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Eleições | Sobre os discursos e aliados de Lula em Minas Gerais e como lutar contra o bolsonarismo

Queremos debater porque em sua viagem à MG Lula demonstrou como sua estratégia de conciliação com nossos inimigos, ao invés de enterrar o bolsonarismo, termina por preservar os ataques estruturais que foram implementados nesse regime cada dia mais autoritário contra os trabalhadores e a população.

Flavia ValleProfessora, Minas Gerais

sexta-feira 13 de maio | Edição do dia

Lula com a prefeita de Contagem, Marília Campos (PT). Foto de Ricardo Stuckert

Lula terminou sua viagem em MG, para onde veio com sua política de conciliação com a direita visando aliança com Kalil. Diante da catástrofe do governo Bolsonaro e a ascensão da extrema direita em nosso país, que representam o nível de barbárie que os capitalistas podem recorrer em nome de manter seus lucros, muitos setores da população veem em Lula, mesmo com Alckmin como vice, uma possível via para se livrar de Bolsonaro. Como parte daqueles que sempre estiveram e estarão na primeira linha do combate ao golpe institucional de 2016, à extrema direita e todos os ataques, queremos debater porque em sua viagem à Minas Gerais Lula demonstrou como sua estratégia de conciliação com nossos inimigos, ao invés de enterrar o bolsonarismo, termina por preservar os ataques estruturais que foram implementados nesse regime cada dia mais autoritário contra os trabalhadores e a população.

Em seus discursos pela chapa Lula/Alckmin em Belo Horizonte, Contagem e Juiz de Fora, Lula enfatizou a conciliação para administrar a obra econômica do golpe institucional ao gosto dos empresários. Para isso, poupou até mesmo o governo de Romeu Zema - até porque não existe muita diferença entre Zema e o neoliberal Alckmin, a quem agora o PT chama de companheiro. Lula não disse uma palavra sequer sobre os militares e seus discursos reacionários e antidemocráticos frente ao processo eleitoral deste ano, sendo que essa é uma força que esteve junto à direita golpista e ao STF a favor da sua própria prisão arbitrária em 2018, que permitiu levar Bolsonaro e a extrema direita ao poder.

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Nada também foi dito sobre o STF e as medidas autoritárias do judiciário que serve aos patrões e que hoje em Minas Gerais é responsável por atacar, junto a Zema, conquistas de lutas, como a da greve dos trabalhadores da educação. Parte dos objetivos da viagem era a busca de tentar avançar nas alianças com Kalil e o PSD, um partido do centrão que é base do governo Bolsonaro votando em diversas políticas que atacam profundamente a classe trabalhadora e a população do nosso país. Não será com a conciliação com a direita e visando administrar a obra do golpe institucional de 2016 que conseguiremos derrotar a extrema direita e todos os ataques.

Lula também mostrou novamente seu projeto de país de administração da crise a favor dos patrões. Em Contagem, cidade cuja a história é marcada pela força da classe operária e suas combativas greves contra a ditadura militar e as patronais, Lula fez questão de deixar claro que sua política é para os empresários ganharem mais dinheiro! Fez um discurso para eles, dizendo que não quer "tomar a fábrica ou o lucro de ninguém". Nenhuma palavra foi dita sobre as reformas trabalhista e da previdência, que destroem a vida de milhares de trabalhadores.

Para expressar seu projeto de país, em que supostamente ricos e pobres ganham, Lula recebeu de braços abertos no evento ninguém menos que o empresário Mário Valadares. Este é o dono do Shopping Oiapoque e da Só Marcas Auto Shopping, rede mineira responsável pelo trabalho precário e pela superexploração de milhares de trabalhadores, em sua maioria jovens.

Lula deu seus recados ao agronegócio, declarando que os governos do PT fizeram muito mais para esse setor do que Bolsonaro. De fato os governos petistas fizeram muito pelo agronegócio ao nunca tocarem nos lucros dos grandes latifúndios e monopólios capitalistas da alimentação. Isso fortaleceu um dos setores mais reacionários da burguesia brasileira que articulou o golpe institucional e a prisão arbitrária de Lula, tendo sido nos últimos quatro anos um pilar de sustentação do governo Bolsonaro e ganhando em troca ainda mais legalidade para sua prática predatória. É importante lembrar que não apenas os governos federais, mas também os estaduais do PT em MG favoreceram as mineradoras como a Vale, que deixou seu criminoso rastro de lama em Mariana e Brumadinho, e outras, como a que agora quer destruir a Serra do Curral junto a Zema.

