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USP | Teletrabalho na USP: um debate necessário com os trabalhadores

terça-feira 20 de julho | Edição do dia

O teletrabalho já era uma realidade em alguns locais de trabalho, mas com a pandemia e o isolamento social esse modelo de trabalho ganhou novo terreno e em alguns setores, os patrões e governos estão se aproveitando desse contexto para torná-lo permanente e operando uma mudança significativa na vida de muitos trabalhadores. Na USP, desde março de 2020 a maior parte dos trabalhadores da universidade estão realizando suas atividades através do teletrabalho e já há propostas no sentido de torná-lo permanente, apontamos algumas contradições desse modelo de trabalho para contribuir na reflexão dos trabalhadores frente a essa nova realidade. O Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) realizou no dia 30 de junho a atividade “O teletrabalho e seus impactos para a classe trabalhadora”(https://www.youtube.com/watch?v=SFOjHbTV560&t=2740s) com contribuições muito importantes para que os trabalhadores avaliem as contradições do teletrabalho e as propostas de que se torne um modelo permanente. O Movimento Nossa Classe esteve presente nesse debate e colocamos nesse artigo alguns dos elementos apontados por esses companheiros nessa discussão.

O teletrabalho e a flexibilização da jornada de trabalho

Com o isolamento social em decorrencia da pandemia o teletrabalho se impõe como uma necessidade para diversos setores da universidade, sobretudo tendo em vista que não há controle da pandemia e a imunização da maior parte da população ainda é uma realidade distante no país. Nesse contexto os próprios trabalhadores já debatem entre si o que seriam argumentos favoráveis e contrários à manutenção desse tipo de modelo de trabalho. Entre o governo e os patrões circulam propostas para a oficialização do teletrabalho como um modelo permanente em geral ressantando como a autonomia e a flexibilidade só trariam ganhos para os trabalhadores. Aqui é importante diferenciar o que seria o teletrabalho como uma medida excepcional diante da pandemia e as suas consequencias como um modelo permanente de trabalho que não seria realizado por fora dos critérios de produtividade que permeiam a sociedade capitalista. Por trás do discurso de uma maior “autonomia” e de que nesse modelo não se gastaria o tempo e dinheiro com o deslocamento dos trabalhadores de suas casas até o trabalho, escondem-se problemas importantes.
É necessário ver que o teletrabalho só é aplicável à alguns ramos de atividades que poderiam ser feitos de forma remota e há uma grande desigualdade na aplicação desse modelo de trabalho nacionalmente. Há ainda, dentro do próprio grupo de trabalhadores que poderiam desempenhar atividades remotas no país uma desigualdade entre os próprios trabalhadores no que diz respeito às condições para executar esse tipo de atividade. Em estudo feito pela FGV o pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho destaca que:
“Desses 25,5% incialmente com potencial para trabalho remoto, 7,8% não têm condições adequadas para trabalhar em casa, reduzindo para 17,8% o grupo que efetivamente poderia fazer home office. “O que levamos em conta, nesse caso, é a disponibilidade de energia contínua, internet em casa e computador”, descreve Barbosa.” (https://ibre.fgv.br/blog-da-conjuntura-economica/artigos/baixo-potencial-do-brasil-para-home-office-pode-ampliar).

Em uma sociedade cada vez mais informatizada os avanços tecnológicos poderiam e deveriam estar a serviço de facilitar o trabalho e desempenho de diversas atividades, mas infelizmente sob as relações de exploração do capitalismo os avanços da técnica frequentemente são utilizados contra os próprios trabalhadores. Um exemplo disso é como o modelo de teletrabalho na prática permite à reitoria flexibilizar a jornada de trabalho de modo que os trabalhadores passam a estar virtualmente disponiveis a qualquer momento para exercer atividades do trabalho. Isso se comprova nos inumeros pedidos recebidos pelos trabalhadores por whatsap, email, telefonemas a qualquer momento do dia e a expectativa de que essas atividades sejam realizadas rapidamente para atender as demandas de professores e estudantes. Assim, a jornada de trabalho que depois de décadas de luta da classe trabalhadora foi estabelecida em 8h diárias, termina sendo flexibilizada de modo que em vários casos se observa que os trabalhadores trabalham mais no teletrabalho do que em sua jornada regular.

