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Semuni na UnB, Chomsky e Greve dos Correios: algumas reflexões críticas

Ontem, 21/9, começou a Semana Universitária na UnB - semana na qual se suspendem as aulas e toda a universidade se abre para cursos, eventos, palestras e muito mais para a comunidade acadêmica. A Semuni foi aberta pela intelectual estadunidense Noam Chomsky. No mesmo dia, os trabalhadores dos Correios em greve realizaram uma mobilização histórica na capital federal, demonstrando ser a classe trabalhadora o motor da história.

terça-feira 22 de setembro| Edição do dia

Semuni UnB 2020 em meio à pandemia e ensino remoto

Ontem, 21/9, começa a Semana Universitária na UnB - semana na qual se suspendem as aulas e toda a universidade se abre para cursos, eventos, palestras e muito mais para a comunidade acadêmica. A Semuni foi aberta pela intelectual estadunidense Noam Chomsky. No mesmo dia, os trabalhadores dos Correios em greve realizaram uma mobilização histórica na capital federal, demonstrando ser a classe trabalhadora o motor da história.

Infelizmente, o ideal proposto para a Semuni nem de longe chegou a ser viabilizado - visto que estamos em ensino remoto emergencial e no, final das contas, muitos de nós ainda teremos aulas e até mesmo provas nessa semana. Mais que isso:, na verdade se esconde uma lógica mais complexa e problemática: o fato de que a própria ciência e o conhecimento produzidos na UnB (e nas universidades como um todo) estão intimamente atreladas a uma apropriação privada. E o que isso significa? Basicamente, quer dizer que boa parte do que produzimos na UnB, no final das contas, se tornam patentes, são utilizados pela iniciativa privada para fins lucrativos de meia-dúzia de pessoas ou até mesmo são projetos financiados por empresas, como é o caso das “empresa júnior”, uma forma de mercantilizar a educação intimamente ligada à lógica excludente da entrada na universidade pública no Brasil. Existem muitas iniciativas excelentes de projetos de extensão, pesquisa e ensino pensadas para serem mais inclusivas e abordarem questões sociais. Mas a universidade nunca será realmente voltada para produzir conhecimento e ciência para a classe trabalhadora enquanto ainda estivermos em meio a um governo que odeia a ciência. Mais que isso, enquanto as universidades estejam ameaças pela iniciativa privada - que não está interessada em avanços tecnológicos e de conhecimento para as grandes maiorias, mas para o lucro de meia-dúzia.

Isso faz com que seja normal termos que nos expor a uma carga horária de estudo muito grande, nos estressar das mais variadas maneiras e, mesmo quando a universidade abre suas portas para a comunidade e expõe o que está produzindo, esse conhecimento acaba não evoluindo para mudanças estruturais - e ouso dizer, inclusive, radicais.

Imagine se toda essa capacidade científica, seja no potencial que vai desde a Biotec até às Relações Internacionais, da Psicologia até a Física, fosse gerenciado de forma democrática e comum entre estudantes, trabalhadores e professores? Isso é um pouco do nós do Esquerda Diário pensamos sobre como a universidade deveria ser pensada - e não como estamos vendo acontecer em meio a esse ensino remoto excludente e precarizador tanto do ensino, como do próprio trabalho do professor

Para saber mais, leia aqui

Noam Chomsky, UnB e Semuni: qual oposição queremos fazer à Bolsonaro?

A palestra do intelectual estadunidense Noam Chomsky, sem dúvidas, teve pontos muitíssimo relevantes. Ela se deu após a homenagem à Chomsky como Doutor Honoris Causa e discursos da Reitoria. Mais de 4.000 pessoas assistiram a abertura da Semuni. Poderíamos citar as menções às queimadas no Pantanal e na ameaça aos povos indígenas; uma crítica ácida ao neoliberalismo, mostrando como o “livre mercado” na verdade levou ao monopólio e a exploração da maior parte da população; ou até mesmo dos anos de neoliberalismo atuando diretamente no financiamento privado do conhecimento e como isso é pernicioso para o conjunto da sociedade. Porém, o propósito desse artigo não é discutir a competência ou não de Chomsky em termos de linguística ou ciência - o propósito é entender o sentido político que o discurso desse intelectual diante do panorama político atual se coloca dentro do contexto da própria UnB e do Brasil como um todo.

