do ensino remoto emergencial”. Contudo na realidade o que se expressou foi que a “alegria’’ citada pelo reitor passou distante da realidade dos alunos.

Já na primeira semana os grupos de Whatsapp e redes sociais foram repletos de insatisfações devido ao ERE(Ensino Remoto Emergencial). Os alunos seriam surpreendidos pela falta de informação e com cobranças de faltas que professores estariam fazendo.

Para além disso, nesse processo de um mês de ERE na UERJ os alunos são semanalmente cobrados de excessivos trabalhos exigidos pelo AVA(a plataforma virtual), em que muitos alunos tiveram de trancar suas matrículas e cancelar matérias. Mesmo diante de toda essa situação as “aulas’’ seguem normalmente, enquanto até hoje os alunos não sabem quando os tablets que foram prometidos pela reitoria irão chegar, além dos alunos que tiveram resultado indeferido para o recebimento do chip de internet, outra promessa da reitoria. A realidade está provando que o pacote de inclusão da reitoria e apoiado pelo DCE impõe bastante limites para uma parcela significativa de estudantes.

Alunos, técnicos e professores se encontram imersos em meio à mistura de estresse, ansiedade e desânimo consequentes desse modelo de ensino. O desejo ou pressão de dar continuidade aos estudos, os efeitos de meses pandemia marcados pela falta de convivência nos espaços da universidade se chocaram com os limites concretos dessa forma de ensino. A precariedade e a exclusão é o que marca esse retorno.

Para os estudantes da UERJ: Como chegamos nesse cenário?

O ERE na UERJ inicia em meio ao cenário de crise econômica, política e sanitária. Enquanto o Rio é alvo de constantes investigações, Bolsonaro quer controlar as investigações contra sua família por parte MP do Rio de Janeiro. Trata-se, portanto, de uma disputa entre duas alas do que existe de mais reacionário e decadente no regime forjado após o golpe frente à disputa eleitoral carregada de seus próprios interesses (e em benefício dos capitalistas) que sugaram milhões da educação, da saúde, de outros setores. Aqui vimos afastamentos, prisões e “investigações” como do Witzel, escândalos do Crivella, a prisão de Pedro Fernandes(ex-secretário estadual de educação) e também o envolvimento de nomes diretamente ligados a UERJ. [1]

A pandemia evidenciou as contradições existentes no sistema capitalista. As negras e negros, os trabalhadores que são submetidos as condições precárias de moradia, trabalho e vida foram os mais atingidos. O racismo, a exploração e a miséria capitalista são o fator central das 19.308 mortes por covid-19 no Estado e as mais de 150 mil no Brasil, desses números de óbitos a maioria são pessoas negras. Esse é o cenário que estar colocado do Ensino Remoto Emergencial.

Ricardo Lodi, reitor da universidade afirmou, cinicamente, que “A implementação do ensino remoto emergencial é uma construção coletiva de toda a Universidade”. Mas sabemos que sua aprovação se deu de forma anti-democrática, sem um debate profundo com a comunidade acadêmica de quais seriam nossas prioridades nesse momento e para onde deveríamos direcionar nossas forças. O DCE- representatividade estudantil da UERJ, que atualmente é dirigido pelo PT, PcdoB e o "Levante Popular da Juventude" foi totalmente convenientes ao projeto de ERE da reitoria, até hoje o DCE não organizou nenhum espaço de debates e mobilizações contra o ERE, contrário a isso, segue sendo o departamento estudantil da reitoria. Enquanto os estudantes estão sendo impactados pela precarização do ensino a distância na UERJ.

Vale lembrar que no final do ano passado, o Ministro da Educação (na época o Weintraub), seguia o fluxo de regulamentar a oferta do ensino a distância em universidades federais, autorizando que as instituições da rede pública oferecessem nos cursos presenciais até 40% da carga horária total por esta via. Assim como em 2018, o número de vagas ofertadas especificamente pelo ensino superior a distância (EAD) pela primeira vez superou o número de oportunidades em cursos presenciais. Naquele ano foram 7.170.567 vagas remotas contra 6.358.534 vagas presenciais. [2]

Temos clareza que o projeto educacional da extrema direita no país é tornar a educação mercadoria mesmo que isso custe o aprofundamento da precarização. A reitoria da UERJ quando implementa essa modalidade de ensino remoto sem consultar a comunidade acadêmica se adapta ao que existe de mais precário da educação brasileiro, o ensino digital.