O PSOL esteve em todos os eventos da caravana, dissolvido nesse projeto com Alckmin, fato que, junto à federação com a Rede da golpista Marina Silva e do Itaú, mostra como esse partido não tem mais qualquer perspectiva de independência de classe. A vereadora Iza Lourença chegou a dizer que tinha uma pergunta retórica para Lula sobre o compromisso com a resposta para a pergunta "quem mandou matar Marielle", dizendo que sabia como resposta teria o comprometimento de colocar "a inteligência" do país a serviço de encontrar a resposta. Nenhuma exigência a uma investigação independente do caso, nenhuma denúncia de que o assassinato de Marielle é uma ferida aberta do golpe institucional que Lula não apenas já perdoou como também com cujos atores, como Alckmin, já se reconciliou.

Foi essa política de conciliação de classes, de governar favorecendo os interesses dos patrões, sem tocar nos lucros dos empresários, que abriu caminho para a extrema direita se fortalecer. Apostar novamente nessa estratégia de alianças com a direitistas como Alckmin e Kalil, ainda mais diante da crise capitalista internacional, é seguir condenando os trabalhadores e o povo a sofrer com as mazelas desse sistema.

Para mascarar essa realidade Lula faz algumas demagogias, como em Juiz de Fora, onde falou que não vai ter teto de gastos em seu governo, que irá investir em educação e o que supostamente resolveria o conflito dívida pública e PIB é o crescimento do PIB, se comprometendo novamente com o roubo que significa o pagamento da dívida pública. Dessa forma, não se compromete com o fim da justificativa para as reformas, privatizações e o teto dos gastos, honrando o histórico dos governos petistas que foram o que mais pagaram essa que é a principal forma de espoliação imperialista. Refazer esse compromisso diante da crise capitalista internacional e dos incertos rumos da economia frente a guerra na Ucrânia não pode significar outra coisa, dentro da lógica capitalista, senão continuar aumentando a exploração e opressão da maioria da população.

Ao contrário do que Lula propaga, precisamos sim nos enfrentar com os empresários para revogar o teto dos gastos, a reforma trabalhista e todas as reformas e privatizações; expropriar os grandes monopólios da alimentação e combater o agronegócio, que só pensa em seus lucros enquanto o povo passa fome; lutar não para aumentar o consumo visando o lucro dos patrões, como afirma Lula e grandes empresários que o apoiam, mas para que o salário mínimo seja reajustado automaticamente de acordo com a inflação e que haja a redução da jornada de trabalho para acabar com o desemprego. Esse sim é um programa de trabalhadores, que é levado à frente por deputados da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade (FIT-U, na sigla em espanhol) na Argentina, que marcha essa semana nas ruas de nosso país irmão junto a movimentos sociais e de desempregados contra a fome, a inflação e o desemprego, fruto dos planos de ajuste e de submissão ao FMI levado a frente pelo governo de Alberto Fernandez, aliado de Lula.

Ao invés de canalizar todas as expectativas na ilusão de que pela via das eleições vamos derrotar a extrema direita e os ataques, nossos sindicatos e entidades estudantis deveriam organizar a luta contra Bolsonaro, Zema e Kalil desde a base dos trabalhadores e da juventude. Um combate assim deve envolver também uma luta contra as instituições como o STF, que agora ataca a conquista da greve da educação em MG e inclusive um dos principais sindicatos de trabalhadores de Minas Gerais e o segundo maior do Brasil, o SINDUTE. Precisamos forjar o caminho para derrotarmos com os métodos da nossa classe todos os ataques e fazer com que os capitalistas paguem pela crise.

Essas são algumas das batalhas que damos conjuntamente aos companheiros do Polo Socialista e Revolucionário. Convido a todes que são críticos ao projeto de conciliação de classes do PT e a diluição do PSOL com Alckmin e Marina Silva a conhecerem as propostas do MRT neste Polo, que buscamos fortalecer ao propor o nome do nosso companheiro Marcello Pablito como vice de Vera Lúcia do PSTU na chapa presidencial, como parte de nossas batalhas pela independência de classe e por um programa dos trabalhadores junto a todo povo pobre e oprimido.

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