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SEMANÁRIO

Sobre o Programa de Transição e o esquecimento da estratégia

Matías Maiello

Ilustração: Mar Ned/Enfoque Rojo
Tradução: Pedro Pequini

Sobre o Programa de Transição e o esquecimento da estratégia

Matías Maiello

Em um artigo recente intitulado “Programa de transição, política revolucionária ou reformismo burguês?” Rolando Astarita retoma alguns argumentos polêmicos de sua Crítica do Programa de Transição [1]. Sobre a atualidade da discussão, ele destaca: “Entre as muitas diferenças que tenho com a FIT, uma das mais importantes refere-se à agitação das consignas de transição (ao socialismo). Dada a relevância do tema para a esquerda, nesta postagem apresento a concepção de Marx e Engels sobre o programa de transição (com algumas observações de Lênin); e em contraste, a concepção trotskista”. A seguir, vamos nos deter em alguns pontos desse amplo debate. Em primeiro lugar, abordaremos de forma sintética seus termos mais gerais e o contraste que Astarita postula entre as propostas de Marx e Engels e as de Trótski, a seguir nos concentraremos em um ponto que consideramos central: é impossível compreender o método transicional formulado por Trótski – incluindo seus antecedentes nos fundadores do marxismo – separado da estratégia.

Coordenadas do debate

Com o Programa de Transição, escrito em 1938 e adotado pela Quarta Internacional, Trótski sistematiza um método de formulação do programa que tem extensos antecedentes no movimento revolucionário e que a Terceira Internacional começou a esboçar em seus primeiros congressos. O próprio Trótski já havia escrito outro programa com essas características em 1934 para a França, conhecido como “Um programa de ação”. O método transicional visa acabar com a velha divisão em compartimentos estanques entre o que, no jargão da Segunda Internacional, era chamado de “programa mínimo” (consignas que, por si só, não questionam a propriedade capitalista, como aumento de salários, direitos trabalhistas, demandas democráticas feitas direitos políticos ou civis, etc.) e “programa máximo”, referido à revolução socialista. Essa divisão é indissociável da própria trajetória da Segunda Internacional, que acabaria relegando o “programa máximo” a um futuro indeterminado, aos atos de 1º de maio e à propaganda, enquanto a prática e a agitação cotidiana se circunscreveria ao “programa mínimo”, limitado a uma série de reformas nos limites estabelecidos pelo regime capitalista [2].

O método utilizado por Trótski, que poderíamos chamar de “transicional”, busca estabelecer uma ponte entre a luta imediata pelas demandas mínimas e democráticas e a luta pelo poder da classe trabalhadora. Nisso, as chamadas consignas “transicionais” desempenham um papel fundamental. São aquelas que propõem uma resposta estrutural e substantiva para acabar com o sofrimento imposto pelo capitalismo, consignas como escala móvel de salários e horas de trabalho, controle operário da produção, administração direta operária de qualquer empresa que fecha, expropriação de certos grupos de capitalistas, nacionalização de bancos e comércio exterior etc. O objetivo é articular na luta política, na agitação e, se a situação permitir, na própria ação, as lutas imediatas com a perspectiva de um governo dos trabalhadores e do socialismo. Nas palavras de Trótski, este programa “partindo das condições atuais e da consciência atual de amplas camadas da classe trabalhadora deve levar a uma única e mesma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado”.

Astarita afirma que isso é um erro. Que balançar consignas transitórias e fingir que estas consignas impulsionam a mobilização seria como colocar a carroça na frente dos bois, porque eles só poderiam ser usados ​​para agitação quando as condições para a tomada do poder estivessem reunidas, caso contrário, medidas socialistas seriam exigidas do Estado capitalista e, como diz o título de sua nota, iria da “política revolucionária” ao “reformismo burguês”. Dito isso, é preciso se manter firme na divisão entre o programa “mínimo”, para promover a mobilização, e “máximo” para a propaganda até que chegue a revolução. Para substanciá-lo, Astarita busca apoiar-se nos fundadores do marxismo. Observa que:

o programa de transição foi apresentado pela primeira vez por Marx e Engels no Manifesto Comunista. Estas são medidas para impulsionar a classe trabalhadora para a abolição da propriedade privada, para o socialismo. [...] O fundamental é que este programa foi concebido para ser aplicado pela classe operária a partir do poder: “a primeira etapa da revolução operária é a constituição da classe operária em classe dirigente, a conquista do poder público pela democracia”. Se, por outro lado, são propostas fora da classe social que podem torná-las efetivas de forma revolucionária, tornam-se remendos do sistema, confundindo as massas trabalhadoras e induzindo a conciliação de classes.

