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#striketober | Trótski e a onda de greves nos EUA

A onda de greves no coração do imperialismo tem sido um tema discutido nos jornais do mundo tudo. Buscaremos entender esse fenômeno à luz dos aportes teóricos realizados pelo revolucionário russo Leon Trótski.

sábado 16 de outubro | Edição do dia

Mudanças profundas estão se gestando no seio do imperialismo americano. Em vários jornais de grande repercussão internacional tem sido tema central nos últimos dias as greves nos EUA e as pessoas largando seu emprego.

Para começarmos a entender esse fenômeno, temos que analisar que os EUA foi o país imperialista em que a ofensiva imperialista foi a mais bem sucedida, tanto no sentido de flexibilizar os direitos trabalhistas e precarizar/privatizar os serviços públicos, como no sentido do ataque à organização sindical. No entanto, o feitiço pode estar se virando contra o feiticeiro.

Durante o governo Trump já assistíamos um aumento no número de greves e de sindicalização. Ao mesmo tempo, o desemprego caía a ponto de que logo antes da pandemia era a menor taxa em décadas. No entanto, os empregos eram, em sua grande maioria, empregos precários, muito diferente dos tempos de ouro do wellfare state americano.

A pandemia mudou radicalmente a situação. Muitos trabalhadores foram demitidos e outros foram a home office. Vimos um aumento do número de greves, mas em sua maioria estavam ligadas a questões diretamente de segurança sanitária. Com o Black Lives Matter vimos um salto nas greves e paralisações. No entanto, com o refluxo do movimento, somada às ilusões em Biden e a novo onda da pandemia causada pela variante delta, o número de greves retrocederam.

Porém, a situação parece estar mudando. Os contágios tornaram a cair, ao mesmo tempo que a flexibilização das medidas restritivas, tanto nos EUA quanto no resto do mundo, tem levado a uma recuperação econômica. Junto com isso, novos postos de emprego tem sido abertos. A questão é que esses postos são tão precários ou até mesmo piores que os que existiam antes da pandemia.

Frente a isso, estamos vendo um fenômeno de que em muitas dessas vagas, os trabalhadores estão se demitindo ou entrando em greves por melhores condições. Foi lançada até mesma a #striketober (algo como Greves em Outubro) em referência ao movimento. Muitos dos analistas burgueses estão colocando a culpa desse fenômeno nos auxílios e programas sociais da pandemia. O que essas análises ignoram é que muitos desses auxílios já acabaram ou estão em vias de acabar. Já Leon Trótski, analisando situações similares, dava uma explicação diferente a esse fenômeno.

Analisando a dinâmica da luta de classes, Trótski defendia - contra visões catastrofistas que se desenvolviam dentro do movimento revolucionário – que após um período de retração econômica, uma recuperação poderia fortalecer a confiança da classe trabalhadora em si mesma e dar impulso a greves e mobilizações – ainda que majoritariamente econômicas no início. Concretamente, foi essa dinâmica que assistimos nos EUA durante a década de 30. As grandes mobilizações da classe trabalhadora americana não se deram nos piores momentos pós crash de 29, quando as altíssimas taxas de desemprego assustavam os setores empregados. Pelo contrário, foi a partir da recuperação iniciada em 1933 que os trabalhadores americanos protagonizaram fortes greves e mobilizações massivas. Na época, a sessão americana da IV Internacional interviu em diversos movimentos desses para fortalece-los e leva-los ao triunfo, o que permitiu que o pequeno grupo de dezenas no início da década se fundisse com setores da vanguarda e se tornasse uma organização de milhares no final da década. Parte dessa história está retratada no livro do dirigente trotskista americano James Cannon “A história do trotskismo norte-americano”.

Tomando as devidas proporções e vendo as diferenças da situação, uma analogia pode ser feita para pensar a situação atual nos EUA. A privatização dos serviços de saúde americanos mostraram sua face mais cruel durante a pandemia. Muitos trabalhadores sentem que não é possível mais viver nas condições de miséria dos postos de trabalhos oferecidos. Outros simplesmente não conseguem trabalhar por não ter onde deixar seus filhos ou por ter de cuidar de seus familiares. É claro que também não podemos deixar de ver a influência do enorme movimento Black Lives Matter que, para além de seus fluxos e refluxos momentâneos, deixou marcas profundas na subjetividade da juventude e dos trabalhadores estado-unidenses. Essa marca fica muito clara quando vemos as mobilizações da juventude em defesa da palestina ou a tentativa de sindicalização dos trabalhadores da Amazon no Alabama. A isso temos que somar que com quase um ano de governo Biden, muitas das expectativas que nutriam setores da classe trabalhadora americana estão sendo frustradas.

Ver também: A luta negra nos EUA veio para ficar

As greves ainda se inserem no marco de greves defensivas por melhores salários e condições de trabalho. Também está longe de uma greve geral como sugere o analista do The Guardian Robert Reich em um artigo. Mas se trata de um movimento muito significativo e muito importante se tratando da classe trabalhadora do principal país imperialista do mundo, mostrando também as profundas mudanças subjetivas que está passando e abre um grande espaço para os revolucionários atuarem, como não se via em muito tempo. A tarefa nesse momento é cercar de apoio, assim como buscar coordenar e massificar essas lutas em curso, além de construir um partido revolucionário e anti-imperialista e anticapitalista, se inspirando nos melhores exemplos do trotskismo americano dos anos 30. É nessa tarefa que o Left Voice, grupo irmão do MRT, está se empenhando.




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