Economia

OPINIÃO

Revolução da robótica ou estagnação a produtividade?

Posições antagônicas. Fatores que revolucionam a vida vs rendimento do trabalho. O sentido de um paradoxo. Robôs em todas partes salvo nas estatísticas.

Paula Bach

Buenos Aires

terça-feira 15 de março de 2016| Edição do dia

O debate sobre o lugar da robótica, a inteligência artificial, a genética e outras tecnologias de ponta no destino da economia capitalista, deu lugar a duas posições claramente antagônicas na teoria oficial.

Por um lado estão aqueles que dizem que as novas tecnologias estão prestes a dar lugar a uma gigante transformação na produtividade gerando uma nova revolução industrial, parteira de um período de auge econômico. Os promotores desta tese, entre eles os especialistas Erik Brinjolfsson e Andrew MacAfee, autores de The Second Machine Age, argumentam - como sintetiza Michel Husson - que as novas tecnologias trazem consigo "uma boa e uma má". A boa é que beneficiará os consumidores através de uma redução de preços, a má é que no transcorrer das décadas vindouras se perderá uma parte considerável do emprego como consequência da substituição do trabalho humano por robôs. Segundo os autores e como cita Michael Roberts "nós estamos caminhando para um mundo no qual haverá muito mais riqueza e muito menos trabalho". De acordo com esta tese, a partir de estudos mencionados também por Roberts, preveem uma perda de 7,1 milhões de empregos - não pela crise, mas sim pelo auge econômico, para clarificar- nas 15 principais economias durante os próximos cinco anos, ao mesmo tempo que se criarão somente dois milhões de novos postos.

Por outro lado, estão aqueles que poderiam ser englobados sob a denominação de "céticos" de um futuro próspero resultante da concorrência entre tecnologia e crescimento econômico. Autores como Robert Gordon - um muito importante especialista norte-americano em produtividade-, invertem a causalidade. Em The rise and fall of American Growth - um livro de publicação recente, centrado na tendência econômica dos Estados Unidos- Gordon argumenta contra os "tecno-otimistas". Ainda que abrigue certo pessimismo com relação à potencialidade das atuais invenções, seu rechaço à ideia de uma futura decolagem espetacularmente rápida da produtividade se sustenta essencialmente em dois fatores. Por um lado, a debilidade do crescimento da produtividade na década prévia e aquilo que denomina os "ventos contrários" que afetam a economia, por outro. A combinação destas duas circunstâncias é o que o leva a prever, ao contrário dos tecno-otimistas, um crescimento econômico futuro mais débil que no passado. É de notar que longe da perspectiva de "fim do trabalho", Gordon identifica a escassez de mão de obra devido ao baixo crescimento populacional, como um dos "ventos contrários" explicativos da atual fragilidade econômica.

Para efeito de análise é necessário dividir o problema da produtividade, daquele do trabalho mesmo que sejam, sem dúvida, um mesmo assunto. Por razões de espaço começaremos com o primeiro problema e abordaremos ambos em textos distintos.

O sentido do paradoxo de Solow

Ainda que seja generalizada a ideia do desenvolvimento de um avanço tecnológico arrasador durante as últimas décadas, é preciso realizar uma distinção. Uma coisa é o desenvolvimento indiscutível de fatores que revolucionaram grande parte da vida na terra como a informática e a telefonia celular ou outros que prometem novas transformações como as impressoras 3D, a robótica ou a genética. Mas outra coisa muito distinta é em que medida tais elementos tiveram a capacidade de modificar o rendimento da produção em seu conjunto ou, dito de outra forma, a produtividade do trabalho. Ainda que a produtividade, obviamente, tenha aumentado durante as últimas décadas, seu crescimento vem ocorrendo num ritmo decrescente desde os anos 1970, como confirmam diversas fontes. De acordo com os dados que levanta Gordon, enquanto a taxa de aumento do produto por hora cresceu nos Estados Unidos a um ritmo de 2,82% por ano no período que se estende entre 1920 e 1970, o fez a um ritmo bastante reduzido de 1,62% no período compreendido entre os anos 1970/2014. Se toma-se em conta o conceito discutível, mas muito em voga na teoria econômica de Produtividade Total dos Fatores (PTF) que mede a velocidade na qual cresce a produção em relação com o aumento de trabalho e insumos de capital incorporados, nos Estados Unidos esta taxa aumentou depois de 1970 em apenas um terço do que o fez entre 1920 e 1970. Por outro lado Gabyn Davies mostra que a produtividade agregada dos países do G7 marca uma tendência declinante contraindo seu ritmo de crescimento até 2,5% durante a década de 1970 se comparamos com um valor próximo de 4% alcançado durante a década de 1960 e chegando posteriormente a aproximar do 1% durante a década de 2000.

