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Tensão e um morto em carreata pró-Trump em Portland

Durante o sábado aconteceu uma carreata de apoio ao presidente Trump, onde ocorreram confrontos com os manifestantes do Black Lives Matter, poucos dias após o brutal ataque policial ao jovem afro-americano Jacob Blake, em meio à polêmica corrida eleitoral.

terça-feira 1º de setembro| Edição do dia

Desde o assassinato de George Floyd, ativistas ligados ao movimento Black Lives Matters têm se manifestado contra o racismo estrutural nos Estados Unidos, expressa na violência policial, que transborda de supremacistas brancos. Os protestos foram ressurgindo após os sete tiros que o jovem Jacob Blake recebeu em Wisconsin, enquanto em Portland, que tem mobilizações há três meses,os massivos protestos contra a violência policial e o racismo, com intensos confrontos noturnos entre manifestantes do Black Lives Matter e militantes antifascistas contra policiais, levaram a confrontos com grupos de extrema direita que saem às ruas para tentar controlar as manifestações incentivadas por Trump. Algo semelhante foi visto em Wisconsin com a organização de direita "Guarda Kenosha", que fez um chamado a "pegar em armas" contra os protestos anti-racistas, o que resultou com um supremacista branco de 17 anos assassinando dois jovens manifestantes. Os confrontos em Portland culminaram com um tiro no peito de um membro da direita pertencente ao grupo "Patriot Prayer" (Oração do Patriota).

No fim de semana, uma carreata de manifestantes pró-Trump aconteceu em Portland, levantando o slogan "Diga não ao marxismo nos Estados Unidos", e grupos de extrema direita como os "Proud Boys" e “Hell Shaking Street Preachers” e os organizadores “Patriot Prayers”.

As provocações aos manifestantes do Black Lives Matters resultaram em violência generalizada dirigida não só contra manifestantes anti-racistas e anti fascistas, mas também contra jornalistas. Os ultradireitistas estavam de caminhonetes 4x4 com bandeiras da norte-americanas e da Confederação do Sul (pertencentes ao lado dos escravistas durante a guerra civil) portando fuzis semi automáticos considerados “armas de guerra”, atirando com espingardas de paintball, e também arremessando objetos e borrifando spray de pimenta como pode ser visto em vários vídeos nas redes sociais. Outros pareciam estar portando armas de fogo, facas e até carregavam extravagantes escudos de madeira perfurados por pregos. Além disso, eles carregavam roupas e pôsteres da campanha "Trump 2020",

O discurso de Trump não faz nada mais do que encorajar a violência. Por sua vez, os governadores democratas, ao contrário das denúncias feitas por Trump de que eles estariam do lado dos manifestantes, têm reprimido os mesmos junto à polícia local, que até mesmo foi vista "trabalhando" ao lado de milícias armadas, autoras dos assassinatos em Wisconsin. Amy Herzfeld-Copple, vice-diretora da ONG Western States Center, com sede em Portland, ilustrou isso em um e-mail: “A polícia de Portland permitiu que grupos paramilitares e de extrema direita causassem estragos e empregassem violência contra a comunidade com aparente impunidade. "

Em um vídeo que viralizou próximo ao pico das tensões no sábado, um manifestante de direita quebra a mão de um jornalista com uma vara. O agressor foi identificado pelo site de pesquisa Bellingcat na terça-feira anterior como Travis Taylor, um "Proud Boy" de Portland que já havia sido visto em manifestações de rua violentas na cidade. Segundo o jornal britânico The Guardian , a "infame tarde de 2018" foi o dia de maior violência na cidade, e envolveu também os "Proud Boys", que vieram de todo o país para um encontro que culminou em outra briga de rua feroz.

Mais tarde, por volta das 20h30, hora local, um homem pertencente ao grupo supremacista “Patriot Payers” foi baleado no peito. Não está claro como o incidente aconteceu ou quem foi o responsável pelo evento. Mas isso ocorre em um contexto de crescente polarização social e aumento da violência de grupos armados de supremacia branca contra os antifas e os manifestantes afro-americanos.

Esses confrontos acontecem no final de um mês agitado por grandes manifestações convocadas pelo movimento Black Lives Matters em várias cidades do país devido aos tiros que policiais dispararam em Jacob Blake, deixando-o hospitalizado e paraplégico, o que despertou ampla solidariedade na comunidade esportiva norte-americana - entre eles a NBA, futebol e beisebol - e uma grande manifestação em Washington, 57 anos após a mobilização pelos direitos democráticos dos afro-americanos liderada por Martin Luther King.

Outro fator relevante, é que esses fatos ocorrem no contexto da disputa eleitoral pela Casa Branca, onde as pesquisas dão ao candidato democrata Joe Biden uma vantagem confortável até novembro. O presidente Trump tem usado repetidamente Portland como um exemplo da necessidade de ser mais duro com os protestos, e de como os democratas, que governam a cidade, não são capazes de manter a ordem, apesar do fato de que nos últimos meses foi demonstrado que os democratas estão prontos para reprimir manifestantes nos estados e cidades que governam. Na última quinta-feira, durante seu discurso de reeleição no encerramento da Convenção Nacional Republicana, Trump novamente acusou os governadores democratas de não serem capazes de controlar a situação ao exigir uma linha dura contra os manifestantes.

Pelo Twitter, sua rede social favorita, ele disse, referindo-se ao que aconteceu em Portland, "não é inesperado, depois de 95 dias, ver um prefeito incompetente admitir que não tem ideia do que está fazendo". “O povo de Portland não vai mais tolerar a falta de segurança. O prefeito é um TOLO. Levem a Guarda Nacional!” O presidente transformou a mensagem de "lei e ordem" em bandeira eleitoral, para unir sua base conservadora e chegar também aos eleitores moderados aos quais ele não chega através de um discurso anti-caos. Com esse discurso que eleva ainda mais os ânimos e incentiva as milícias supremacistas a atacar as manifestações anti-racistas, ele também busca tirar dos holofotes sua péssima gestão da pandemia de coronavírus, que ainda atinge o país. Os democratas, por sua vez, tentaram tomar para si, ainda que de maneira hipócrita, a causa racial, ao mesmo tempo que condenam os “incidentes violentos”, diferenciando-os dos manifestantes pacíficos a fim de justificar a repressão, e apelando à figura do mal menor para tentar canalizar o movimento para as urnas em novembro.

Tanto os resultados dramáticos em Portland quanto os de Wisconsin estão ancorados na violência que as relações sociais racializadas nos Estados Unidos mantêm e, como vimos, o bipartidarismo norte-americano funciona para manter esse status quo, onde a polarização expressa nas eleições não visa resolver este problema estrutural. Apesar do apelo dos democratas para votar em Biden ou na solução de Trump aumentando a mão pesada, os manifestantes contra o racismo permanecem nas ruas, com uma agenda própria e exigindo a abolição da polícia.




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