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LUTA NEGRA | “Senzala insurgente”: o plano de revolta escrava de 1832 em Campinas

Contrariando a ideia de passividade difundida pela teoria da democracia racial e toda a operação ideológica burguesa que apaga as histórias de luta e resistência, foram inúmeras as lutas do povo negro escravizado no país. Nos apropriar dessas experiências e exemplos é parte fundamental de refletir as lutas na atualidade e da construção da revolução no Brasil. É com esse intuito que trazemos aqui esta resenha do livro “Senzala insurgente: malungos, parentes e rebeldes nas fazendas de Campinas (1832)” de Ricardo Pirola, professor no IFCH da Unicamp.

segunda-feira 29 de março | Edição do dia

Foto: Marc Ferrez, 1885 [1].

No ano de 1832 foi descoberto um plano de insurreição organizado por escravizados nas fazendas de Campinas. Ricardo Pirola, historiador da Unicamp, realizou uma pesquisa com fontes de arquivos de Campinas, fontes como o processo crime do plano de revolta, listas com informações sobre a população, listas avaliativas de escravos e registros de batismo e casamento da época para tentar entender como ocorreu e quem eram as pessoas envolvidas nesse plano. No livro “Senzala insurgente: malungos, parentes e rebeldes nas fazendas de Campinas (1832)”, publicado pela Editora Unicamp em 2011, ele condensa toda essa sua pesquisa.

No período tratado a então Vila de Campinas era uma das principais produtoras de açúcar da província de São Paulo. Cerca de 1/3 da produção vinha das fazendas da região. Na década de 1820 outras suspeitas de insurreição já haviam aparecido e colocado a Vila em alerta. Cada nova denúncia ou suspeita de rebelião fazia com que os senhores se assustassem com a possibilidade de perda de escravos e da produção agrícola. Para os escravos, esses momentos significavam que a repressão e os castigos viriam forte, mas ainda assim, “não deixavam de lutar por suas liberdades” (p. 35).

O plano de 1832

Numa carta endereçada ao juiz de paz da Vila de Campinas, o senhor de engenho chamado Antônio Francisco de Andrade dizia:

“[...] eu e vários proprietários da beira do rio Atibaia [...] na desconfiança de que nossos escravos projetavam alguma trama contra nós [...], descobrimos que eles noturna e escandalosamente se comunicavam uns com os outros [...] para um levante.” (p. 23).

Com a desconfiança em relação aos costumes estranhos e desobediências, os interrogatórios dos escravos começaram. Depois de 5 dias de castigos e promessas de perdão para aqueles que contassem sobre o motivo dos encontros noturnos, os fazendeiros descobriram o plano. Esse plano envolvia escravizados de 15 engenhos de açúcar e tinha também a participação de um liberto chamado João Barbeiro, que morava em São Paulo e já havia se envolvido em outro plano de revolta em 1830 que, nesse momento, gerou a mobilização de um grande aparato repressivo.

Após todas as investigações e a colheita de depoimentos, um total de 32 homens foram incriminados. A grande maioria dos envolvidos vinha do Congo Norte, alguns de Angola e Moçambique, também havia “crioulos” (nascidos no Brasil). Na sua maioria eles eram “ladinos”, ou seja, já estavam vivendo há um bom tempo no Brasil e estavam habituados com a língua e os costumes.

O objetivo principal do plano era conseguir a alforria: “fazer uma revolta contra os brancos para ficarem libertos”, disse Tristão Cabinda em um depoimento. “O escravo Felizardo Crioulo foi muito direto, quando lhe perguntaram sobre a finalidade dos ajuntamentos noturnos que faziam escondidos dos brancos, ‘levantar afoitamente, matar [os brancos] e ficarem eles pretos todos forros’” (p. 44).

