Cultura

CRÔNICA

Sempre é dia de Maria: trabalho, pandemia e falsas promessas.

Em meio a pandemia milhares de trabalhadoras vivenciam uma realidade mortificante. As Marias que formam a cara da nossa classe trabalhadora enfrentam todos os dias a difícil tarefa de trabalhar, sustentar a família e ainda se deparar com promessas demagógicas, nas quais se coloca como única saída a falsa panaceia das eleições em 2022, enquanto mais de 300.000 pessoas morrem pela Covid-19.

Kleiton Nogueira

Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)

segunda-feira 5 de abril| Edição do dia

Imagem:Materndade I, 1938, óleo sobre tela (Tarsila do amaral)
Fonte: tarsiladoamaral.com.br

Maria, mulher trabalhadora, nordestina e “mãe solteira”, completa 52 anos nesse seis de Abril de 2021. Os fios dos cabelos grisalhos já começam a aparecer, as rugas nas maçãs do rosto e nas mãos calejadas dos inúmeros trabalhos como “doméstica” dão o ar da graça. Pernas cansadas, corpo enfadado de estatura média e ar de subalternidade, é assim que Maria, analfabeta e trabalhadora braçal tem dado graças a Deus por estar trabalhando na Pandemia.

Todo dia às cinco horas da manhã ela acorda, e na casa de Maria o silêncio da madrugada, às vezes interrompido por algum gato brigando no telhado, ou latido de cachorro, da lugar a sinfonia do tilintar das panelas de alumínio, do borbulhar da água na chaleira. Maria precisa acordar cedo para ter tempo de pegar a condução, mesmo não tendo os conhecimentos formais, ela sabe deduzir a hora ao olhar pela luz que adentra pela janela. Quando os pássaros começam a cantarolar e a luz do dia fica mais forte, Maria sabe que tem que partir à luta, afinal, aquela conversa de “fique em casa”, ela nunca conseguiu provar de fato, sempre pensou que se tratava de alguma ditado popular que a juventude acabara de criar.

E assim, como tantas outras Marias, ela vai enfrentar mais um dia de labuta vendendo sua força de trabalho, mas antes disso, precisa encarar uma prova de resistência e sobrevivência. Igualmente a muitos trabalhadores e trabalhadoras o transporte coletivo é a única opção de se chegar ao trabalho. O espaço é apertado, a aglomeração é inevitável, mas, ao estar livre duas vezes: livre dos meios de produção e livre para vender sua força de trabalho, não há outro meio a não ser tentar acomodar seu frágil corpo em algum local, cadeiras vazias já não existem, corpos se tocam, micro-organismos passeiam livremente entre máscaras, janelas abertas e álcool em gel, o jeito é “dar um jeito” como sempre fez.

Após um ano de pandemia Maria olha para a realidade e enxerga que as frases de efeito como “fique em casa” nunca caíram bem à sua realidade. Parece um mundo paralelo que Maria procura e não encontra. Mas, em sua simplicidade, há a valorização pelo trabalho, pela oportunidade de vender a força de trabalho, mesmo de forma distante, ela parece entender que o trabalhador é negado duas vezes: tem sua própria dignidade negada ao não conseguir o mínimo para a manutenção de sua reprodução social, mas também tem negada a sua força de trabalho como mercadoria, pois o desemprego é grande no Brasil.

E assim, entre mapas roxos, amarelos, vermelhos, índices, percentagens e tantos outros elementos que aparecem na TV da casa de Maria, nada se parece com sua realidade de trabalhadora. É disjuntivo, é aparente, não condiz com o que ela vivencia na carne. No trabalho, são milhares de pessoas circulando, nem sempre aquele mínimo uso da máscara é respeitado, e se tem a sensação de uma espécie de terrorismo sanitário, as Marias e Josés ficam apenas pressionados entre o Covid-19 e a necessidade de trabalhar.

Na TV também falam em vacina, mas Maria sabe que demorará a ser vacinada, os hospitais, já não podem atender, pois uma moça falou no jornal que o SUS estava colapsado. E mesmo em meio à pandemia, quando Maria recebe o salário e vai ao mercado fazer feira, tem percebido os itens diminuírem do carrinho, a carestia dos alimentos se da pelo alto preço da carne,arroz, feijão e gás de cozinha. Ela pensa em sua simplicidade: “parece que o governo quer nos matar, se não for por fome, será pela pandemia”.

E nesse turbilhão, Maria se sente acuada, vê passar na TV o ex-presidente Lula falando em 2022, falando em eleições, ao mesmo tempo ela reflete: “Mas, e agora, e minha vida? Será que conseguirei esperar até 2022 para que tudo isso passe?” E essas perguntas parecem ecoar num campo alísio. Se tampouco nada foi feito até agora a não ser comprar sacos plásticos para mais de 300.000 corpos, cavar buracos para enterrar mulheres e homens, negros e pobres, aguardar até 2022 pde ser tarde para muitas Marias. Será que não haveria outro meio, ela pensa em sua simplicidade, alguma forma dos próprios trabalhadores se organizarem em cada local de trabalho para enfrentar esse tal de Bolsonaro, Mourão e toda aquela gandaia que tem vivido com base no suor de seu trabalho ?

E assim, o dia finaliza, as luzes se apagam, o silêncio da noite pousa feito uma borboleta, suave e atemporal. O corpo cansado de Maria pede descanso para o início de um novo ciclo de enfrentamento da dura realidade da classe trabalhadora brasileira.




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