Gênero e sexualidade

Sobre feminismo socialista, Lula e os golpistas

Odete Assis

Belo Horizonte |@OdtCristina

quarta-feira 10 de março| Edição do dia

O 8 de março de 2021 foi diferente. Pela primeira vez em muitos anos não pude estar nas ruas com minhas companheiras do Pão e Rosas, junto às milhares de mulheres que pelo mundo todo lutam pelos nossos direitos.

Em parte pelo nível de descontrole da pandemia, reflexo direto do negacionismo bolsonarista, mas também dos ataques ao SUS, cujo golpe institucional veio para aprofundar o que já era praticado por todos os governos, inclusive os do PT, são os grandes responsáveis por chegarmos a essa situação calamitosa. Mas também pela ação das burocracias que não organizam a força das mulheres para lutar contra cada um desses ataques.

Muitas jovens de 15, 14 e 12 anos, que despertaram para o feminismo no último período, em meio ao bolsonarismo e todo machismo reacionário da extrema direita, esperavam ansiosas o momento de poder ir às ruas, mas tiveram que adiar um pouco mais esse dia.

No sábado, em uma plenária nacional com mulheres e LGBTs de todo país, eu pude sentir um pouco da empolgante energia dessa nova geração que sente na pele como o capitalismo reserva apenas misérias e se encanta pelo feminismo socialista. Foram inúmeros relatos sobre como aquele momento estava sendo muito importante para elas. Talvez elas não saibam, mas não era só para elas. Para todas nós, ver essa nova geração querendo construir um feminismo socialista, em oposição ao feminismo liberal da Globo e das empresas, era algo encantador.

Mesmo sem nos encontrar nas ruas, nos organizamos para nos mobilizar nas redes. Foram inúmeros cartazes, vídeos, fotos, desenhos, várias ideias criativas de como explicar nosso feminismo socialista.

Mas esse dia também foi marcado por uma série de fatores de grande impacto nos rumos da política nacional. Fachin decidiu anular todas as condenações de Lula pela Justiça Federal no Paraná relacionadas às investigações da Operação Lava Jato.

O que isso tem haver com a luta das mulheres?

As manobras autoritárias do STF golpista nas eleições manipuladas de 2018 levaram Bolsonaro ao poder. A votação da suspeição do Moro que aconteceu ontem foi mais uma demonstração de como o judiciário vem a tempos interferindo na política do país. Uma tentativa hipócrita onde cada ministro buscava proteger sua imagem, agora que seu filho indesejado transformou o Brasil no pior país do mundo.

O que Gilmar Mendes chamou de "maior escândalo judicial da história" é na verdade uma operação pensada no departamento de estado dos EUA. Destinada a aumentar a subordinação brasileira aos interesses imperialistas, a roubar ainda mais cada uma das nossas riquezas, enquanto nós sofremos com a fome, com o desemprego, com a retirada de direitos, com a lama da mineração que destrói vidas, famílias e cidades inteiras, com nossos ecossistemas sendo devastados pela ganância do agronegócio. Não preciso nem dizer que são as mulheres as mais atingidas, especialmente as mulheres negras e indígenas.

Essa operação foi capaz de retirar até mesmo o direito democrático de decidir em quem votar. Sim, o voto não muda as coisas dentro desse sistema, por isso, lutamos para construir uma outra sociedade governada pela classe trabalhadora. No entanto, para manter seus lucros, os capitalistas são capazes de retirar até mesmo o mínimo, que é a ilusão de que de tempos em tempos a população decide quem a governa.

Sempre lutamos contra o golpe, a Lava Jato e as reformas. Fomos contra a prisão arbitrária do Lula e a retirada dos seus direitos políticos, mesmo nunca apoiando o PT. Seguimos defendendo esse direito elementar, mas não porque confiamos no projeto de conciliação petista, que abriu espaço para o fortalecimento da direita, que rifou o direto das mulheres ao aborto em nome de acordos com a Igreja, que mandou o general Heleno, que hoje é parte do governo Bolsonaro para comandar as tropas brasileiras que reprimiam e estupravam as mulheres no Haiti.

Fazemos isso porque sabemos que é preciso lutar contra cada avanço autoritário, porque para derrotar Bolsonaro é preciso confiar em nossas forças e não nas instituições desse regime, que também são responsáveis por manter Bolsonaro no poder e por termos chegado até esse ponto, de 2 mil mortos por dia.

Fazemos isso, porque sabemos que entre a Carmem Lúcia e as trabalhadoras da saúde, entre ela e as jovens secundaristas cujo futuro está ameaçado, tem um rio de sangue. Porque os interesses da classe que ela representa é o responsável por manter milhões de mulheres e meninas na extrema pobreza.

Nunca vamos perdoar os golpistas, porque há três anos seguimos sem saber quem mandou matar Marielle. E essa ferida sangra todos os dias. Essa ferida sangra em cada bala policial que encontra um corpo negro nas favelas, periferias e campos desse país. Nunca vamos perdoar os golpistas que fazem com que as crianças tenham que pedalar 12, 14 horas por dia sentindo fome, enquanto carregam comida nas costas.

Na luta contra o autoritarismo judiciário, que se acha no direito de decidir os rumos da política em nosso país, eu tô com as trabalhadoras da saúde, com o povo negro contra a violência policial e o judiciário racista. Essa é a força que se organizada pode obrigar as burocracias a romperem a trégua e colocar os sindicatos e entidades estudantis a serviço da nossa luta e não da espera até 2022. Com essa força, podemos enfrentar Bolsonaro, Mourão e todas as instituições do golpe, com uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que anule todas as reformas, que garanta um SUS 100% estatal sob controle dos trabalhadores. Fazer com que todo político e juiz ganhe igual uma professora e tenha mandatos revogáveis. Aprovar medidas para que sejam os capitalistas que paguem pela crise.

Esse combate é parte da essência do nosso feminismo socialista. Porque a luta das mulheres é inseparável da luta de classes. É por isso, que os ventos da luta no Paraguai, das operárias contra o golpe militar em Mianmar, da revolução das filhas Argentina que incansavelmente batalharam pelo direito ao aborto legal e pela separação da Igreja do Estado. Ao invés de agradecer o Papa que fez de tudo para impedir essa maré verde, eu confio é na força dessa juventude em luta. Ao invés de defender que "quem precisa de armas é o Exército e a polícia” eu quero é que os ventos da fúria negra nos EUA contra a violência policial se espalhem pelos quatro cantos do país.

E se essa nova geração toma para si esses combates, ela pode contagiar toda classe trabalhadora que sofre com o peso das derrotas passadas. Pode revigorar as nossas forças para retomar nossas entidades das mãos das burocracias que as mantém paralisadas e transformá-las em potentes ferramentas da nossa organização. Pode ser a faísca que incendeia nossa luta pelo direito ao pão, mas também para conquistar as rosas.




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