Cultura

PSICANÁLISE

Sabina Spielrein, pioneira da psicanálise

No ano de 1904 pela primeira vez se realizou um tratamento psicanalítico fora da cidade de Viena e sem a supervisão direta de Sigmund Freud, o fundador da ainda jovem psicanálise. O médico a aplicar o tratamento era Carl Gustav Jung, discípulo de Eugene Bleuler, diretor da Clínica do Hospital Burghölzli, ligada à Universidade de Zurique, na Suíça. Sua paciente era a jovem russa Sabina Spielrein.

Fernando Pardal

@fepardal

domingo 3 de maio de 2015| Edição do dia

Foi esse tratamento que levou a que se estabelecesse a relação entre Freud e seu mais célebre discípulo e posterior dissidente, fundador da psicologia analítica, Jung. Muito mais se fala desse tratamento, contudo, retratado, por exemplo, no filme de David Cronenberg, “Um método perigoso”, do que do impressionante e brilhante destino de sua paciente, Sabina Spielrein. Não deixa de ser tristemente representativo de nossa sociedade que essa mulher seja lembrada muito mais pelo fato de ter sido amante de Jung do que pelas contribuições fundamentais que deu à psicanálise e outras áreas do conhecimento.

O “esquecimento” de Sabine Spielrein por cerca de sessenta anos da história da psicanálise, e na qual ainda não foi reinserida com a justiça devida, não é um mero acaso, mas é uma expressão bastante nítida de como uma sociedade patriarcal e machista se manifesta em cada tentativa das mulheres de furar esse cerco. Assim, foi apenas em 1977, quando o analista junguiano Aldo Carotenuto publicou as cartas trocadas entre Sabina, Freud e Jung que ela voltou a ser discutida, ainda que o peso da “anedota” de seu caso amoroso com Jung tenha, mais uma vez, revelado o peso do patriarcado, deixando a obra de Spielrein em segundo plano.

A “segunda analista”

Sabina não foi a primeira mulher a penetrar o então restrito círculo dos pioneiros da psicanálise que se reuniu em torno de Freud. Dois anos após a fundação da Sociedade Psicanalítica de Viena, ocorrida em 1908 com vinte e dois membros – todos homens – foi proposto, por iniciativa de Paul Federn, a admissão da primeira mulher: Margarete Hilferding. Além de uma das primeiras mulheres a se formar na Faculdade de Medicina de Viena, era militante socialista no Partido Social-Democrata da Áustria (SPD), junto a seu companheiro, o célebre economista Rudolf Hilferding, cujo livro “O Capital Financeiro” foi uma das principais fontes econômicas para “O Imperialismo”, de Lênin. É provável que não apenas a condição de mulher, mas também a de militante socialista, tenha pesado para levantar a objeção de Isidor Sadger, membro da sociedade. Freud, então, declarou que seria uma “grosseira inconsistência” se as mulheres não pudessem, por princípio, fazer parte da sociedade. Então, precedendo a votação sobre a adesão específica de Margarete Hilferding, há uma votação sobre se seriam aceitas mulheres na sociedade: a adesão destas é aceita por onze votos a favor e três contra.

Finalmente, na reunião de 27 de abril de 1910 é votada a adesão de Hilferding, após uma discussão em que as posições expressam uma impressionante misoginia, inclusive por parte dos que defendem a aceitação de Hilferding. Inclusive o próprio Freud, defendendo a aceitação da candidata, chega a afirmar que “a mulher nada ganha em estudar, pois, no conjunto, não melhorará por esse caminho, pois as mulheres não podem igualar-se aos homens na obtenção da sublimação da sexualidade”. No entanto, também afirma que na misoginia dos homens há uma atitude infantil. De acordo com Elisabeth Roudinesco, a opinião de Freud sobre a menor capacidade de sublimação das mulheres será alterada no futuro. A ata da reunião é descrita pormenorizadamente por Renata Cromberg em seu excelente artigo “Primeiras psicanalistas”.