Agora, é verdade que o método transicional coloca a carroça antes dos bois? Trótski trata de “propostas fora da classe social que podem torná-las eficazes de forma revolucionária”? O Manifesto Comunista se opõe ao Programa de Transição? Muitas das dificuldades em compreender o método transicional proposto por Trótski, não só entre seus críticos como Astarita, mas também entre aqueles que o reivindicam, fazem parte da separação do programa (os objetivos a serem alcançados) e da estratégia (como fazê-lo). No entanto, essa conexão é muito mais forte do que Astarita supõe, não apenas em Trótski, mas desde as próprias origens do marxismo. Vamos ver.

Marx e Engels, as origens

Segundo Astarita, Engels discutiu o caráter e as condições de possibilidade das consignas de transição em sua polêmica com Karl Heinzen em 1847, um ex-liberal alemão que, após fracassar em seu projeto de construir uma oposição legal na Alemanha, passou a proclamar o necessidade de uma revolução imediata. Sua crítica seria aplicável ao Programa de Transição. Astarita diz, tomando extratos de Engels:

se essas medidas de transição estão relacionadas “a uma situação pacífica, burguesa... elas estão destinadas a sucumbir”. […] Deve ser explicado que as medidas de transição “só são possíveis porque todo o proletariado está atrás delas, apoiando-as de armas nas mãos” (“Os comunistas e Karl Heinzen”). Na ausência dessas condições, eles são as quimeras dos reformadores sociais, possivelmente bem-intencionados, mas impotentes.

Além do fato de que nesse mesmo texto Engels aponta, em termos semelhantes a Trótski, que a possibilidade dessas medidas depende da relação de forças e que as dificuldades que surgem para levá-las adiante podem se traduzir em um avanço no entendimento da necessidade de parte dos trabalhadores [3], deve-se notar que é muito diferente afirmar que essas medidas não podem ser alcançadas em uma situação pacífica, que é a proposta de Engels, do que Astarita está defendendo que é a inviabilidade da “agitação” dessas mesmas consignas para além dos momentos de crise revolucionária.

Esse argumento de Astarita seria supostamente demonstrado pelo fato de que Marx e Engels não usaram consignas incompatíveis com a sociedade capitalista (“máximas”, segundo a terminologia de nosso autor) para agitação em momentos não revolucionários, e os reservaram apenas para “manifestos estratégicos”. No entanto, ao contrário dessa afirmação, Marx em 1880 as incluiu, por exemplo, nada mais nada menos do que em um “programa eleitoral”. Referimo-nos ao “Programa Eleitoral dos Trabalhadores Socialistas” elaborado por ele e Jules Guesde para a França, com a colaboração de Engels e Paul Lafargue. O que parece torná-los destinatários das mesmas críticas dirigidas a Trótski.

Nesse programa eleitoral, junto de muitas consignas do programa mínimo, eles incluem consignas transicionais como: “Anulação de todos os contratos que tenham alienado propriedade pública (bancos, ferrovias, minas etc.), e que a exploração de todas as oficinas do Estado sejam confiadas aos trabalhadores que ali trabalham” (algo como uma nacionalização sob controle operário); “supressão de toda herança em linha colateral e de toda herança direta de mais de 20 mil francos”; “supressão da dívida pública”; “abolição do exército permanente e armamento geral do povo”; que “a Comuna se torna dona de sua administração e de sua polícia” (algo como “governo dos trabalhadores”). Mas houve uma situação revolucionária pré-insurrecional em 1880 na França? Não. Este programa era possível ou não? Obviamente, nem Marx nem Engels se posicionaram como “reformadores sociais” ao estilo de Heinzen, e esse fato nos leva a uma discussão fundamental.

