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Grotesco | “Stálin matou foi pouco”, canta juventude do PCB mostrando sua tradição degenerada

Cai a máscara do ecletismo teórico com que o PCB sempre tentou esconder sua tradição degenerada advinda do stalinismo, que traiu revoluções pelo mundo e restaurou o capitalismo na URSS.

Elisa CamposCoordenadora do CAFCA-UFMG

quarta-feira 18 de agosto | Edição do dia

A música única de uma banda chamada “Transmissão Beta” que, apesar de se declararem não filiados a nenhum partido, é composta por pelo menos uma militante da UJC, juventude do PCB, foi tocada e cantada no fim do ato do dia último dia 11, Dia dos Estudantes, em Porto Alegre. Os militantes da UJC não se contentaram em pular em roda ao som da música com refrão “Stálin matou foi pouco”. Compartilharam o vídeo elogiosamente nas redes sociais, e algumas publicações começam a ser excluídas após críticas. Mas excluir publicações da internet não apaga o papel do stalinismo na restauração capitalista da URSS afundada em burocratismo e sangue militante dos que defendiam as conquistas e o desenvolvimento da revolução vitoriosa de 1917, nem na história das revoluções traídas pelo mundo com a deturpação do marxismo expressa na máxima “socialismo em um só país”.

“Não quero soar meio patética, mas tô apaixonada pelo líder da União Soviética”, canta a vocalista, soando exatamente patética. Mais do que patético, o conteúdo da música que tenta se mostrar radical em apoio ao terrorismo de estado que levou Stálin a matar aproximadamente 700.000 pessoas entre 1937 e 1941, incluindo praticamente todo o quadro de revolucionários do Partido Bolchevique que construíram a Revolução de 1917, é criminoso. Pois este expurgo não teve nada a ver com o desenvolvimento radical da revolução, no sentido do enfrentamento à burguesia e ao imperialismo, pelo contrário. Teve a ver, sim, com a defesa dos privilégios de uma burocracia que cada vez mais se incomodava com o avanço inevitável que as conquistas mais profundas dos trabalhadores e das massas camponesas russas teriam sobre seus próprios interesses de casta. Teve a ver, também, com a reação sangrenta levada à frente pela traição nacionalista do stalinismo à revolução mundial defendida por Trotsky e os principais líderes da Revolução de Outubro, acusados em julgamentos falseados nos quais eram forçados, sob tortura psicológica intensa, ameaça à vida de seus familiares, entre outros absurdos, a fazer declarações públicas sobre supostas “atividades contrarrevolucionárias”.

Estas e outras atividades contrarrevolucionárias típicas do stalinismo foram responsáveis pelo descrédito das ideias socialistas no mundo. Diferentes países viram revoluções sufocadas a troco da promessa stalinista de estabilidade mundial para o imperialismo. O pragmatismo de Stálin e o desprezo por qualquer princípio marxista se revelou com tudo no Pacto de Não Agressão (1939) com Hitler, que invadiu a URSS depois de romper o mesmo pacto. Mas depois dessa invasão, a aliança de Stálin com o outro bando imperialista, encabeçado pelos Estados Unidos, que chegou ao cúmulo com os Pactos de Yalta e Potsdam em 1945, não foi menos nefasta: esmagou a revolução na Grécia, na Itália e na França (como já havia feito antes na Espanha), e traiu os processos de libertação nacional em dezenas de outros países. Apesar do esforço de Stálin em impedir que os ares da revolução vitoriosa dos trabalhadores não soprassem para além das fronteiras soviéticas, alguns líderes stalinistas foram obrigados pelas massas a ultrapassar os limites dessas lógica estalinista e tomar o poder naquele momento convulsivo, como o marechal Tito na Iugoslávia ou o Mao Tsé-tung na China, mas desenvolvendo ainda nesses países os fundamentos degenerados do stalinismo.

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Foto do Pacto Molotov–Ribbentrop, ou Pacto de Não Agressão

Foto da Conferência de Teerã de 1943. Da esquerda para a direita, Stalin, Roosevelt e Churchill

Que os militantes de juventude do PCB se empolguem com uma verborragia aparentemente radical pode se explicar pelo fato de que ela ajuda a esconder não só o legado contrarrevolucionário que este partido tem por tradição, mas também o reformismo e a política de conciliação de classes que concretamente leva à frente. No Brasil de Bolsonaro e Mourão, da fome, do desemprego e das centenas de milhares de mortos pela pandemia, o PCB espelha uma ampla gama de correntes da esquerda mundial que faz propaganda comunista abstratamente, mas não se diferencia na prática da conciliação de classes do reformismo que favorece sempre os poderosos, os empresários, os latifundiários, enfim, os patronos do capitalismo nacional. São vermelhos e (até!) “marxistas” nas palavras, mas se unem aos verdes-amarelos para pedir gentilmente a renúncia de Bolsonaro, e juntos assinam pedidos de impeachment que são quase um “pelo amor de Deus” ao presidente da Câmara dos Deputados - atualmente Arthur Lira, um dos caciques do Centrão - a realizar o processo institucional próprio da democracia burguesa que dá, concretamente, o lugar do sujo Bolsonaro ao mal lavadíssimo Mourão. Essa é a mesma política de partidos como o PT, o PCdoB e o PSOL, que visivelmente estão em campanha eleitoral para 2022, enquanto desgastam através da confiança nas degeneradas instituições burguesas e das direções burocráticas nas entidades estudantis e sindicatos uma disposição de luta de vanguarda contra o governo Bolsonaro que, se aliada às mobilizações embrionárias dos trabalhadores e seus interesses de classe, poderia ser fortalecida e ampliada. Partidos esses em relação aos quais o PCB tenta se apresentar à esquerda.

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A defesa do comunismo por parte da juventude e dos trabalhadores frente à tragédia diária do capitalismo é inconciliável com a tradição stalinista, responsável historicamente por ditaduras burocráticas parasitárias nos Estados operários e sua estratégia de colaboração de classes, expressos em partidos como o PCB, quando o comunismo é justamente a luta pela conquista de uma sociedade sem Estado e sem classes sociais, livre de toda exploração e opressão. Stálin matou foi muito, mas seus crimes que levaram ao mando pelo assassinato de Trotsky não conseguiram sufocar a necessidade vital de oferecer uma resposta revolucionária para os nossos tempos, resposta essa que sobreviveu na única corrente socialista revolucionária que se mantém frente à contrarrevolução combinada do stalinismo, do fascismo, e dos imperialistas: o trotskismo.

Uma alternativa ao stalinismo: a luta dos trotskistas na URSS




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