As reuniões aconteciam sempre a noite, provavelmente em lugares alternados, estratégia utilizada para despistar os senhores. Nessas reuniões, primeiro todos comiam e bebiam juntos, e depois as lideranças se reuniam a parte. João Barbeiro, liberto, que vivia em São Paulo, se comunicava com Marcelino, um escravo tropeiro que viajava frequentemente para lá. Diogo Rebolo era responsável por centralizar toda a organização do plano na Vila de Campinas, além disso, em cada uma das fazendas tinha um “capitão” responsável pela articulação local.

Diogo Rebolo presidia todas as reuniões, guardava o dinheiro arrecadado que os escravos conseguiam principalmente através do comércio de alimentos que plantavam em seus dias de folga. O dinheiro conseguido era enviado à João Barbeiro em São Paulo através de Marcelino. Um dos interrogados contou que o dinheiro era para fazer azagaias (uma lança curta geralmente feita de madeira) e comprar pólvora. Havia também um escravo com ocupação de ferreiro envolvido no plano, este ficaria responsável por fabricar armas.

A data prevista para colocar o plano em prática era o feriado de Páscoa de 1832. Em um dos depoimentos foi contado que aconteceria num momento de “festa e ajuntamento dos brancos”. Durante os feriados e festas religiosas a vigilância senhorial diminuía, já que os escravos eram dispensados e os senhores costumavam ir às missas na igreja matriz.

As armas e o dinheiro nunca foram encontrados pelos fazendeiros.

Quem eram os conspiradores

Já escrevemos aqui que a grande maioria dos participantes no plano de revolta vieram do Congo Norte, alguns de Angola e também de Moçambique. Vários eram ladinos, mas havia também crioulos. Entre os líderes, quase todos vieram do Congo Norte, mas as informações não mostram quais eram os grupos étnicos que faziam parte.

Outro eixo que fez parte da análise do pesquisador foi a família escrava. Em muitos estudos realizados sobre a época, identifica-se que a possibilidade de casamento significava tentar estabelecer a “paz” entre a casa grande e a senzala, isso porque, em muitas fazendas, aqueles que casavam tinham um lugar mais reservado nas senzalas, tinham acesso à roça própria e mais chances de alforria.

De acordo com a pesquisa, de 21 participantes do plano, 13 eram solteiros e 8 eram casados. Entre 7 das lideranças, 3 eram solteiros e 4 eram casados. Conseguir o casamento não era nada fácil e poucos conseguiam, logo, a quantidade de casados entre os envolvidos no plano era grande. Ou seja, os dados mostram que no caso campineiro, o casamento não foi um impeditivo para a mobilização coletiva.

A grande maioria dos envolvidos trabalhavam nas plantações, mas alguns, principalmente entre os líderes, ocupavam postos de maior confiança nas fazendas, como no trabalho doméstico (entre todos os membros havia 3 escravos tropeiros, 1 ferreiro e 1 cozinheiro).

Religiosidade

Um aspecto que apareceu na maior parte dos interrogatórios registrados foi que nesses encontros noturnos os escravizados envolvidos no plano tomavam mezinhas (remédio, medicamente caseiro ou um tipo de preparado feito à base de raízes com poder de cura). Diogo Rebolo era uma espécie de liderança espiritual. Alguns se referiam a ele como “pai” ou “mestre”. Ele preparava as mezinhas que serviam para “fechar o corpo dos escravos durante a revolta e tornar mais lenta a reação senhorial” (p. 39). Muitos citaram as habilidades sobrenaturais dele, que além de preparar as mezinhas, fazia adivinhações “a partir de um livro com a pintura de um nariz de cachorro na capa” (p. 40).

Para entender essas questões, é importante buscar o entendimento sobre as religiosidades da África central. De acordo com o professor Ricardo Pirola, “a religião possui um papel fundamental na organização da vida dos centro-africanos” (p. 163). A religião “moldava a cosmologia, a maneira de entender os acontecimentos no mundo e era ainda uma das formas primordiais de sociabilidade” (p. 163).

