Internacional

PALESTINA LIVRE!

Stalin e sua burocracia apoiaram a criação de Israel junto do imperialismo

A burocracia stalinista, traidora do poder soviético do proletariado russo e mundial, votou favoravelmente à Resolução 181 da ONU que permitiu a criação do Estado ilegítimo de Israel. Stalin, o grande organizador de derrotas, além de tudo, atuou em comum com o imperialismo e o sionismo racista.

Caio Rosa

Estudante de Relações Internacionais na UnB

sexta-feira 21 de maio| Edição do dia

Foto: Stálin aperta a mão de Truman, presidente dos EUA, junto de Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido. Simboliza a assinatura do Tratado de Potsdam, em 1945, a coexistência pacífica e o colaboracionismo contrarrevolucionário da burocracia stalinista com o imperialismo.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em maio de 1947 a ONU, a pedido do Reino Unido, criou o UNSCOP (Comitê Especial das Nações Unidas sobre a Palestina) para elaborar um plano de divisão do Mandato Britânico da Palestina. O plano consistia na divisão da porção ocidental do território palestino em dois - um judeu e outro árabe. 53% do território seriam atribuídos aos 700 mil judeus e 47% aos 1 milhão e 400 mil árabes. Daí surge a Resolução 181, que estabelecia a chamada “Solução dos dois Estados”.

O estabelecimento do Estado de Israel tinha como objetivo criar um entrave imperialista estrategicamente pensado para aumentar a influência dos EUA, com aval da Inglaterra, no Oriente Médio. Como bem dizia Lênin, a guerra é parteira de revoluções, portanto foi fundamental para o imperialismo inglês fazer um cerco em sua antiga colônia, junto da agora maior potência capitalista do mundo, os EUA, e o sionismo racista e burguês de Ben Gurion - tudo para evitar uma revolução na região.

Mas eis que a burocracia stalinista, dirigente da URSS e traidora do proletariado revolucionário, apressada para se aliar com a burguesia racista, vota favoravelmente nesta resolução junto dos EUA, Inglaterra, França etc. Uma colaboração descarada na criação de um Estado que promoveria um verdadeiro apartheid racista, com direito a um massacre desumano de décadas.

O stalinismo foi a reação às bases da revolução russa, a degeneração burocrática do Estado operário fundado na democracia soviética, a ditadura do proletariado. É algo concreto, absolutamente material. Isso se sintetiza na traição da Revolução Chinesa de 1925-27, quando o PCCh se aliou com a burguesia do Kuomitang, com Chiang Kai-Shek promovendo um massacre contra a vanguarda operária em Xangai; deu passagem para Hitler e os nazistas na Alemanha, quando a IC já stalinizada defendia uma política ultra-esquerdista de não unificar as fileiras do maior proletariado do mundo na luta antifascista e lutar por uma frente única operária com o SPD; na Revolução Espanhola, com a criação da Frente Popular junto da burguesia “democrática”, abandonou a luta contra a propriedade privada burguesa, dando passagem a Franco; entre muitos outros.

Aliás, é importante dizer que a Segunda Guerra Mundial, cujo desfecho possibilitou a criação Israel - ela não teria ocorrido se não fosse a traição sistemática do stalinismo aos processos revolucionários em todo mundo, abrindo espaço para a carnificina do capitalismo decadente. Além disso, os Processos de Moscou, uma das maiores fraudes da história do Direito, exilou e exterminou em quase sua totalidade a vanguarda bolchevique que fez a revolução em Outubro - inclusive ilustres generais e estrategistas do Exército Vermelho.

A atuação do stalinismo na Segunda Guerra Mundial, divergiu em 180 graus daquela que os bolcheviques defendiam diante da Primeira Guerra Mundial. Lênin enfaticamente se opôs à guerra de rapina rompendo com a II Internacional social-patriótica e, junto de Trótski, fundou a III Internacional. A revolução russa foi fundada na oposição intransigente da guerra imperialista, no boicote à mesma, organizando greves de soldados com a força dos sovietes - a fim de transformar a guerra capitalista em guerra civil revolucionária. Ao contrário, o que fez Stálin foi fazer um "acordo de paz" com Hitler e esperar passivamente o ataque inimigo. Os soldados soviéticos resistiram bravamente e venceram a guerra contra os nazista, mas não há nenhum pingo de mérito da burocracia stalinista nessa vitória. Aliás, a URSS foi o país com mais mortos em toda a guerra - dentre 20 a 27 milhões de mortos civis e militares. A única saída para a guerra imperialista era a revolução socialista e era tarefa dos revolucionários preparar a vanguarda para a luta de classes que se desdobraria da guerra.