O teletrabalho instituido não como exceção por conta da pandemia mas de forma permanente certamente vai ser estuturado em torno da produtividade e, com ela as avaliações utilizadas para aumentar a quantidade de trabalho dos trabalhadores. Se a reitoria já utiliza o ponto eletrônico como forma de controle dos trabalhadores seria um engano achar que com o teletrabalho a reitoria não vai aumentar as normas de controle e inclusive implementar avaliações que podem resultar em demissões ou punições dos trabalhadores que não se enquadrem nas normas de produtividade. Por outro lado, no momento em que as atividades voltarem a pleno vapor se torna ainda mais dificil para o trabalhador controlar as horas extras e todo o trabalho produzido inclusive fora do horario normal de expediente. Isso se torna ainda mais grave se pensarmos que essa realidade se generaliza depois da aprovação da reforma trabalhista (um dos resultados do golpe institucional de 2016) que já flexibiliza diversos direitos dos trabalhadores. Esse modelo de trabalho avança também em meio à tramitação da Reforma Administrativa de Bolsonaro (PEC32) que impõe ataques duríssimos ao conjunto dos trabalhadores, sobretudo aqueles dos serviços públicos abrindo margem para futuras demissões e privatizações dos trabalhadores.

A reitoria transfere para os próprios trabalhadores os custos com ambiente e equipamentos de trabalho

Esse aspecto do teletrabalho é sentido no cotidiano dos trabalhadores a cada dia já que a reitoria não reembolsa os valores com os custos de equipamentos, mobiliário, internet, energia elétrica e limpeza que são arcados pelos próprios trabalhadores. Com o aumento do custo de vida, os trabalhadores estão sentindo cada vez mais com o aumento dos valores das tarifas de energia elétrica, valor dos aluguéis e com a inflação de modo geral, o que se agrava ao assumir silenciosamente todos os custos do seu próprio trabalho. Individualmente já é possível perceber o aumento dos valores das contas, mas essa questão ganha ainda mais evidência se imaginamos que estamos tratando de cerca de 14 mil trabalhadores da universidade arcando com os custos do seu próprio trabalho. Se agrega a isso que os trabalhadores tenham acumulado nos ultimos anos cerca de 38% de perdas salariais isso que há distintas realidades de vida entre os trabalhadores da universidade, o que impõe que o peso do teletrabalho seja sentido diferentemente também pelos trabalhadores. A perpetuação do teletrabalho, no entanto, permitiria à reitoria mais do que transferir os custos para os próprios trabalhadores já que setores inteiros poderiam ser reestruturados ou diretamente terceirizados na universidade. Enquanto isso a reitoria se orgulha de ter aumentado seu caixa, às custas não apenas desse tipo de transferência de gastos mas deixando de contratar trabalhadores ao longo de anos, cortando bolsas de estudantes, arrochando o salário dos trabalhadores e precarizando as condições de trabalho na universidade.

A reitoria impõe uma maior fragmentação de nossa categoria e de nossa classe

Durante a pandemia o isolamento social impôs uma série de difculdades para a organização dos trabalhadores, uma das principais é a fragmentação dos trabalhadores. Ao permanecer no isolamento social é um grande desafio manter a organização dos trabalhadores através dos meios digitais e o próprio impacto da paralisação das atividades feitas remotamente é bastante reduzido. Justamente por isso, a reitoria da USP vem se aproveitando do periodo de pandemia para avançar em ataques profundos aos trabalhadores como o arrocho salarial, o congelamento da contagem de tempo para aposentadoria, quinquenios e sexta parte, demissões das trabalhadoras terceirizadas e a implementação do Estatuto de Conformidade de Condutas através do qual a reitoria prevê legalizar uma série de medidas autoritárias para atacar a organização dos trabalhadores, estudantes e professores e impor um grau de disciplina muito maior aos trabalhadores. Em uma eventual formalização do teletrabalho esse aspecto se torna também uma dificuldade permanente para unir e organizar a nossa classe, de modo que até mesmo para enfrentar os casos de assédio moral e outros problemas decorrentes do teletrabalho por exemplo, os trabalhadores terminam se vendo obrigados a enfrentar individualmente cada uma dessas situações.