Estado e revolução

Astarita nos diz que para evitar que as consignas de transição apareçam como “quimeras de reformadores sociais”, “absurdos lógicos, insustentáveis”, “Marx e Engels apresentaram as medidas de transição – no Manifesto Comunista – subordinado à ‘elevação do proletariado à classe dominante’”. Mas em caso afirmativo, como justificar, por exemplo, a inclusão dessas medidas em um programa eleitoral para a França em 1880? Arriscamo-nos a afirmar que o que para Astarita é um “princípio” (não agitarás consignas de transição fora de uma situação revolucionária pré-insurrecional), para Marx e Engels não era. Mas o mais interessante não é isso, e sim o fato de que naquele programa eleitoral incluíam a referência aos decretos da Comuna de Paris que havia sido derrotada nove anos antes. O que sugere outra questão: o que aconteceu entre fevereiro de 1848, quando o Manifesto Comunista foi publicado pela primeira vez, e 1880, tanto historicamente quanto na evolução da teoria política de Marx e Engels?

Historicamente, nada mais nada menos do que os dois principais eventos da luta de classes do século XIX, a chamada “Primavera dos povos” de 1848 e a própria Comuna de Paris de 1871. Assim, o Manifesto Comunista levantou a fórmula geral que Astarita cita em relação ao poder dos trabalhadores, a saber: “a constituição da classe operária em classe dirigente, a conquista do poder público pela democracia” (esta última entendida como a reabsorção do Estado pelo sociedade; à “democracia” enquanto regime político eles se referiam como “república”), enquanto mais tarde eles verão na Comuna de Paris “um governo da classe trabalhadora, o resultado da luta da classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política finalmente descoberta para realizar dentro dela a emancipação econômica do trabalho” [4]. A novidade da Comuna foi tão importante que Marx e Engels, como sabemos, consideraram pertinente “corrigir” o Manifesto Comunista. Disseram em 1872 que: “este programa está, em alguns lugares, desatualizado. Acima de tudo, a Comuna forneceu provas de que ‘a classe trabalhadora não pode simplesmente tomar posse da máquina estatal como ela é, e colocá-la em movimento para seus próprios fins’” [5].

Essas mudanças, que do ponto de vista de abordagens como a de Astarita pareceriam secundárias para pensar sobre o programa, são, no entanto, fundamentais. Elas implicam que, como condição necessária para o sucesso, a classe trabalhadora deve articular seu próprio poder capaz de “substituir” o aparato estatal burguês. Ou seja, não se trata simplesmente de “apoderar-se” deste último para implementar um “programa de governo socialista” (“programa máximo”). É por isso que qualquer programa que se limite a indicar as medidas de um futuro governo dos trabalhadores “depois do triunfo da revolução proletária” enquanto para a luta diária (económica e política) apenas recomenda consignas “mínimas” é um programa inútil na prática, pelo menos do ponto de vista revolucionário. Tampouco serve um programa dedicado apenas a “instruir” a vanguarda nos objetivos da revolução se não estiver orientado, ao mesmo tempo, a interpelar de alguma forma o movimento de massas, isto é, aqueles que deveriam protagonizar a revolução, a criar seus próprios organismos de auto-organização.

A grande questão relegada por todas as visões que dividem – implícita ou explicitamente – entre programa mínimo e programa máximo é, nada mais nada menos, que o fato de que para chegar ao poder é preciso superar os limites do regime burguês e desenvolver uma alternativa de poder para substituí-lo; um poder que não surge do nada.

Esperando pela chegada do duplo poder

Astarita é enfático ao apontar que tudo se resume

a quem tem o poder de implementar as medidas transicionais. Uma questão que podemos ver na consigna do “controle operário”, que é frequentemente agitado. A questão é: de que poder esse controle será aplicado? [...] Dito pela positiva: o verdadeiro controle operário (não como aparência, não como engano) só pode ser aplicado por um curto período de tempo, em situações de duplo poder – conselhos, operários armados, confronto com o aparato repressivo – ou uma vez tomado o poder.

E acrescenta posteriormente que “enquanto a classe operária não se emancipar do controle burocrático-burguês (dos sindicatos, das organizações sociais, das representações políticas), o controle operário não pode ser senão uma forma de colaboração de classe”.

Em tudo isso, a questão central é justamente aquela que Astarita omite. A saber: como surgem essas premissas para a agitação de um programa de transição (as “situações de dualidade de poder”, a “emancipação do controle burocrático-burguês” etc.) que nosso autor dá por certo para um futuro indeterminado?