Como parte da Juventude Faísca e do centro acadêmico de serviço social da UERJ no último período buscamos mostrar os limites e os interesses que baseiam esse modelo de educação colocados como única opção neste momento. Nos cursos onde estamos e no centro acadêmico de Serviço Social, batalhamos juntos com companheiros e companheiras das correntes de esquerda do movimento estudantil, os estudantes e o conjunto dos trabalhadores da universidade, alertando as consequências desse modelo para os estudantes, principalmente os mais precários, que atualmente são os mais atingidos pelo ERE.

Por isso na UERJ batalhamos para que o ERE fosse debatido por toda a comunidade acadêmica. No Centro Acadêmico de Serviço Social (CASS), realizamos assembleia virtual para que esse tema fosse discutido e as posições dos estudantes quanto ao ERE fossem determinadas a partir de um vivo debate. Os estudantes votaram a exigência do plebiscito à reitoria e DCE para que não ignorasse as demandas e participação dos estudantes frente ao avanço do ERE naquele momento. Nós incorporamos também a Campanha Contra a Precarização do Ensino - "ERE na UERJ não!", que veio cumprindo papel importante de oposição ao ERE, em unidade com professores, técnicos e estudantes, não só da UERJ Maracanã, bem como de outras unidades.

A reitoria ignorou esses elementos e também segue ignorando exigências das outras categorias como a Proposta de Garantias e Direitos dos Docentes na Situação de Ensino Remoto Emergencial feita por parte dos professores. Por termos chegado até aqui tomando esses caminhos, achamos absurda a afirmação da reitoria de que essa foi uma decisão coletiva. Já que para estudantes o único espaço organizado pelo DCE (PT/PCdoB e Levante Popular da Juventude) foram plenárias que tinham um caráter consultivo, de apresentação da proposta, que na prática determinaram que o ensino remoto a distância iria ser aplicado sim ou sim. E as demais categorias foram diversas vezes ignoradas nesse processo.

A decisão supostamente coletiva dita pela reitoria, e que o DCE assina embaixo, não perguntou aos estudantes se eles queriam retomar desta forma o semestre. Não tornou esse debate real, que levasse em conta a experiência de diversas universidades do país que já estavam findando semestres com essa forma de ensino e nenhuma universidade pelo país obteve resultados positivos dessa mobilidade digital de ensino, ou seja, nem isso foi debatido para avaliarmos melhor nosso retorno.

Agora, a universidade tem garantido limitadas condições para o ERE, seguem as aulas, ignorando as dificuldades e os diversos alunos que não podem continuar. As aulas se iniciaram antes mesmo da entrega total de materiais necessários para permanência estudantil nessa forma de ensino. Os tablets prometidos pela reitoria e comemorados como conquista pelo DCE ainda não chegaram, mas as provas, conteúdos atrás de conteúdos já são uma realidade para os estudantes.

Enquanto juventude Faísca acreditamos que os estudantes precisam ter o direito de opinar e, junto aos técnicos e professores, avaliar o andamento deste semestre remoto em um amplo debate que seja organizado tanto nos cursos quanto em toda a universidade. Acreditamos que cada curso precisa conformar comissões totalmente independentes da reitoria para avaliação do ERE e acompanhamento. E que o DCE, que até agora atua como porta voz e departamento estudantil da Reitoria, tem parcela de responsabilidade frente aos resultados negativos do ERE, pois durante o processo de implementação, embelezou os impactos e as deliberações a reitoria foram totalmente impostas formalmente, fizeram escolhas claras de não se impor completamente à reitoria. É preciso organizar espaços deliberativos, onde os estudantes possam tomar em suas mãos os rumos dos semestre, pois sem isso será cada vez mais comum o estresse, a precarização da educação e a impossibilidade de diversos alunos de seguirem dentro da universidade.

[1] https://www.esquerdadiario.com.br/Ex-secretario-de-Saude-do-Rio-de-Janeiro-diz-em-delacao-que-Claudio-Castro-participava-de-esquema-39007

[2] Os dados são do Censo do Ensino Superior, divulgado em setembro pelo MEC e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).




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