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Onda de sindicalização nos EUA | Trabalhadores da Amazon votam essa semana para formar seu segundo sindicato

Desde segunda-feira, 1.600 trabalhadores votam para decidir se devem ou não formar o segundo sindicato da Amazon nos Estados Unidos. Em resposta, a empresa usa todas as manobras possíveis para intimidar os trabalhadores e enterrar a votação.

terça-feira 26 de abril | Edição do dia

A vitória do Amazon Labor Union (ALU) em Staten Island mudou o cenário do movimento operário norte-americano e inspirou milhões de trabalhadores. Uma votação ocorre desde segunda-feira em outro armazém da Amazon, com 1.600 funcionários e do outro lado da rua. E as apostas não poderiam ser maiores. Se bem-sucedida, esta segunda vitória no armazém LDJ5 consolidaria ainda mais o poder da ALU e provaria que sua primeira vitória não foi por acaso. Também confirmaria a importância do modelo de organização de base da ALU e aceleraria o que parece ser uma onda de sindicalização em outros armazéns da Amazon em todo o país. Em resposta, a Amazon está aproveitando todas as oportunidades possíveis para mentir, enganar e intimidar os trabalhadores, a fim de minar o esforço de sindicalização e anular a primeira votação. Trabalhadores e sindicatos em todo o mundo devem apoiar totalmente os esforços de organização da ALU em Staten Island e outros lugares.

Como engrenagens em uma máquina

A Amazon, que teve lucros recordes no ano passado, construiu todo o seu modelo de negócios na exploração de uma força de trabalho mal paga, sobrecarregada e precária. O salário inicial da maioria dos trabalhadores de armazém em tempo integral é inferior a US$30.000 por ano, enquanto o MIT, uma das universidades mais prestigiadas do país, calculou para 2019 que foram necessários cerca de US$69.000 por ano para uma família de 4 membros. Além disso, a taxa de rotatividade, conforme relatado pelo New York Times em junho, é de 150%, o que significa que a grande maioria dos trabalhadores não passa do primeiro ano de emprego. Isso ocorre porque a empresa trata seus funcionários como engrenagens de uma máquina, monitorando e medindo cada movimento para oferecer entrega barata e rápida de seus produtos em todo o mundo. E é esse modelo de negócios superexplorador que torna a Amazon tão incrivelmente hostil a qualquer esforço de organização que possa ameaçar seus lucros ou sua capacidade de controlar totalmente cada minuto do dia de trabalho de seus funcionários. A empresa gastou milhões de dólares para derrotar os esforços de sindicalização em seus depósitos, incluindo a apresentação de mais de 25 objeções à votação original no depósito JFK8, em que se formou o primeiro sindicato.

Como o site Labor Notes relatou no início deste mês, a Amazon está usando uma série de táticas sujas e ilegais para convencer os funcionários do armazém LDJ5 a rejeitarem a sindicalização. Gerentes e representantes da empresa tem colocado os trabalhadores uns contra os outros usando linguagem racista e sexista para difamar os sindicalistas. Eles rasgaram repetidamente faixas sindicais e destruíram ilegalmente panfletos nas áreas de descanso do armazém. E continuaram a obrigar os empregados a participarem de reuniões antissindicais nas quais desrespeitam a ALU, questionam a capacidade do sindicato de administrar um orçamento ou negociar um contrato e mentem aos trabalhadores que um sindicato poderia levar a uma redução nos salários e benefícios. Embora essas reuniões sejam, por enquanto, tecnicamente legais, é ilegal ameaçar os trabalhadores com salários mais baixos se eles votarem por um sindicato.

A empresa também contratou consultores disfarçados para se passarem por trabalhadores, a fim de convencer os funcionários a votarem não ao sindicato. Ao que tudo indica, esses contratados independentes cobram mais de US$3.000 por dia, mesmo que a empresa continue pagando aos funcionários do armazém menos do que um salário digno. De fato, um único desses consultores poderia cobrir os salários de mais de 25 trabalhadores no armazém LDJ5. E talvez o pior de tudo, a empresa está assediando e tentando intimidar os trabalhadores que apoiam os esforços do sindicato. Pelo menos uma funcionária, integrante da ALU, foi repreendida e multada por “assediar” seus colegas quando na verdade o que estava fazendo era falar na sindicalização. Este tipo de assédio e intimidação é claramente ilegal. Conforme estabelecido pelo National Labor Relations Board (NLRB, um equivalente ao Ministério do Trabalho, NdT) "seu empregador não pode proibir você de falar sobre o sindicato durante o dia se permite que você fale sobre outros assuntos não relacionados ao trabalho".

Embora a Amazon e empresas como ela tenham sido muito bem-sucedidas na prevenção de tais esforços de organização no passado - a derrota das tentativas de organizar o armazém da cidade de Bessemer é talvez o exemplo recente de maior destaque - a ALU conseguiu quebrar esse padrão. Isso se deve em grande parte ao modelo de organização de base da ALU. Por exemplo, no armazém JFK8, os trabalhadores não ficaram de braços cruzados enquanto a administração lhes dizia que deveriam votar não. Em vez disso, eles usaram essas reuniões obrigatórias para falar e organizar outros trabalhadores para votar sim, porque sabiam que seus colegas de trabalho os apoiavam. Mas, em última instância, o sucesso dessas táticas, que não são novas nem originais, não é apenas uma questão de estratégia: é uma questão de política.

