Mundo Operário

UNIÃO DE TRABALHADORES PRECÁRIOS

Trabalhadora chama a construção da União de Trabalhadores Precários

Precarização, terceirização e informalidade... três faces da exploração capitalista que se intensificaram em meio a pandemia. "Precisamos fazer alguma coisa. A gente tem que aumentar essa rede, a gente tem que aumentar cada vez mais isso", relato de trabalhadora chama a construção da União de Trabalhadores Precários.

terça-feira 6 de outubro| Edição do dia

A pandemia do novo coronavírus escancarou a maneira como a qual trabalhadores essenciais, incluindo terceirizados, empregadas domésticas, diaristas, entregadores por aplicativo, garis, e todos os trabalhadores da saúde, entre outros, além de trabalharem muitas vezes desde o início da pandemia sem acesso à álcool gel, máscaras e EPI´s, os deixando muito mais exposto aos riscos de contágio, tem suas vidas colocadas abaixo dos lucros dos empresários no país, tendo de buscar no trabalho informal, cada vez mais precarizado, a alternativa desumana pra encontrar uma fonte de renda. Não à toa, uma das primeiras vítimas de Coronavírus no país, foi o de uma empregada doméstica, negra, de 63 anos, que viva no município de Miguel Pereira (RJ), que não foi dispensada do serviço que prestava aos patrões, em seu apartamento no Leblon, que haviam retornado de uma viagem à Itália recentemente, e já haviam testado positivos para a COVID-19.

O atual cenário de aumento de preços dos alimentos combinado à redução pela metade do auxílio emergencial de 600 para 300 reais, jogando ainda mais na miséria grande contingente da população mais pobre, esmagada pelo desemprego e pela fome, só aumenta as dificuldades e as mazelas de grande parcela da população. Entre os trabalhadores da linha de frente, uma das situações mais absurdas é a dos funcionários da saúde, composta em grande parte de mulheres negras, que só no Brasil vitimou mais enfermeiros e enfermeiras do que na Espanha e Itália juntos.

Tal situação, de ter de recorrer ao trabalho informal e precário, nos é mostrado pelo relato de Rosângela, moradora da cidade do Rio de Janeiro, que teve de recorrer a informalidade, como Acompanhante, pra garantir seu sustento:

"Estou trabalhando os finais de semana, como acompanhante, um trabalho que tanto me honra, aonde aplico minhas técnicas, eu aplico tudo o que eu aprendi no âmbito da saúde, da enfermagem, do acolhimento. Mas fico muito triste porque esse problema da precarização nos afeta muito. Meu horário no serviço é de sexta feira às 15:00 e só saio na segunda feira às 9:00! Com um pagamento de apenas 350 reais. Isso é dinheiro? Apesar de ter essa consciência de que o empreendedorismo está cada vez mais sendo fomentado porque é por aí que o país tá conseguindo uma economia, é duro trabalhar sua vida inteira, estudar, se formar, e ainda assim ficar pra trás por não saber inglês, porque não fez um doutorado ou um mestrado em determinado lugar, isso dói no fundo do coração. Eu tenho um filho que tem um bebê de dois anos, que mora na casa da sogra, sem casa própria porque está desempregado. Mesmo com três engenharias não consegue emprego. Dessa forma só resta entrar nessa ciranda do empreendedorismo. E dizem que você tem que inovar, como se fosse a solução, mas como inovar se você se doou anos e anos pro país, se debruçando em livros, se debruçando em um esforço miserável, fazendo jornada dupla porque a maioria das vezes, que é o nosso caso, trabalhamos de dia e estudamos a noite. E no fim das contas a gente tem que se virar nos trinta. Isso é muito difícil, isso bagunça a cabeça de qualquer um."

O relato de Rosângela nos trás a imagem da precarização que avança no país de Bolsonaro, Mourão, e de todo o regime do golpe, incluindo STF e Rodrigo Maia. No Brasil já era estimado que o trabalho precário atingisse entre 50% e 60% da população antes do início da pandemia, com jornadas extenuantes e remuneração de miséria como no relato.

