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Tarefas domésticas e de cuidado: sobre a exploração e opressão das mulheres em meio à crise da saúde

Natalia López

Tarefas domésticas e de cuidado: sobre a exploração e opressão das mulheres em meio à crise da saúde

Natalia López

Em um contexto de crise da saúde, econômica e social, essa problemática assume outras dimensões como horas intermináveis e jornadas exaustivas, recaem sobre os ombros das mulheres.

Estamos no meio de uma pandemia que faz colapsar os sistemas de saúde, uma crise econômica de níveis históricos e uma psicose social que viaja pelo mundo devido à disseminação da covid-19. Isso levou os estados nacionais a tomarem a respeito: na Argentina foi declarado fechamento de fronteiras, suspensão de classes, quarentena obrigatória, reforçada por uma grande implantação do aparato repressivo e uma deriva punitivista. Embora não seja oficial, a quarentena provavelmente se estenderá por muitos dias mais.

Essa situação obrigou muitas mulheres que podem ficar em casa (a maioria delas trabalhando em casa) a realizar quase todas as tarefas de cuidado. Ao chegar em casa após longos turnos, precisam continuar com as tarefas domésticas, os cuidados com a família, o entretenimento e os trabalhos escolares. E as mulheres são grande parte da economia informal, muitas mães que sustentam a família têm mais medo de morrer de fome do que por um vírus.

A pandemia produzida pelo covid19 não apenas deixa mortos, mas também evidencia, por um lado, a crise de um sistema de saúde devastado pelo lucro e as ganâncias legitimadas pelas políticas estatais. E, por outro lado, a grande quantidade de trabalho informal, precário, não registrados, por conta própria, etc., os mais vulneráveis e prejudicados.

O que são as tarefas do cuidado? Nós, mulheres, sabemos disso muito bem, embora às vezes não conscientemente, uma vez que se expressa como um mandato social, onde assumimos essas tarefas como "responsáveis diretas e naturais". As tarefas de cuidado são todos os processos realizados fundamentalmente pelas mulheres que garantem o desenvolvimento e a sustentabilidade da vida, podendo estas ser pagas ou não. Portanto, refere-se não apenas às tarefas que realizamos em nossas casas e que é um trabalho que passa por invisível, mas também (devido à divisão social do trabalho) a ramos altamente feminizados da economia, ou seja, trabalhos realizados quase exclusivamente por mulheres, por exemplo: trabalho de empregadas domésticas, jardins de infância, creches, serviços de saúde, enfermeiras e cuidadoras de idosos.

Atualmente, e devido aos grandes processos de proletarização nas últimas 5 décadas, nós mulheres (inclusive crianças) saímos para trabalhar fora de nossas casas. Fazemos parte dessa cadeia produtiva que move o mundo, geramos bens, mercadorias ou serviços. Nesta situação, sofremos com a disparidade salarial entre os sexos, ou seja, ganhamos menos do que um homem cumprindo a mesma função e também somos a maioria da população precarizada no mundo.

A essa exploração econômica acrescenta-se a dupla (ou tripla) jornada de trabalho, a sustentabilidade da vida, que não deve apenas ser entendida ou reduzida a tarefas domésticas, como cozinhar, manter a casa limpa, lavar, passar roupa, fazer compras e um estendido etc., se não uma rede complexa e abrangente de tarefas do cuidado, atravessada por aspectos materiais, psicológicos e emocionais, que por sua vez geram e garantem a reprodução da força de trabalho produtiva e sustentam esse sistema econômico.

Uma nota do New York Times sobre estudos que revelaram números de quanto o sistema capitalista economiza no que é chamado trabalho reprodutivo ou tarefas de cuidado, indica uma figura verdadeiramente chocante, o valor desse trabalho oculto é de 10,9 trilhões de dólares, de acordo com uma análise da Oxfam. Esse número é superior à receita combinada das 50 maiores empresas que fizeram parte da lista Fortune Global 500, que inclui Walmart, Apple e Amazon.