Essas religiosidades acreditavam que o universo é caracterizado em seu estado normal pela harmonia, mas há também o desequilíbrio que é causado pela ação de espíritos ou até de pessoas através da feitiçaria. Também acreditam na divisão entre mundo dos vivos e mundo dos mortos.

Para voltar ao equilíbrio normal do mundo é necessário cultuar os ancestrais e os gênios da natureza. Aquilo que provoca o mal, também pode trazer o bem, mas é necessário cultuar de forma adequada. “As forças espirituais que Diogo Rebolo estava cultuando deveriam promover o bem para a comunidade escrava que o cercava e, ao mesmo tempo, causar o mal aos seus senhores” (p. 178/9).

Os líderes religiosos possuem habilidades sobrenaturais, conduzem os rituais e fazem a ligação da comunidade com o mundo dos espíritos. As mezinhas serviam para livrar ou curar feitiço, mas também combatem ou previnem coisas ruins. O feitiço é o uso das forças de outro mundo para benefício próprio ou prejuízo de alguém.

É curioso que é possível encontrar registros que evidenciam práticas de envenenamento contra os senhores em várias regiões do país, o que os preocupavam muito. As práticas de envenenamento não eram apenas contra os senhores, mas também eram forma de suicídio (o que também preocupava os senhores, já que para eles significava uma perda econômica). Essa questão se tornou tão importante que em 10 de junho de 1835 passou a existir uma lei que previa que os escravos que envenenassem seus senhores seriam punidos severamente.

Cultura e resistência

As descrições realizadas acima mostram que a herança africana foi fundamental na organização do plano de 1832 e até na determinação de quem seriam suas lideranças.

Na Vila de Campinas também moravam escravizados que foram traficados de outras regiões da África, no entanto, os que estavam envolvidos no plano vieram principalmente do centro-oeste africano. Uma hipótese para explicar isso é a proximidade cultural, pois os povos dessa região possuíam línguas e práticas religiosas parecidas.

Os escravos que foram trazidos para Campinas não deixaram a sua bagagem cultural lá no continente africano. Ao contrário, trouxeram para cá toda essa bagagem e ela influenciou a forma como as relações entre as pessoas foram estabelecidas e até como os movimentos de rebeldia foram organizados.

A partir dessas constatações, é interessante pensar em todas as possíveis influências da cultura africana em como a história da escravidão foi se desenvolvendo. No caso deste plano de insurreição que tratamos, a própria organização da luta foi construída com base na forma de organização do culto religioso. Mesmo com as proibições e perseguições senhoriais para que tanto escravizados quanto libertos não pudessem expressar sua religiosidade e suas crenças, essas religiosidades e crenças permaneceram vivas e serviram, inclusive, como uma espécie de recurso cultural para enfrentar o sistema escravocrata.

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O resgate dessa história nos inspira e admira ao ver tamanha organização e exemplos que são cotidianamente apagados da história. Embora o plano tenha sido descoberto, as armas e dinheiro não foram encontrados. Pirola destaca que “Não foram apenas os limites entre as propriedades que os escravos derrubaram [...] unindo diversas senzalas e duas cidades, mas a linha entre escravidão e liberdade também foi ultrapassada” (p. 243/244).

Como parte de contribuir para as discussões em relação ao povo negro enquanto sujeito e a luta contra a escravidão, o racismo e o capitalismo, as Edições Iskra lançaram o livro “Mulheres negras e marxismo”, organizado por Letícia Parks, Odete Assis e Carolina Cacau.

[1] Partida para a colheita de café com carro de boi | Vale do Paraíba, c. 1885
Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles. Disponível em: http://brasilianafotografica.bn.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5451

Referência:

PIROLA, Ricardo Figueiredo. Senzala insurgente: malungos, parentes e rebeldes nas fazendas de Campinas (1832). Campinas: Editora Unicamp, 2011.




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