Diante dos que sustentavam propostas semelhantes e se opunham à palavra de ordem do controle operário da produção na Alemanha no início da década de 1930, considerando que naquela época as “premissas” não eram dadas, Trótski propôs o seguinte: “A partir de um determinado momento, os trabalhadores ‘deslocam’ o arcabouço da lei ou a derrubam, ou simplesmente a desconsideram em sua totalidade. É precisamente nisso que consiste a transição para uma situação puramente revolucionária. Por enquanto, essa transição ainda está à nossa frente, não atrás. Deve ser preparada”. Assim, diante do argumento de que era preciso esperar o surgimento dos sovietes para difundir a palavra de ordem do “controle operário”, lembrou-lhes: “Não só não tens sovietes, não tens nem ponte para eles, nem mesmo um caminho para a ponte, nem mesmo um caminho para a rodovia”. E acrescentou ironicamente: “Como somos impotentes diante da morte, como não podemos fazer nada nas fábricas, então... então, como uma recompensa por isso, subimos a tal altura que os soviéticos caem do céu para nos ajudar.”

Sem ir mais longe, Astarita escreveu em 1999 que “Nessas condições – que são as que existem na maioria dos países capitalistas, pelo menos desde o início dos anos oitenta – é ‘palpável’ o abismo que existe, por exemplo, entre a luta pela defesa dos salários e a luta pelo ‘controle operário da produção’” [6]. Dois anos depois, diante da enorme crise que eclodiu na Argentina, surgiria um dos movimentos de ocupação e produção das fábricas mais importantes das últimas décadas, onde milhares de trabalhadores tomaram centenas de empresas. Segundo Astarita, esse fenômeno nada diz sobre a relevância do Programa de Transição, pois: “Em termos gerais, os trabalhadores não tiraram as empresas dos patrões, mas foram abandonados pelos seus donos. No fundo foi um movimento que visava preservar os empregos, ou seja, sobreviver”. Esse tipo de concepção normativista que separa o que seria um programa puramente ideológico e as necessidades que impulsionam a ação da classe trabalhadora é, sem dúvida, o oposto do método transicional, que é justamente tentar estabelecer pontes entre os dois.

Em um dos exemplos de enorme importância não só nacional, mas internacional, como a fábrica Zanón, hoje FaSinPat [7], o combate às demissões que levaram à ocupação ocorreu em paralelo ao processo de recuperação do sindicato dos ceramistas, que por sua vez impulsionou, por exemplo, a “Coordinadora del Alto Valle” junto a organizações de desempregados, comissões internas, grupos anti-burocráticos educacionais, estatais, de saúde e construção, aos quais se juntaram estudantes e organizações de esquerda. Em seguida, promoveram nacionalmente as “Reuniões de Fábricas Ocupadas” junto com a Brukman têxtil e outras fábricas. São exemplos de como, em certas situações, essas “pontes” de que fala o Programa de Transição estão em marcha. Em 2003, finalmente ocorreu a retomada econômica da Argentina, impulsionada pelo boom de matérias-primas, que mudou o sinal da situação. Mas todo esse processo estabeleceu uma tradição que ainda está presente na Argentina e que se atualiza diante da profunda crise em curso.

Ao contrário do que sustenta Astarita, que vê nas consignas de transição como “controle operário”, “propostas fora da classe social que podem torná-las efetivas de forma revolucionária”, o Programa de Transição tem como preocupação central o surgimento da classe trabalhadora como sujeito hegemônico. Tanto é verdade que Trótski aponta que “todo o programa de transição deve preencher as lacunas entre as condições atuais e os sovietes do futuro [8]. Quando no Programa de Transição fala de uma ponte que “partindo das condições atuais e da consciência atual de amplas camadas da classe trabalhadora deve levar a uma única e mesma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado”, Trótski não está dizendo que de repente o operário chega a conclusão da tomada do poder e o conquista, mas que todo o programa está pensando em, por meio da experiência, colaborar na geração de condições – “preencher os espaços” – para que isso seja possível.

Nesse sentido, a emancipação “do controle burocrático-burguês (dos sindicatos, das organizações sociais, das representações políticas)” que Astarita coloca como “condição” para a agitação de um programa de transição é justamente um de seus objetivos. Daí a importância das consignas do Programa de Transição que apontam para a organização independente da classe trabalhadora, a começar pela luta contra a burocracia dentro dos sindicatos, e a promoção, conforme as várias circunstâncias, de comitês de fábrica, sovietes, piquetes de greve, milícias operárias.