"Geração U"

Embora alguns ativistas possam focar sua análise exclusivamente na estratégia por trás da vitória da ALU, isso é só parte da história. Essa luta se dá no contexto mais amplo da atual crise política, econômica e social do capitalismo, que de alguma forma despertou a classe trabalhadora desde a chamada Grande Recessão. Muitos dos trabalhadores da Amazon fazem parte do que agora é chamado de "Geração U", de "União/Sindicato". Eles passaram toda a sua vida adulta vivendo e trabalhando sob um regime político e econômico de austeridade e precariedade econômica que os radicalizou e aumentou sua disposição para se organizar. Da mesma forma, ativistas de base entre os mais de 9.500 trabalhadores, em sua maioria negros, latinos e imigrantes nos dois armazéns de Staten Island, representam uma nova geração de organizadores de trabalhadores. Forjados na turbulência da pandemia e das revoltas do Black Lives Matter de 2020, esses trabalhadores trouxeram esse espírito de rebeldia para seus locais de trabalho, estabelecendo conexões entre a exploração que vivenciam no trabalho e a opressão que enfrentam nas ruas. Como Chris Smalls, um dos líderes da ALU, disse à revista Jacobin em julho:

Já sabíamos que havia racismo na empresa. Basta olhar para a campanha de difamação que eles queriam lançar contra mim no ano passado, me chamando de "não inteligente nem eloquente". É por isso que tenho que continuar lutando. Se não nos defendermos, eles não farão isso por nós. Eles não vão se solidarizar com a comunidade negra. Vamos ter que trazer todas essas coisas à tona e responsabilizá-los. É isso que estamos tentando fazer, além de sindicalizar essas instalações.

Graças em parte à multiplicidade de crises desencadeadas pela pandemia, esses trabalhadores também sabem mais do que nunca quão essenciais são seus empregos e entendem o poder que têm como funcionários de uma das maiores e mais lucrativas empresas dos Estados Unidos. O sucesso da campanha da ALU, onde os grandes sindicatos falharam, também demonstra o poder do sindicalismo de base e que não há substituto para a auto-organização coletiva da classe trabalhadora.

E esse sucesso recebeu amplo apoio em todo o país. Uma pesquisa recente do site More Perfect Union revelou que mais de 75% dos americanos apoiam o sindicato da Amazon e concordam que a sindicalização é essencial para melhores salários e condições de trabalho mais seguras para os funcionários. Esse número sobe para 84% entre as pessoas de 18 a 34 anos. O índice geral de aprovação para sindicatos, de acordo com Gallup, é o mais alto em quase sessenta anos. Cerca de 68% dos americanos entrevistados disseram que aprovam os sindicatos, chegando a 77% entre os jovens de 18 a 34 anos. Enquanto isso, as petições apresentadas ao NLRB para novas eleições sindicais aumentaram 57% desde janeiro, e a ALU foi contatada por centenas de trabalhadores da Amazon em armazéns em todo o país perguntando como eles também podem organizar um sindicato em suas instalações.

Organizar e fazer greve em todos os lugares

A vitória em Staten Island, por mais animadora que seja, vem após décadas de declínio dos níveis de sindicalização e atividade grevista. Apesar de muitos exemplos recentes de ações de alto nível nos Estados Unidos, incluindo a onda de greves de outubro passado e as massivas greves de professores que varreram muitos estados governados por republicanos em 2018 e 2019, o movimento operário tem lutado para encontrar o seu ritmo em meio ao conjunto de crises da última década.

Mas essa tendência parece estar mudando, e a ALU é apenas uma parte de um novo movimento operário que parece disposto a reverter essas décadas de declínio. Enquanto os trabalhadores do JFK8 ainda seguiam se organizando para votar, os trabalhadores da Starbucks na cidade de Buffalo formaram o primeiro sindicato da empresa em dezembro. Nos menos de cinco meses desde então, 24 unidades da Starbucks realizaram eleições sindicais, dos quais apenas duas votaram contra a formação de um sindicato. E apesar da campanha anti-sindical da empresa, eleições bem-sucedidas são realizadas quase todos os dias em muitos locais. Embora o número de trabalhadores nesses ramos seja reconhecidamente pequeno – às vezes apenas uma ou duas dezenas de trabalhadores – essas vitórias demonstram que os trabalhadores em todos os lugares podem e devem se organizar no interesse de toda a classe.

A ALU e a Starbucks Workers United convocaram manifestações em massa para no 1º de maio defender o direito de se organizar. Eles apelam a "toda a classe trabalhadora" para "se unir em solidariedade neste primeiro de maio de 2022 e se mobilizar contra a repressão sindical da Starbucks, Amazon e todas as outras empresas que se dedicam a reprimir seus trabalhadores". Essa ação coletiva entre os sindicatos é um sinal extremamente positivo e um passo importante na construção de um movimento operário renovado e combativo. Desde o Left Voice, parte da Rede Internacional Esquerda Diário, nos solidarizamos com os trabalhadores da LDJ5 e a ALU na sua luta por organização e contra a repressão sindical. Os trabalhadores da Amazon e da Starbucks estão liderando o caminho e devemos nos juntar a eles para fazer de 2022 o ano de luta dos trabalhadores.




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