Foi isso o que defendeu o trotskismo, a IV Internacional. CLR James, escreveu “Porque os negros devem se opor à guerra” (texto contido no livro A Revolução e o Negro), convocando todas as negras e negros oprimidos dos Estados Unidos e do mundo a se juntarem a seus irmãos trabalhadores internacionalmente e não confiar nas burguesias nacionais. O jornal do SWP, “Socialist Appeal”, propagandeava para os operários estadunidenses que estes deveriam se aliar aos trabalhadores das Colônias e lutar pelo fim da intervenção imperialista. No “Manifesto da Quarta Internacional sobre a guerra imperialista e a revolução proletária mundial”, se defende a oposição à guerra imperialista; para que os trabalhadores exijam o serviço militar e o organizem em cada sindicato e fábrica no sentido da auto-organização proletária, uma política militar operária a fim de preparar a vanguarda para o combate revolucionário; pela defesa da imprensa operária e dos sindicatos; a mobilização das mulheres e jovens contra a guerra; na França, os trotskistas organizaram a confraternizações entre soldados do exército alemão e francês.

Leia mais: A Quarta Internacional frente à Segunda Guerra Mundial

Nada mais diferente do stalinismo. Não é de se surpreender, no entanto. Afinal, a criação da ONU está situada na partilha do mundo entre o imperialismo vencedor da Segunda Guerra e a URSS - uma trégua declarada, a coroação do socialismo em um só país, a traição do marxismo revolucionário. O Pacto de Yalta e Potsdam selou a coexistência pacífica entre a burocracia stalinista e o capital imperialista, assegurando que a camarilha estava disposta a boicotar toda e qualquer revolução socialista no mundo. O apoio na criação de Israel foi fundamental para boicotar qualquer revolução socialista triunfante no Oriente Médio, mesmo com o PC da Síria e do Iraque se colocando contrários. A Revolução Iraquiana de 1958, que depôs o rei Faiçal II, um capacho do imperialismo, poderia ter impedido a Guerra dos Seis Dias, de 1967, estabelecendo uma aliança internacional operária contra o Estado de Israel - mas, novamente, as diretrizes de Moscou eram, em sua inigualável postura menchevique: “socialismo em um só país”. Resultado: Israel avança sob o território palestino e o Iraque tem uma revolução desvirtuada para uma república militar capitalista. Se uma revolução socialista vitoriosa triunfa no Oriente Médio, a história da região teria mudado por inteiro e talvez hoje não víssemos esse massacre que acontece ao povo palestino.

Confira aqui episódio do Podcast do Ideias de Esquerda sobre o tema: A questão Palestina e Israel

Recomendo a leitura do livro recentemente traduzido pelas Edições Iskra, Stálin, O Grande Organizador de Derrotas, bem como do curso no Campus Virtual do Esquerda Diário sobre a obra: trata-se da crítica ao Projeto de Programa da Internacional Comunista quando de seu VI Congresso. Nesta série de documentos, demonstra-se como o stalinismo é algo concreto, um expoente das derrotas do proletariado na Europa, o isolamento da URSS e do cerco imperialista.

Qual a saída?

É impossível construir uma corrente socialista e em favor da causa palestina se não se tira o balanço até o final das experiências históricas e se extraem suas lições estratégicas para hoje.

Nesse sentido, para combatermos Netanyahu e seus apoiadores como Bolsonaro, é inconcebível defender junto da ONU, como fez a camarilha stalinista, a “solução dos dois Estados”. Esta não passa de uma utopia liberal que mantém o enclave imperialista intacto. Afinal, na prática não existem “dois Estado soberanos” - e nunca existiu e não pode existir, como tanto quer a ONU. A partir do momento em que Israel foi artificialmente instaurado, a soberania Palestina acabou. E disso veio o Nakba, a Guerra dos Seis Anos, a invasão de mais de 70% do território palestino depois de 1947 e o massacre que vemos escalar nas últimas semanas.

Portanto, é vergonhoso que Fátima Bezerra, governadora do PT no Rio Grande do Norte, tenha recebido o Embaixador de Israel no Brasil e dito “vocês têm dado lições ao mundo”. Não se aprende nada com um Estado racista e genocida, a não ser que é preciso destruí-lo com a força da classe operária! Mas não é de se surpreender, visto que Lula, o primeiro presidente brasileiro a visitar Israel (com orgulho), defendeu arduamente ser “amigo de Israel”.

Também é inconcebível apoiar o presidente racista e sionista dos EUA, Joe Biden. No entanto, correntes como o MES de Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna chamaram voto nos imperialistas do Partido Democrata, os mesmos que mandam bilhões de dólares para continuar o massacre. Chega a ser trágico que o MES na Universidade de Brasília, junto do PT, PCdoB e Levante Popular - a majoritária da UNE - com quem compõe a atual gestão do DCE da universidade junto com o PCB e o PSOL, explicitamente apoiaram a candidatura de Márcia Abrahão. Ela é a atual Reitora da universidade e que, recentemente, recebeu um embaixador israelense e tratou de “cooperação com empresas privadas” do país.

Da mesma forma, não é possível aos socialistas apoiar politicamente o Hamas - que governa a Faixa de Gaza - ou o Al Fatah - que governa a Cisjordânia. O Al Fatah já capitulou frente ao imperialismo. Em documentos publicados pela Palestina, revelou-se que o serviço de inteligência britânico MI6 ajudou, em 2004, na elaboração de um plano de segurança para a Autoridade Palestina liderada pelo Fatah. Já a estratégia do Hamas, embora com mais capilaridade na população palestina, é apoiado por distintos governos reacionários da região, além de impor um caráter religioso à resistência - ambos são um empecilho para que se dê uma legítima luta pela libertação nacional do povo palestino. Ambas tendências políticas são partidárias do “nacionalismo islâmico”, que na verdade não passa da defesa de um Estado capitalista palestino.