Tal cenário, agravado pelos ataques que os capitalistas e o governo aplicou utilizando a pandemia da COVID-19, como a MP-936 que permitiu reduzir salários, cortar direitos e a demissão em massa de trabalhadores, afeta ainda mais prestadoras de serviço como Rosângela, mulher e negra, moradora da favela Rocinha, que são áreas da cidade que mais sofrem com falta de saneamento básico, sendo submetidas a condições precárias de vida, sem tratamento de esgoto e recorrente falta de água, medida de prevenção mínima para evitar a propagação do coronavírus, deixando bem claro o descaso dos governos que por sua vez garantem repressão policial, matando jovens como João Pedro de 14 anos, morto por um tiro de fuzil em Maio, enquanto brincava com dois primos dentro de casa no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, RJ, explicitando todo o racismo estrutural do estado e da polícia.

Inclusive, temos o relato da Aline, moradora do Complexo da Maré, trabalhadora via MEI, que teve sua renda comprometida assim que se decretou a quarentena no Rio de Janeiro, em Março, e só pôde voltar a trabalhar em Julho, nas vendas de cosméticos, mesmo em plena pandemia, escancarando o fato de que muitos trabalhadores, moradores das comunidades e zonas mais pobres da cidade não puderam sequer ter o direito de uma quarentena, e ainda assim convive com a incerteza de se poderá chegar ao fim de mês podendo ter o mínimo pra se manter:

"Eu sinto muito no meu bolso, tenho que poupar porque do contrário falta no fim do mês. Tive que voltar a porque não aguentava mais, estava sem dinheiro, sem nenhuma condição de me manter. Então, eu precisei voltar a trabalhar mesmo me arriscando. Usei máscara pra tentar me proteger, tentando manter o distanciamento, mas mesmo assim mantendo esse risco porque não tinha mais condições, cheguei no meu limite. As coisas também estão mais caras, então tá muito complicada a situação. Não tive direito ao auxílio e fiquei esses meses me segurando no que eu pude. E vivi só com o FGTS. A vida tá mais cara. Eu moro no Complexo da Maré e aqui tudo é mais difícil, poucas pessoas puderam fazer quarentena aqui. Muito comércio também fechou, e ainda estamos sofrendo com tudo isso".

A situação só escancara que os capitalistas e todos os políticos burgueses não querem e não vão resolver absolutamente nada, querem garantir somente o funcionamento de suas empresas e a continuidade dos seus negócios e lucros. Dessa forma, não é em alianças com os de cima que vamos conseguir criar uma alternativa de independência de classe para que sejam os capitalistas que paguem pela crise. Estes parasitas que se alimentam do trabalho precário, da falta de infraestrutura, da incerteza de renda e da fome destas mulheres como Aline, e também de Rosângela, que diante de todas essas condições coloca toda sua energia no chamado à construir e impulsionar a União de Trabalhadores Precários, sabendo que não há outra saída pra classe trabalhadora que não a batalha pela sua auto organização:

"Nem que eu morra por causa disso, nem que alguém me dê um tiro na minha cabeça, mas é o seguinte: eu quero é mais me agrupar com pessoas que queiram lutar contra esse cenário, porque isso não pode continuar desse jeito. A gente tá na luta faz mais de 200 anos contra a exploração, enquanto nos vendem uns pirulitos pra gente, cobertos de chocolate, dizendo que isso é a solução, que esse é o cara. E vamos lá cheios de esperança e nada acontece. Precisamos fazer alguma coisa. A gente tem que aumentar essa rede, a gente tem que aumentar cada vez mais isso. Desse jeito, vindo de baixo! Porque tá muito difícil, do jeito que está não dá!"

Pra saber como foi a última reunião da União dos Trabalhadores Precarizados, ouça então o último episódio do Podcast Peão 4.0 sobre o aumento da precarização e a terceirização da saúde durante a pandemia:

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E se quiser conhecer mais e participar, entre em contato conosco pelo Whatsapp: 11 951662225




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