Em contraste com isso, a separação axiomática que Astarita propõe entre o programa mínimo e as consignas de transição é o caminho mais curto para se adaptar às burocracias sindicais ou às direções reformistas. Ainda mais em um cenário como o atual, marcado pela fragmentação do movimento operário e de massa, onde as burocracias sindicais atuam como avalistas da fratura da classe trabalhadora (formal, precária, desempregada etc.) e se desenvolveram amplamente as burocracias dos “movimentos sociais”. A hegemonia da classe trabalhadora não surge da soma de programas mínimos.

Nem se trata de uma agitação do programa “no vácuo”, mas dentro de uma rede de forças concorrentes. Portanto, a articulação dos comandos na agitação está intimamente ligada à articulação das forças materiais. Podemos ver esses diferentes níveis, por exemplo, na consigna de transição de “escala móvel de salários e horas de trabalho” (isto é, que a jornada de trabalho seja distribuída entre todos os trabalhadores contra o desemprego, por um lado, e para reduzir a jornada de trabalho, por outro). Por um lado, em termos de “consciência”, a proposta se baseia nas lutas cotidianas por aumentos salariais ou contra as demissões em cada localidade e busca mostrar que a classe trabalhadora não está condenada à tarefa de Sísifo de ganhar aumentos salariais que são constantemente liquidados pela inflação ou enfrentam demissões pontuais sem contabilizar o desemprego estrutural. Essa consigna permite explicar a irracionalidade de um capitalismo que combina longas horas de trabalho com extenso desemprego, quando poderiam ser menos horas com todos trabalhando, ao mesmo tempo em que redirecionamos o problema contra os lucros capitalistas que deveriam ser afetados para conseguir essa distribuição sem redução salarial.

Por outro lado, entra a segunda dimensão fundamental (“material”) do problema: a necessidade de unir empregados e desempregados. A competição entre os dois setores é utilizada pelos capitalistas. A necessidade de trabalho deste último é utilizada pelos capitalistas para baixar os salários dos empregados e promover a ideia de que os desempregados (muitas vezes identificados de forma racista) são “preguiçosos”. Além disso, os sindicatos são apresentados como a representação dos “privilegiados”. Assim, a desmoralização e o reformismo em geral operam. A unidade entre empregados e desempregados é a chave para qualquer luta séria. Assim, limitar-se ao “programa mínimo” significa tapar os olhos diante de tais problemas estratégicos [9].

É em torno dessas lutas que uma organização revolucionária pode avançar em “educar”, organizar e agrupar a vanguarda, semeando ideias em setores de massa, de forma mais ou menos “propagandística” ou “para a ação”, dependendo da situação. Ao contrário do que sustenta Astarita, para quem “a metodologia política [do Programa de Transição] se conforma com a ideia de uma ascensão progressiva”, procura contribuir para articular “forças materiais” para o combate, para quebrar as resistências sindicais, burocracias sociais e políticas, e impulsionar a emergência da classe trabalhadora como sujeito hegemônico.

Exceder o “grau zero” da estratégia

Algo que caracterizou os debates do marxismo na primeira metade do século XX foi o aprofundamento na abordagem dos problemas estratégicos, para os quais se valeram da apropriação crítica dos clássicos da estratégia militar. No entanto, em discussões subsequentes foi – e ainda é – comum que conceitos estratégicos fundamentais sejam levianamente tomados como autoevidentes para reflexão e debate político. Astarita não é exceção quando sustenta, como uma das questões centrais do Programa de Transição, de ser supostamente um programa ofensivo proposto para situações em que apenas a posição defensiva se encaixa. Mas a defesa sem qualquer princípio positivo é uma autocontradição, tanto na estratégia quanto na tática [10]. Sem essa definição básica, é difícil entender uma palavra do Programa de Transição e da obra de Trótski em geral.