Precisamente a contradição entre a presença significativa de novos meios tecnológicos e seu escasso impacto sobre a produtividade originou o que até 1995 Robert Solow definiu como o paradoxo que leva seu nome. Dizia Solow que "Podemos ver a era dos computadores por todos os lados, menos nas estatísticas de produtividade". No entanto, é certo que pouco tempo mais tarde as estatísticas começavam a refletir a comunhão entre os computadores pessoais e as comunicações sob a forma de Internet, a navegação web e o correio eletrônico. Como aponta Gordon, entre 1996 e 2004 a produtividade dobrou a taxa de crescimento médio entre 1972 e 1996. Contudo, aponta, o efeito quebrou em 2004 quando o crescimento da produtividade retornou às taxas médias de 1972-1997 apesar da proliferação das telas planas, dos laptops e dos smartphones na década posterior a 2004. Fazendo com que o paradoxo de Solow retornasse ao centro da cena. Michel Husson sugere que a chamada "nova economia" que deu lugar ao esverdeamento da produtividade por aqueles anos, não foi mais que um ciclo "high-tech". Robert Gordon ressalta, para contrastar, que diferentemente desses poucos anos, o estímulo que gerou, por exemplo, a eletricidade na eficiência industrial provocou uma elevação da produtividade que aumentou com força aos finais dos anos 1930 e durante a década de 1940, dando origem a notável taxa média de crescimento que se estendeu no prolongado período que se desenvolve entre os anos 1920 e 1970.

Além disso, voltando à atualidade, a taxa de crescimento da produtividade nos Estados Unidos retornou depois de aproximadamente 2005 aos débeis padrões do período, mas sofreu uma desaceleração significativamente mais pronunciada no curso dos anos que seguiram à crise de 2008. De acordo com os dados da Conference Board a produtividade norte-americana caiu de 1,2% em 2013 para 0,7% em 2014 e a estimativa para 2015 era de apenas 0,6%. Enquanto isso - como apontamos nesta mesma coluna - o crescimento médio da produtividade do trabalho nas economias desenvolvidas desacelerou de 0,8% em 2013 para 0,6% em 2014.

Finalmente o crescimento acelerado da produtividade na China e nos chamados países "emergentes", contribuiu durante anos para elevar significativamente a média mundial. No gigante asiático a taxa de crescimento da produtividade alcançou durante a década de 2000 um valor médio de 10,7%. Contudo, os limites do "modelo exportador" e a consequente diminuição de sua taxa de crescimento impuseram durante os anos mais recentes uma retração no aumento da produtividade. A taxa de crescimento da produtividade das economias "emergentes" se desacelerou de 3,4% em 2014 para 2,9% em 2015. Segundo a Conference Board o principal fator explicativo deste fenômeno tem que ser buscado na diminuição do crescimento da produtividade chinesa, ainda que deve ser levado em conta também o impacto do crescimento negativo da produtividade na Rússia e Brasil.

Erik Brinjolfsson e Andrew MacAfee, questionam que as estatísticas poderiam não estar refletindo irrefutavelmente a realidade. Num extenso artigo da Foreing Affairs mencionado por Michael Roberts, Martin Wolf aponta que os tecno-otimistas "respondem que as estatísticas do PIB omitem o enorme valor não medido proporcionado pelo entretenimento gratuito e a informação disponível na Internet. Destacam a grande quantidade de serviços baratos ou ’gratuitos’ (Skype, Wikipedia), a escala de (...) entretenimento (Facebook), e a incapacidade de contabilizar plenamente todos estes novos produtos e serviços (...) Por outro lado, dizem os tecno-otimistas que (...) nos produtos e serviços digitais, a diferença entre o preço e o valor para os consumidores, é enorme". Wolf - apoiando-se em grande parte nas concepções de Gordon - lhes responde que por um lado tem que considerar que "o ritmo da transformação econômica e social não só não se acelerou senão que diminuiu nas décadas recentes". E que por outro lado, os aspectos levantados pelos tecno-otimistas "são corretos mas não tem nada de novo: tudo isso tem sido correto repetidamente desde o século XIX. De fato as inovações passadas geraram muito mais valor não comensurado que as relativamente triviais inovações atuais." Entre outros múltiplos aspectos aponta que é preciso "imaginar a passagem de um mundo sem telefones a um fornecido por eles, ou de um mundo de lâmpadas de óleo a um com luz elétrica (...) Durante os dois últimos séculos os avanços históricos tem sido responsáveis por gerar um enorme valor não comensurado. Os veículos a motor eliminam grandes quantidades de estrume das ruas urbanas. O refrigerador previne a contaminação da comida. A introdução da água corrente limpa e as vacinas permitiram diminuições drásticas nas taxas de mortalidade infantil. (...) A introdução da ferrovia, o barco a vapor, o automóvel ou o avião aniquilaram as distâncias". Sem contornar a importância dos avanços atuais, Wolf remarca que por hora e ainda que se tem introduzido muitas mudanças, o impacto de novas tecnologias na produtividade tem sido modesto, "as tecnologias mais recentes destinadas a fins gerais - a biotecnologia e a nanotecnologia, como as mais notáveis - geraram até agora pouco impacto tanto economicamente como em termos gerais".