O teletrabalho e o adoecimento mental

Na USP, antes mesmo da pandemia muitos trabalhadores já sofriam com adoecimento físico e psicológico em decorrencia da sobrecarga de trabalho, da precarização das condições de trabalho e do assédio moral das chefias. Com a pandemia, e uma realidade em que mais de 525 mil pessoas morreram, em sua maioria trabalhadoras e trabalhadores, observamos uma instensificação das doenças relacionadas ao trabalho. No teletrabalho, muitos trabalhadores sofrem não apenas com as LER/DORTs mas, com a individualização e solidão nessas novas condições de trabalho e a perda dos poucos espaços de socialização entre os trabalhadores observamos uma alta significativa do adoecimento mental com casos relatados de angústia, depressão, ansiedade, síndrome do pânico e outras formas de adoecimento. Essa realidade se aprofunda em meio à pandemia já que se somam as preocupações com a contaminação e a perda de amigos e familiares, a situação drástica da saúde pública com a lotação dos hospitais, falta de testes e vacinas e incertezas em relação ao futuro que contribuem para o adoecimento dos trabalhadores. Vale lembrar que os efeitos da pandemia e do desmonte da universidade estão sendo sentidos também pelos estudantes, sobretudo os estudantes mais pobres como vimos no caso trágico do suicídio de três estudantes em meio à pandemia.

No caso das mulheres o teletrabalho se combina à dupla jornada de trabalho

Em uma sociedade marcada pela profunda opressão patriarcal que seu aprofunda em meio ao bolsonarismo, se atribui às mulheres a responsabilidade pelos trabalhos domésticos, o cuidado dos filhos e todo o trabalho necessário para a reprodução da força de trabalho recai sobre as costas das mulheres trabalhadoras. Com a dupla jornada as mulheres trabalhadoras já fazem um trabalho essencial para o funcionamento da sociedade que não é pago por ninguém de modo que além da jornada regular de trabalho fazem também todas essas tarefas em suas casas. Essa realidade tende a piorar com o teletrabalho, já que ao contrário da “autonomia” e “flexibilidade” defendidos pelos patrões como algo que traria benefícios para os trabalhadores o que vemos na realidade das mulheres trabalhadoras é aumentar ainda mais a sua sobrecarga de trabalho. Dessa forma, ao flexibilizar a jornada de trabalho e esta se sobrepor às inumeras tarefas domésticas, cuidado dos filhos e outras atividades o resultado é um maior indice de adoecimento mental entre as mulheres.

O teletrabalho e o avanço no Ensino à Distância

Avançar na implementação do EaD (Ensino à Distância) já era um objetivo declarado por parte do governo do estado de SP, da reitoria e dos diretores de unidade antes mesmo da pandemia. Ao longo de vários anos os estudantes, professores e trabalhadores da universidade conseguiram com as suas lutas defender a educação pública desses projetos que significariam um avanço na precarização do ensino, da pesquisa e extensão universitárias. Com a formalização do teletrabalho não apenas as chamadas “atividades meio”, mas diretamente as “atividades fim” como as aulas, as pesquisas podem ser feitas à distância. Já no ano passado a reitoria da USP tentou transformar em permantente o modelo híbrido de ensino em todos os cursos de graduação. O ensino híbrido é mais uma das formas de sucateamento da universidade pública já que com isso a reitoria busca reduzir gastos com professores ao mesmo tempo em que rebaixa a qualidade do ensino por outro e impõe a exclusão dos alunos que não possuem acesso a internet e boas condições de estudo online. Por tudo isso, é muito importante debatermos nas reuniões de unidade e outros espaços de organização dos trabalhadores os aspectos contraditórios do teletrabalho e quais são os interesses dos patrões ao nos apresentar propostas de oficialização dessa modalidade.




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