Sem dúvidas, a faceta mais contraditória na apresentação da Semuni não foi a palestra de Chomsky - que, sem dúvida, foi bastante instigante e deve gerar debate na comunidade acadêmica. O mais grosseiro foi toda a narrativa montada pela atual reitora, Márcia Abrahão, de “defesa da democracia” e da “defesa da ciência”, sendo que foi ela quem demitiu mais de 500 terceirizados em 2018, aumentou o RU para R$5,20, implementou o ensino remoto anti-democrático, excludente e que precariza o trabalho e o ensino. Por mais que Márcia adote um discurso contra Bolsonaro, não pode conformar uma oposição real à esse regime, pois, no fim das contas, ela é apenas mais um dos componentes da burocracia universitária - e caso a intervenção bolsonarista e reacionária não se dê, será ela a nomeada por aquele quem a mesma diz se opor, Jair Bolsonaro. Apenas se demonstra como esse sistema de poder no qual a UnB está inserido é totalmente decadente - e não será uma mudança de jogador, a troca de um burocrata “democrático” por um “neoliberal” que mudará as regras do jogo. São os estudantes, aliados aos trabalhadores, quem deve mudar as regras, e para isso, é fundamental mudar radicalmente a estrutura de poder da universidade - o que impactaria diretamente nas formas pela qual uma Semuni seria pensada em um contexto de pandemia e crise econômica.

Especificamente sobre a palestra de Chomsky, hora ou outra, se falou na abertura em nomes como “socialismo libertário”, “defesa da democracia” e “valorizar a ciência”. Essas frases tomadas de forma abstrata soam muito bem aos ouvidos e, se abstrairmos elas de seu contexto, parecem bem razoáveis. A questão é que a lógica político de Chomsky acaba por, no final das contas, unir forças com frações democratizantes da burguesia em busca de uma “oposição ao fascismo”, “em defesa da democracia”. Questiono a que serve defender a candidatura de Biden, um dos candidatos mais conectado ao estabilishment e à direita do Partido Democrata - e que está junto de uma policial como vice-presidente, mesmo em um cenário de rebelião radical das massas negras estadunidenses pedindo, inclusive, o fim da polícia racista.

Contudo, Chomsky está certo de que o capitalismo, o neoliberalismo e o tal “livre mercado” apenas concentram poder nas mãos de meia-dúzia de pessoas e tornam a sociedade humana um lugar insuportável e impossível de se viver para as esmagadoras maiorias. Mas claro, definitivamente, Márcia não é exemplo de nenhuma oposição ao neoliberalismo - visto que ela mesma é aquela quem administrou os ataques, sobretudo, de Temer.

Como o próprio Chomsky disse, não apenas devemos pensar, mas é fundamental agir para que superemos essa crise histórica da humanidade e do capitalismo. Nessa medida é que precisamos pensar nossa universidade e os desafios que as e os estudantes, bem como dos professores e demais trabalhadores, têm e terão pela frente nesse regime fruto do golpe institucional.

Para um debate mais aprofundado com Noam Chomsky, veja a crítica do Left Voice, parte da Rede Internacional de Diários da qual o Esquerda Diário faz parte, veja aqui.

Para um debate sobre a estrutura de poder da UnB, veja aqui e aqui.

O que a combatividade dos trabalhadores dos Correios pode nos ensinar nesse sentido?