É interessante notar que, apesar de um posicionamento político francamente conservador, e de posições por vezes problemáticas sobre o papel das mulheres, Freud tenha defendido enfaticamente a admissão das mulheres na psicanálise, bem como em outras ocasiões defendido que essas deveriam ter um papel protagonista para o estudo do psiquismo das mulheres em questões que ainda considerava não estudadas profundamente. Dessa vez, a opinião de Freud prevaleceu contra o obscurantismo de alguns de seus colegas, mas nem sempre foi assim: quanto à admissão de homossexuais, ele teve seu voto vencido, tendo a IPA (International Psychoanalytical Association) rejeitado sua admissão como psicanalistas, com uma regra que nunca foi escrita mas que barrou o acesso de homossexuais à formação psicanalítica por décadas a partir de 1921. Ainda hoje, a homofobia persiste com força, ainda que não ouse se proclamar tão abertamente, na maior parte das associações psicanalíticas. Outra votação em que Freud quase foi derrotado foi em relação a não admitir a entrada da Sociedade de Psicanálise de Moscou em decorrência do governo operário russo (da qual Sabina Spierlman foi uma das fundadoras). Essas e outras propostas reacionárias que contaram com a objeção de Freud eram consequência da influência de Ernst Jones, um dos grandes responsáveis pela domesticação da psicanálise para que ela pudesse ter uma convivência “pacífica” com o regime nazista mesmo após o exílio de Freud em Londres. Em nome da “neutralidade”, a psicanálise oficialista foi cúmplice de inúmeras outras violações, como o regime militar no Brasil.

O pioneirismo teórico

Sabina Spielrein inicia seu tratamento com Jung em 1904 com apenas dezoito anos e, após a conclusão, forma-se em medicina. Em 1911 ingressa na Sociedade Psicanalítica de Viena, cerca de um ano após a admissão de Hielferding. Suas publicações dessa época colocam Sabina na vanguarda de questões de primeira importância para o desenvolvimento da teoria psicanalítica.

Na medicina, sua dissertação de conclusão de curso, intitulada “O conteúdo psicológico de um caso de esquizofrenia (dementia praecox)” foi um dos primeiros trabalhos a relatar minuciosamente a aplicação da técnica psicanalítica em um caso de esquizofrenia – termo que havia sido apenas recentemente cunhado por Bleuler para designar o que até então era conhecido como “demência precoce”. A dissertação abordava o conteúdo do tratamento de uma paciente e a relação entre sua fala e o conteúdo sexual reprimido, e, ao lado de trabalhos de Jung, Bleuler e Karl Abraham foi fundamental para efetivar a psicanálise como uma terapia efetiva em relação aos pacientes psicóticos.

Em 1912, Spielrein se adianta em nove anos em relação a Freud ao elaborar o conceito de pulsão de morte ou de destruição, em seu artigo “A destruição como causa do devir”. É a partir da análise da esquizofrenia e da neurose, da realização artística e da entrega amorosa, que ela afirma que o conflito entre as pulsões sexuais de vida e as pulsões de destruição e de morte fundem-se na criação do devir, do movimento criador.

Ainda nesse mesmo ano, publica “Contribuições para o conhecimento da psique infantil”, sendo também uma importante desbravadora do terreno da psicanálise com crianças, bem anteriormente do que a historiografia oficial celebra com Anna Freud e Melanie Klein, cuja primeira comunicação diante da sociedade psicanalítica, sete anos depois, seria precedida ainda por dez artigos de Spielrein sobre a análise de crianças. Esse tema seria central em sua produção, dando origem a outros artigos como “A origem das palavras infantis mamãe e papai – sobre o problema da origem e desenvolvimento da linguagem”, de 1920, ou “Algumas analogias entre o pensamento da criança, o do afásico e o pensamento subconsciente”, de 1923. Nesse campo, sua atuação prática também seria grandiosa, como veremos a seguir em relação à sua atuação na Rússia.

Spielrein também teve uma importante parceria com Jean Piaget, que fez análise com ela durante oito meses, seis dias por semana. Juntos, trabalharam com Eduard Claparède no Instituto de Psicologia Experimental e de Investigação do Desenvolvimento Infantil Jean Jacques Rousseau. Desenvolveram em conjunto um trabalho sobre as origens do pensamento e da linguagem e uma teoria da simbolização que, contudo, nunca foi escrita antes que seus caminhos se separassem.

Levando a psicanálise ao país dos sovietes

Após a colaboração com Piaget e Claparéde, Spielrein chegou a residir em Berlim a pedido de Freud, que julgava sua contribuição ali importante. Contudo, em 1923, Sabina partiria para a Rússia revolucionária. Ali, por intermédio de Trotski, que sempre defendera o incentivo e a plena liberdade para o desenvolvimento das investigações psicanalíticas, Spielrein seria muito bem recebida pelo governo operário. Foi convidada por Vera Schmidt a dirigir a clínica psicanalítica para crianças que aquela havia fundado, bem como a inédita experiência do jardim da infância psicanalítico (mais conhecido pelo nome oficial de Lar Experimental para Crianças ou Casa Branca), ambos construídos sob o incentivo do governo soviético, que, mesmo em meio à imensa miséria gerada pela sucessão de duas guerras e do poderoso ataque imperialista à revolução de outubro, encontrou recursos para fomentar essas fascinantes iniciativas. Spielrein também assumiu a chefia do departamento de pedologia (uma ciência soviética que estudava o desenvolvimento da infância, mais um exemplo de como as crianças tinham o primeiro plano nas prioridades do Estado operário) na Universidade de Moscou.