Também foi comparada a distribuição do trabalho não remunerado entre os gêneros; na Argentina, a distribuição do trabalho doméstico e as horas investidas nas tarefas de cuidado são bastante assimétricas, 76% das mulheres e 24% dos homens.

Os homens não realizam esse dupla jornada de trabalho e estão quase isentos desses ofícios, sejam eles remunerados ou não, portanto acaba sendo um mandato que as mulheres devem assumir como algo natural, velado por toda uma ideologia que nos fala de instinto maternal, amor romântico , dedicação e sacrifício, sendo "boas mulheres, mães e esposas", embora socialmente essas tarefas sejam vistas como inferiores ao trabalho dos homens e ao trabalho fora de casa.

Um estudo recente do Indec mostrou que 8 em cada 10 mulheres fazem tarefas domésticas em casa, duas vezes mais do que os homens. Soma-se a isso um fator importante, apontado por Lucía Ortega em “Crise, lacunas e precariedade: a situação das mulheres trabalhadoras na Argentina”, que é a dificuldade em medir estatisticamente o ajuste nas tarefas domésticas: em um contexto de aumento dos preços e a deterioração da renda tendem a intensificar os trabalhos domésticos, devido à necessidade de substituir os produtos comprados no mercado por outros feitos internamente para reduzir despesas. Entre eles, a preparação de alimentos, o atendimento a idosos e crianças, a contratação de pessoal de limpeza. A isto se acrescenta a diminuição dos serviços prestados pelo Estado (educação, saúde).

O trabalho reprodutivo ou de cuidados tem sido historicamente desgarregado nas costas das mulheres, mas também nas classes sociais mais vulneráveis, como a classe trabalhadora, imigrantes e negros.

Uma mulher que tem dois filhos e recebe uma AUH (uma espécie de proteção social), mas ao mesmo tempo trabalha como empregada doméstica e babá, deixa seus filhos com a avó ou uma tia, exemplos como esse são um diálogo comum entre as mulheres e é uma grande cadeia de opressões e violência diária.

O que fazem as mulheres que devem trabalhar fora de casa e cuidar das crianças que são deixadas a elas? Como fica o corpo ao voltar para casas e "cumprir" tudo o que resta a ser feito? Como se faz para garantir essas tarefas, expostas em meio a uma pandemia que já arrasta milhares de corpos, com poucos recursos e salários de fome? Aquelas que podem ficar e trabalhar em suas casas, mas ao mesmo tempo cuidando de seus filhos?

Essa situação que estamos atravessando amplia as cargas horárias e as tarefas do cuidado, sendo este trabalho remunerado ou não. Temos jornadas exaustivas de trabalho que afetam nós mulheres diretamente, nosso corpo e nosso psicológico.

A “crise dos cuidados” se aprofunda com os ajustes, com a recessão que se aproxima e com a crise da saúde. E se manifesta centralmente em uma superexploração que atinge duplamente as mulheres.

Em alguns casos, não é uma jornada dupla, mas tripla, com dois turnos ou horas extras. E ao chegar às nossas casas, exaustas, com dores e preocupações, onde vemos limitadas todas as nossas capacidades e potencial de intervenção em ordem pública, de recreação ou desenvolvimento cultural e de artes e ciências.

Esses são os embates que temos contra o sistema e, em contextos como o nosso, devemos dobrar nossos esforços, não para suportar essas jornadas exaustivas, trabalho doméstico ou maternidade sozinhas. Antes, para seguir nos rebelando contra ele, porque o sistema nos quer em nossas casas, sozinhas, exaustas e frustradas.

Frente a isso, buscamos nos organizar ainda mais. Hoje, frente a uma situação de emergência, contribuímos desde nossos lugares e espaços com a força das e dos trabalhadores. Mas não nos damos por satisfeitos, e sabemos que com a força de milhões de oprimidas e exploradas, podemos mudar tudo desde a raiz.

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