Também em Brasília, no mesmo dia, ocorreu uma massiva manifestação de trabalhadores dos Correios vindos de diversas partes do país. O resultado se fez sentir na decisão do judiciário: o direito de greve foi respeitado, com o TST decidindo que a greve não era abusiva. Contudo, também pode-se comprovar mais do que nunca que o judiciário é golpista e não está interessado em se opor efetivamente aos ataques de Bolsonaro e Guedes, pois todos os ataques à categoria foram mantidos. E é justamente nisso que podemos e devemos aprender com a greve dos Correios, com a combatividade das e dos trabalhadores, na disposição de luta e na capacidade que só a organização da classe trabalhadora pode proporcionar.

A chuva deu as caras após mais de 4 meses de estiagem, uma bela metáfora do que ainda está por vir - mas diferente da chuva, das leis da natureza, a sociedade é composta por seres humanos, conscientes; dessa forma, apenas a organização anti-burocrática e independente da burguesia por parte da classe trabalhadora, de forma consciente e munida de um programa e de uma estratégia, é que podemos avançar para a superação dessa “estiagem” capitalista.

Diante da Semuni na UnB, de um capitalismo parasita que destrói empregos, corta bolsas de ensino e precariza o trabalho, é preciso pensar como usar a ciência para as grandes maiorias e oprimidos. Imagine se essa capacidade diversa de cursos e palestras que vemos hoje na Semuni estivesse ativamente em serviço da classe trabalhadora, que a UnB pudesse organizar sistematicamente sua pesquisa e ensino para apoiar ativamente a greve dos Correios com produção de testes pelos cursos de biológicas, denúncias dos ecetistas pelos cursos de jornalismo e publicidade, análises críticas da conjuntura pelas demais áreas de humanas, produção de tecnologias para facilitar entregas por parte das exatas. A capacidade da ciência é inimaginável.

Por isso, é fundamental que, desde a universidade pública, es estudantes, professores e demais trabalhadores - sobretudo terceirizados - possam ter acesso ao conhecimento, a história e a bagagem da luta da classe trabalhadora, a única que pode dar uma resposta à altura para essa crise e, inclusive, garantir estudo e emprego digno para es estudantes de nossa universidade. Isso apenas pode acontecer se nos organizarmos e atacarmos a raíz do problema, o sistema capitalista e o Estado burguês - hoje chefiado por um executivo cada vez mais militares, representado pelo fascista Bolsonaro; por um Congresso dominado pelo centrão e pela fisiologia, todos de mãos dadas para passar as reformas; e por um judiciário golpista e, eles sim, super privilegiados com seus salários de mais de R$ 40.000. É fundamental pensarmos, então, como conformar uma oposição real à esse regime e, portanto, a atual administração da universidade não é e não pode ser nossa aliada nessa luta - muito menos as outras alternativas mais à direita das quais Bolsonaro sempre ousa atentar.

É nesse espírito que temos um convite especial para você!!

Um convite especial!

O Esquerda Diário convida todes estudantes e interessados, membros ou não da comunidade acadêmica, a participarem das palestras ministradas pelo professor Gilson Dantas, pós-doutorado em Políticas Sociais pelo NEPPOS/UnB. As palestras serão as seguintes: As duas pandemias [a política e a sanitária]: a era da manipulação (dia 23/9), Elementos para uma "história da esquerda durante a ditadura militar de 64" (dia 24/9) e Lênin e a construção do partido – legado para nosso tempo (dia 25/9), todas as 14h. A inscrição para as atividades poderá ser feita através do site da UnBpara alunos da universidade e contará com certificados. O curso também será aberto ao público interessado através deste formulário basta se cadastrar para receber o link das atividades. Neste caso, apenas para as pessoas que não se inscreverem no site da UnB.

Saiba mais em: https://www.esquerdadiario.com.br/Pandemia-esquerda-na-ditadura-e-o-partido-em-Lenin-participe-da-Semana-Universitaria-UnB




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