O programa de transição tenta, precisamente, responder aos problemas da transição da defensiva para a ofensiva em situações políticas ambíguas e híbridas, que já não são situações “normais” mas ainda não são “a” revolução, ou que combinam elementos de ambos desigualmente, evoluindo com tempos que são discordantes entre si. Assim, embora seja especialmente válido em situações pré-revolucionárias, contém propostas transitórias de grande utilidade para a “agitação de propaganda” (isto é, propaganda não só para a vanguarda mas para setores de massas) mesmo em situações defensivas, desde que entendamos defesa não como “defesa passiva”. Ao mesmo tempo, embora haja uma preparação imediata da transição da defesa para o ataque, há também uma preparação mais ampla que surge da “semeadura” de certas ideias, instituir certas “tradições” de luta e organização que podem – e devem – ser desenvolvidas antecipadamente para a educação da vanguarda e, por meio dela, para setores das massas. Em suma, o Programa de Transição é feito para preparar as condições (em termos de níveis de consciência e de articulação material de forças) para poder ir à ofensiva.

Esta é a atualidade do debate. Nos últimos anos, vários países de vários continentes passaram e estão passando por extensos processos de mobilização. A questão sobre as maneiras pelas quais todas as forças desdobradas pelo movimento de massas podem evitar serem dissipadas ou canalizadas dentro da estrutura dos Estados capitalistas e dar origem a novas revoluções é mais do que corrente. É a mesma questão a partir da qual o Programa de Transição começa. Muitas décadas se passaram desde sua elaboração, portanto, não se trata apenas de indagar sobre as palavras, mas sobre o método que o orienta e elucida o que ele pode nos dizer para pensarmos sobre as lutas atuais. Mas um requisito para isso é re-soldar a relação entre programa e estratégia, sem isso não há programa, nem mínimo, nem máximo, ou transição que possa nos ajudar.

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FOOTNOTES

[1ASTARITA, Rolando, Críticas ao Programa de Transição.

[2Para uma análise sobre a tendência da Segunda Internacional e em particular, de seu principal partido, o Social-democrata alemão, e os debates que o percorreram, ver: ALBAMONTE, Emilio e MAIELLO, Matías, Estratégia Socialista e Arte Militar, capítulo 1.

[3No artigo extraído de Astarita, “Os comunistas e Karl Heinzen”, Engels diz a respeito dessas medidas transitórias: “Elas são possíveis, apesar de todas as dificuldades e inconvenientes que alegam os economistas, porque todas essas dificuldades e inconvenientes irão impulsionar o proletariado a dar um passo após o outro até que a propriedade privada seja completamente abolida, para não perder de novo o que já foi conquistado. Elas são possíveis como etapas preparatórias, fases temporárias e de transição para a abolição da propriedade privada”.

[4MARX, Karl, “A guerra civil na França”, em [MARX, Karl e ENGELS, Friedrich, Revolución, Buenos Aires, 2018, Edições IPS.

[5MARX, Karl e ENGELS, Friedrich, “Prólogo [à edição alemã de 1872]”, em Manifesto do Partido Comunista.

[6ASTARITA, Rolando, cit.

[7Ver: GODOY, Raúl, LÓPEZ, Eguía, GRACE y CHIALVO, Alejo, Zanon, fábrica militante sin patrones. El rol de los trotskistas.

[8TRÓTSKI, León, “Un resumen de reivindicaciones transitorias”, em Programa de Transición, p. 218.

[9Claro, a “fórmula” geral é apenas o ponto de partida. Trótski está constantemente pensando em como dar-lhe valores concretos que, indo na mesma direção da consigna transicional, permitam que se adapte à intervenção no cenário político particular. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, afirma: “O senhor Roosevelt fala de obras públicas sem mais delongas, mas insistiremos que estas, junto com as minas, as ferrovias etc., absorvam todos os desempregados. Que cada pessoa tenha a possibilidade de viver decentemente, sem que isso implique uma redução do nível atual, e vamos exigir que o Sr. Roosevelt e seu ‘truste’ de cérebros proponham um programa de obras públicas capaz de garantir que todos que podem trabalhar tenham um trabalho com um salário decente. Isso é possível com uma escala móvel de horas e salários. Precisamos discutir como apresentar esse conceito em todas as localidades, em todos os lugares”. Desse modo, Trótski busca colocar a consigna da “escala móvel de horas e salários” em debate com os amplos setores do movimento operário norte-americano que tinham expectativas no discurso “bem-estarista” do presidente Roosevelt.

[10Cf. CLAUSEWITZ, Carl von, De la Guerra, Ed. Solar, p. 56.
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Matías Maiello

Buenos Aires
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