Sinceramente, os tecno-otimistas não fazem mais que explicar um paradoxo apelando para o mesmo paradoxo. Como também aponta Michel Husson existem aqueles como Lawrence Mishel estão parafraseando Solow: "os robôs estão por todas as partes na imprensa, ainda que seus rastros não apareçam nesses dados".

O dilema dos tecno-otimistas

A explicação para o problema da diminuição do crescimento da produtividade não é simples nem existem posições que possam se considerar conclusivas. Se trata de uma discussão aguda, em curso. Por meio desta coluna e em outros trabalhos, sintetizamos alguns dos principais debates vigentes na teoria econômica oficial e propusemos alguns elementos interpretativos próprios. Distintos autores marxistas como os já mencionado Michael Roberts ou Michel Husson, por outro lado, sugerem diversos elementos para construir uma hipótese explicativa do assunto.

A debilidade do investimento tende a operar como fator argumentativo comum frente ao escasso crescimento da produtividade. Tal como expusemos no Estancamento secular, fundamentos e dinâmica da crise, a questão do investimento constitui uma problemática de longa data que aderiu a resoluções parciais durante os anos 1990 e 2000, mas adquiriu particular intensidade a partir do ano 2008. Assunto que se aprofunda com a recente desaceleração da China e dos chamados "emergentes". Para não lotarmos com dados, remetemos o leitor àquele trabalho.

Michael Roberts mostra uma correlação interessante entre investimento e produtividade. Adverte que a única fase na qual a eficiência econômica aumentou drasticamente nos Estados Unidos durante os 34 anos da revolução da Internet e as tecnologias da informação e da comunicação (TIC) ocorreu depois de um salto surpreendente no investimento de capital na área. A produtividade começa a tomar impulso a partir do ano 1997, isto é três anos depois do início de um forte aumento do investimento que começou em 1994 e que correspondeu majoritariamente ao setor TIC. A partir desse momento se verifica, como coloca Roberts, uma relação na qual para cada ponto de aumento no investimento no PIB, a produtividade aumentará em 0,86 pontos e 0,89 pontos 4 anos mais tarde. A produtividade chega a alcançar uma taxa de crescimento de 3,6% em 2003 representando o valor mais alto em meio século. Justamente o descenso do investimento - que se recupera depois de uma forte baixa em 2001-, começou em 2005. Não casualmente no mesmo momento em que, como apontamos mais acima, a produtividade retornava aos baixos parâmetros do período.

Do nosso ponto de vista, a colocação de Roberts é de grande interesse para refletir sobre a pergunta do título. Nos encontraremos às portas de uma revolução na produtividade? Tragamos para o presente a relação que alguns anos mais tarde respondeu - ao menos parcialmente- na década de 1990 ao paradoxo de Solow. Se estivéssemos frente a um ciclo de forte investimento e baixo crescimento da produtividade naquele momento, talvez se poderia fazer um agouro semelhante. Contudo se consideramos que um grande dilema dos últimos anos se concentra no investimento declinante que os promotores da tese do estancamento secular - e um amplo espectro que inclui até o FMI- definem como um crescente "excesso de poupança", parece muito pouco provável que nos encontremos às portas de um boom de produtividade. Dito isto, sem emitir juízo de valor algum em relação à qualidade dos novos adiantamentos técnicos. O paradoxo de Solow parece estar expressando um problema inclusive mais profundo que aquele dos anos 1990. De outro modo, “haveria” que perguntar aos tecno-otimistas: será que também estão mal as estatísticas que refletem a inversão de capital?

Naturalmente esta discussão remete uma vez mais à complexa relação entre economia real e bolhas que viemos abordando nesta coluna. Mas disso falaremos num próximo texto.




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