Fundou então, junto a Dimitrievitch Ermakov e Moshe Wulff, a Sociedade Psicanalítica na Rússia, que chegou a ser a mais numerosa de sua época. Sem dúvida, não se poderia ver como simples “coincidência” esse impressionante florescimento da psicanálise na Rússia, justamente no período revolucionário em que houve um maravilhoso desenvolvimento das artes e ciências no rastro da revolução, enquanto na Europa a psicanálise se encontrava cada vez mais estrangulada pelo ascenso do nazi-fascismo que, quando não procurou destruir diretamente a teoria psicanalítica, como com as fogueiras de livros na Alemanha, acabou por “domesticar” a psicanálise, o que gerou seus efeitos devastadores na IPA (Associação Internacional de Psicanálise) sob o comando de Ernst Jones e a conivência de Freud, que mesmo tendo sido obrigado ao exílio em Londres, desejava que a psicanálise mantivesse a posição de “neutralidade” para que pudesse sobreviver em meio ao acirramento bélico que começava a se gestar.

O período de glória da psicanálise na Rússia soviética duraria mais alguns anos, durante os quais Spielrein desenvolveu uma intensa atividade, atuando como analista didata, proferindo seminários e conferências, e emergindo como um verdadeiro pólo de atração de novos cientistas e analistas. Ocupou nesse período três cargos: o já mencionado na cátedra de Pedologia da Primeira Universidade de Moscou; o de consultora médica pedagógica da Terceira Internacional em uma vila de crianças (mais uma experiência social fruto da revolução, muito bem descritas no livro “Mulher, Estado e Revolução” da historiadora Wendy Goldman); e, finalmente, como colaboradora científica no instituto psicanalítico estatal (provavelmente o único instituto público a financiar a psicanálise no mundo nessa época). Sua influência nessa época foi decisiva para nomes como Vygotsky, Leontiev e Luria, três dos mais importantes pioneiros da psicologia soviética.

No entanto, o estrangulamento da revolução nas mãos do estalinismo significou também o fim das possibilidades de desenvolvimento da psicanálise na URSS. Considerada como uma “ciência burguesa” e coberta de injúrias pelo pensamento burocrático e castrador da camarilha que expropriou o poder dos sovietes e da classe operária, a psicanálise foi rapidamente sendo extirpada da União Soviética. Emblematicamente, a Sociedade Psicanalítica Russa foi dissolvida em novembro de 1929, o mesmo mês em que era exilado o dirigente revolucionário Leon Trotski, que havia sido e permaneceria sendo o mais fervoroso combatente pelo legado revolucionário russo, e também quem havia lutado para que a psicanálise tivesse todo o espaço e os recursos necessários para se desenvolver no país dos sovietes. Então, Sabina retornou à sua cidade natal, Rostov sobre o Don. Em 1936, a psicanálise é oficialmente proibida pelo estalinismo. Diante disso, Sabina retornou à música, à qual já havia se dedicado profissionalmente entre 1913 e 1918, e pela qual era apaixonada. A partir de 1929 foi proibida de deixar a Rússia; em 1937, seus irmãos são deportados aos Gulags; em 1942, durante a ocupação nazista, Sabina e suas duas filhas foram assassinadas pelas tropas de ocupação.

Assim, com apenas 56 anos, Sabina Spielrein morreu. Sua vida foi testemunho de uma mulher que superou o peso colossal de uma sociedade patriarcal, vencendo a patologia psíquica que lhe afligiu, a discriminação, contribuindo para o entendimento da mente humana e sendo uma pioneira na investigação. É também um testemunho valioso da grandiosa contribuição que a revolução socialista pode dar para o desenvolvimento do conhecimento humano no sentido da emancipação, bem como do poder castrador da burocratização de um processo revolucionário em curso.

Referências:

http://revistapercurso.uol.com.br/index.php?apg=artigo_view&ida=129&id_tema=54

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-58352012000100007




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