Política

ENTREVISTA

Sean Purdy: uma vitória contra os ataques do PSDB e suas Reitorias reforçam a luta contra o golpe e vice-versa

O Esquerda Diário entrevistou o professor Sean Purdy, que dá aula no departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

quinta-feira 9 de junho de 2016| Edição do dia

Esquerda Diário: Como você classificaria o processo de impeachment da presidente Dilma?

Sean Purdy: É um golpe "parlamentar" ou "institucional", como ocorreu em Paraguai em 2012. Não mudou o regime de capitalismo liberal, mas mudou quem ocupa o governo desse regime. É retrocesso porque, primeiro, quebra as regras minimamente democráticas do sistema através do pretexto que Dilma fez um crime de responsabilidade para práticas feitas por todos os governos brasileiros no nível federal e estadual. Até o presidente Obama, dos EUA, fez pedaladas fiscais em 2013. Se a direita consegue distorcer as leis do estado capitalista tão facilmente, pode fazer a mesma coisa com o movimento operário e os movimentos sociais. Segundo, reforça o poder da direita no Brasil: os partidos do novo governo interino Temer e seus patrões na burguesia industrial, rural e financeira estão com mais liberdade agora para implementar a agenda neoliberal. 

ED: Em sua opinião, qual papel o PT teve para que a direita se fortalecesse a ponto de conseguir implementar o golpe?

SP: O PT teve um papel central nesta história toda. Os governos Lula e Dilma implementaram políticas neoliberais da "esquerda", garantindo algumas poucas reformas para a classe trabalhadora ao mesmo tempo que deixaram os bancos e agro-negócio controlarem a economia. Mantiveram juros altos e a independência do banco central, forçaram reformas da previdência e, com o segundo governo Dilma, começaram massivamente a cortar gastos sociais e direitos trabalhistas. É verdade que houve aumento de renda para trabalhadores brasileiros, mas as estatísticas mostram claramente que os que estão no topo da sociedade ganharam proporcionalmente muito mais. Em nome de governabilidade no Congresso e para aprovar tais medidas, abraçaram e fizeram alianças com os piores elementos na política brasileira: o PMDB e todos os partidinhos de aluguel que, num momento de crise econômica e política, aproveitaram para reconquistar todos os seus tradicionais privilégios e poder por meio do golpe. A direita fez o golpe contra Dilma menos por causa do que ela fez e mais porque ela, sob a pressão dos movimentos, não conseguiu impor políticas completas de austeridade.
   
ED: Como você avalia o atual governo interino de Temer?

SP: É um governo ilegitimo que quer implementar um pacote neoliberal completo: corte de gastos nos programas sociais, redução de direitos trabalhistas e sociais e legislação para ajudar negociantes ao custo dos trabalhadores. Porém, já começou fraco pois não tem respaldo democrático e popular algum, sem mencionar que é composto por um bando de corruptos e ladrões que só pensam neles mesmo. É preciso aumentar os atos contra todos os aspectos desse governo, continuando a enfraquecer os golpistas.

ED: Os docentes da USP, categoria da qual você faz parte, estão nesse momento em meio a uma das maiores greves das universidades estaduais paulistas das últimas décadas, enquanto estão ocorrendo também fortes lutas em outros setores da educação. Como você acha que essa luta se relaciona com a atual conjuntura nacional?

SP: As lutas são iguais, sejam contra governos federais, golpistas ou não, e governos estaduais que querem atacar nossos direitos. É preciso lutar contra o golpe e os ataques dos governos estaduais qualquer seja o partido em poder nos estados, inclusive o PT. Creio que as lutas se sobrepõem: uma vitória contra os ataques do PSDB e suas Reitorias reforçam a luta contra o golpe e vice-versa.
    
ED: Frente ao recente caso absurdo do estupro coletivo de uma jovem no Rio as mulheres do país inteiro estão se levantando e organizando-se contra a cultura do estupro. Simultaneamente, vemos a direita tentar apresentar suas resposta como a pena de morte e a castração química para estupradores. Como você avalia essa questão?

SP: As propostas da direita são bárbaras. A pena de morte e castração química vão ser usados contra pobres e negros. As próprias mulheres devem decidir essas questões, mas na minha opinião é preciso continuar as mobilizações contra a cultura de estupro e ao mesmo tempo lutar para plena igualdade para mulheres na sociedade como um todo, inclusive no trabalho. Isto significa direitos sociais e trabalhistas iguais, programas sociais especificas e o direito de escolher aborto.Todo mundo fala que é preciso ter educação; concordo, mas educação vem através de luta para igualdade e liberdade.

ED: Na sua perspectiva, qual é o caminho que as organizações de esquerda e do movimento operário tem que tomar frente à atual conjuntura?

SP: Os atos de diversos movimentos sociais contra os ataques dos golpistas e os governos estaduais são ótimos. Porém, só o poder da classe trabalhadora organizada tem a força de acabar com a agenda neoliberal. Precisamos de greves diversas, construindo um movimento para uma greve geral. Para isso, é preciso largar quaisquer ilusões que o PT vai ser nossa salvação. Precisamos convencer sindicalistas, aliados com o PT e suas organizações ou não, que só ação nos locais de trabalho podem parar os ataques. O melhor exemplo atual é França, onde o movimento operário está mobilizando fortemente contra um governo reformista semelhante ao PT que quer que os trabalhadores pagassem pela crise.
 
ED: Você acompanha o Esquerda Diário e sua rede internacional de diários, particularmente o Left Voice, nosso correspondente americano? O que você acha desta iniciativa de uma rede internacional de diários digitais da esquerda contra o capitalismo?

Acompanho. É uma ótima iniciativa. Nossa classe é internacional; precisamos saber e aprender das lições das nossas irmãs e irmãos no mundo inteiro. 




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