Trata-se de uma ilusão reformista, mas que não surpreendentemente, os stalinistas defendem acriticamente. Imbuídos do velho preconceito de que a classe operária não é sujeito de nada, apenas uma massa de manobra, a estratégia do PCB e UP é uma diluição no apoio ao Hamas e ao Fatah.

O primeiro, versa palavras vazias sobre “poder popular”. Pois vejam algumas linhas da crítica de Marx à Lassalle e aos anarquistas: ”Os anarquistas nos quebram a cabeça com o ‘Estado popular’ (...) o "Estado popular" é um contra-senso e uma concepção estranha ao socialismo, tão condenável como o ‘Estado popular livre’’ - transcreve Lênin em O Estado e a Revolução. “Poder popular” é uma consigna indeterminada, adaptado ao reformismo populista, sem determinação de classe, que tenta encobrir o etapismo stalinista mas, no fundo, é avessa ao Estado operário socialista, no próprio sentido marxista de que o Estado operário tende a definhar. Que é poder popular? Fazer coligações eleitorais com o PSB, REDE e PDT - partidos burgueses e golpistas - ou propagandear coligações do Hamas com o Fatah em seu site? Se for esse o caso, Lassalle agradece. Parece que o PCB não aprendeu nada com o marxismo.

Por outro lado, a UP diz que é preciso uma Palestina operária e socialista, mas em seu jornal dão a entender que os marxistas deveriam apoiar organizações como a FLDP (veja aqui e aqui) que estão dentro da OLP - uma frente que conta com os colaboracionistas de classe do Fatah que até já deram às mãos inúmeras vezes ao imperialismo. Não posso deixar de citar a coragem oportunista e totalmente falsa de um suposto "papel de Stálin na Segunda Guerra": "Mas muitos ricos tiveram sucesso migrando para os Estados Unidos. Após a guerra, eles se posicionaram a serviço do imperialismo norte-americano e de Israel, a cabeçadeponte deste no Oriente Médio. Eles falam em profusão do holocausto dos judeus, mas em uma ótica pró-israelense; ao mesmo tempo, eles dão livre curso a seus sentimentos anticomunistas e insultam assim a memória dos judeus comunistas que realmente enfrentaram os nazistas." Claro, nada dirão sobre as negociatas da burocracia stalinista com a Alemanha Nazista e seu apoio à criação do Estado de Israel - isso eles interessadamente omitem.

Essa miscelânea eclética expressa as contradições do stalinismo, com sua fraseologia “combativa”, um internacionalismo de fachada, que vai se dissolvendo do “poder popular” até a mesa do “superimpeachment” com Joice Hasselmann e Kim Kataguiri - a independência de classe do proletariado não importa, do jeito que Stálin gostava. Não adianta dizer que se defende o socialismo e em seu programa não se explicar como chegar lá. Seja pela omissão, seja pela fraseologia eclética, o stalinismo segue sendo muito útil à burguesia.


O primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin, o presidente dos EUA Bill Clinton e o presidente da OLP Yasser Arafat durante os Acordos de Paz de Oslo em 13 de setembro de 1993

Diante disso, é fundamental a defesa intransigente do direito à autodeterminação dos povos, de uma Palestina livre e soberana, a partir da confiança apenas na aliança da classe operária árabe e judaica para lutar pelo fim do Estado ilegítimo e genocida de Israel. O que devem defender os socialistas é um único Estado operário, uma Palestina socialista.

Trotski ao desenvolver a teoria da revolução permanente sintetiza que, na época imperialista de decadência do capitalismo, a única classe capaz de levar até o final as tarefas democráticas da revolução é o proletariado. Suas elaborações ganham mais vida do que nunca diante do genocídio palestino. A direção burguesa do Hamas e Fatah são absolutamente incapazes de levar à frente a defesa elementar de preceitos democráticos próprios das revoluções burguesas, como um Estado laico por exemplo. Isso porque este pertence a outra classe, à burguesia palestina que nada têm em comum com as massas que estão em greve geral exigindo o fim do massacre, junto da força do apoio internacional em diversos países, como os portuários na Itália se recusando a carregarem armas a Israel.

Por isso, é fundamental que a esquerda socialista internacional defenda a separação da Igreja do Estado, a garantia de direitos plenos para todo o povo palestino oprimido e o fim de todas as leis racistas impostas por Israel, bem como o direito ao retorno dos refugiados e o fim do massacre. Não se trata de defender a utopia liberal da ONU dos dois Estados ou o “capitalismo pró-palestino e soberano” - mas sim defender a luta por um Estado operário e socialista na Palestina! Esse é um passo fundamental para expulsar o imperialismo da região e avançar para uma construção na luta de classes de uma Federação de Repúblicas Socialistas do Oriente Médio.

Entrevista com Simone Ishibashi: "O que está por trás do massacre israelense na Faixa de Gaza?"




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