Opinião

COLUNA

Sobre velhos e novos ares

A renovada comemoração do golpe de 1964 que se viu na última semana, dessa vez com autorização expressa do STF, projetou com mais força sobre o nosso futuro a sombra do passado. Mas também os últimos dias trouxeram algumas boas notícias que permitem nos perguntarmos se não seria uma flor, que nascendo logo ali.

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 7 de abril| Edição do dia

O ministro da defesa, general Braga Netto, interventor no Rio de Janeiro e ex-chefe do Estado Maior do exército repetiu essa na ordem do dia de 31 de março, as palavras do seu antecessor, Fernando Azevedo, “o golpe é parte da nossa história, assim deve ser comemorado”. Aí está, condensado, o pensamento dos comandantes do exército de Caxias.

Todo o festival de incompetência, abusos e mentiras, esse espetáculo horroroso proporcionado pelo governo Bolsonaro com o apoio do Alto Comando, por mais que tentem agora esconder seus crimes, nos fazem lembrar do período que os comandantes militares tão zelosamente reivindicam e comemoram. Quando o general Pazuello teve a desfaçatez de afirmar que o fornecimento de oxigênio não é problema do ministério da saúde inevitavelmente nos lembramos de todos os crimes dos militares, como por exemplo a epidemia de meningite que foi combatida com os mesmos métodos de agora: maquiando os números e mentindo. Mas também nos lembramos, inevitavelmente, de uma obra que deveria ser de cabeceira para todos que querem conhecer os meandros do pensamento militar brasileiro.

Trata-se do conjunto de três livros, Febeapá 1, 2 e 3, escritos entre 1964 e 1968, por Sergio Porto, mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Comediante que ganhava a vida divulgados os atos extraordinários do “Festival de Besteira que Assola o País” que era que como ele denominava o golpe de 1964 e a “inteligência” autoritária que havia tomado conta do país. Com o Febeapá aprendemos, que talvez, digamos, Bolsonaro não seja exatamente um ponto fora da curva na oficialidade no que diz respeito a complexidade do seu pensamento.

É difícil escolher o que tomar como exemplo, tantas e espetaculares são as manifestações do Febeapá e tamanhas as semelhanças com o que vemos hoje. Folheando mais ou menos a esmo, logo encontramos uma declaração muito parecida com essa manifestação do Pazuello, só que de um ministro da educação. Depois de inúmeras manifestações que terminaram com estudantes espancados ele declarava para um jornalista: “nem sabia que tinham batido em estudantes”. O mesmo ministro que, tempos depois, quando no banheiro de um restaurante leu o que se escrevia sobre ele, quis prender todos os presentes… Folheando mais um pouco, logo tropeçamos com as declarações do ministro da saúde da ditadura, no ano da graça de 1966, que se diferencia de Pazuello ou de Paulo Guedes apenas pela sua maior sinceridade. Disse o sr. Raimundo de Britto: “para aliviar as despesas do tesouro nacional precisam morrer de fome dez por cento dos funcionários públicos federais, nem que para isso se inclua meu filho”.

Vimos alguns jornalistas, quando da publicação da entrevista com Villas Boas e em outras ocasiões, se surpreenderem com o baixo nível intelectual do generalato. Faltou a eles a leitura do Ponte Preta… Ou outras referências históricas, como a obra de Vitor Hugo, “Napoleão, o pequeno”, em que ironiza a baixeza e a burrice do sobrinho de Bonaparte, que foi ditador na França por duas décadas décadas. Mas é na obra de Marx sobre o mesmo período que encontramos a explicação de como em determinadas épocas históricas a estupidez mais completa pode se alçar a grande arbitro e líder da nação.

Para defender seus interesses as classes dominantes nos momentos de crise e mais ainda com sua decadência histórica são obrigadas a recorrer a governos que utilizam a força das armas para conter ou reprimir o movimento de massas. Esses governos geralmente se apoiam no que existe de mais baixo, vil e desprezível e eleva a dirigente do estado os setores mais corruptos, criminosos e de pesamento mais obtuso como os mais gabaritados e eficientes na defesa dos seus interesses. Junto com o pinochetista Paulo Guedes, vem os terraplanistas, junto com os gananciosos e ambiciosos generais, os milicianos cariocas.

Para expulsar essa casta degenerada que tomou aprofundou seu controle sobre o estado e loteou o governo para si, junto com os mais corruptos políticos do centrão, não bastará que caia Bolsonaro para que assuma Mourão, nem mesmo uma vitória eleitoral em 2022. O desfile de imbecilidades misturadas com a execução de políticas criminosas, conduzidas por um faro político tão certeiro como rapaz, não vai ser parado por acordos pelo alto, nem por trocas de governo, pois contam com uma base social forte nos setores militares, nas classes médias mais reacionárias e racistas e no pensamento evangélico mais conservador e são apoiadas por fortes interesses agroindustriais da soja e outros setores. Somente a ação de massas, as mobilizações de ruas e a revolta generalizada da classe trabalhadora, das mulheres, dos negros e da juventude podem tirar de cena essas velhacarias e abrir uma nova etapa da história brasileira.

É com muita alegria e esperança que tomamos a noticia da greve em na LG de São José dos Campos e nas suas fornecedoras contra o fechamento e as demissões e as mobilizações nos setores de transportes. Elas são sintomáticas de que estamos chegando em uma situação limite. Cabe a esquerda revolucionária tomar esses sintomas com toda centralidade e fazer de tudo ao seu alcance para que o exemplo germine. Uma flor nasceu, ou está brotando. Ele é ainda frágil, desbotada, suas pétalas ainda não se abriram. Sua forma é ainda insegura, mas que fure o tédio, que rompa a acomodação e o ceticismo.




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