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COLONIALISMO

Revoltas em Curaçao: o governo holandês envia o exército

No dia 24 de junho, revoltas eclodiram em Curaçao, ilha holandesa nas Antilhas. Fortemente afetada pela crise sanitária e econômica, é a perda de renda advinda do turismo e a falta de infraestrutura médica que provocou esse levante.

segunda-feira 6 de julho| Edição do dia

Foto: AFP

Esse levante não vem do nada: após sessenta anos, os Países Baixos vêm abandonando, aos poucos, essa ex-colônia, a qual deverá enfrentar o declínio da refinaria e do setor financeiro, os dois motores da economia da ilha. Como detalha o artigo da Médiapart, em 1969, já haviam eclodido revoltas contra o racismo e a atitude colonialista do governo holandês.

Em 2010, os Países Baixo deram mais autonomia à Curaçao em troca de manter a diplomacia e o militarismo, deixando a crise econômica nas mãos do governo local.

O turismo dá sustento à ilha, no entanto também abre a porta para mais trabalho precário ou ilegal. Com a crise sanitária de 2020, o turismo, totalmente fragilizado, leva muitos trabalhadores ao desemprego. Hoje, um em cada dois habitantes precisa de ajuda alimentar para garantir seu sustento.

O imperialismo traduzido em repressão

Willemstad, capital de Curaçao, foi um entreposto para o comércio de escravos, o qual só foi abolido em 1864. Curaçao, hoje habitada pelos descendentes desses escravos, é o que resta do império colonial dos Países Baixos. A política autoritária diante da crise sanitária e a repressão trabalhista traduz a herança imperialista, que está longe de ter desaparecido. Com efeito, para reprimir a revolta, um toque de recolher foi estabelecido entre 21h e 6h enquanto se aguardava pela chegada do exército holandês. Essa solução como último recurso mostrou como o governo holandês controla, ainda, essa antiga colônia; presentes para reprimir os habitantes, para obter lucros e roubar seus recursos, contudo ausentes para ajudar na crise econômica e sanitária.

O primeiro-ministro dos Países Baixos, Raymond Knops, exprimiu claramente seu ponto de vista sobre essa ilha das Antilhas: “Estamos ajudando essas pessoas, mas as ilhas devem parar de gastar mais estruturalmente do que ganham". Um discurso colonialista, que se posiciona como um salvador ocidental, dando lições de moral. Ademais, o governo holandes não tem problemas com chantagens inadimissíveis. Ele exige uma baixa de 12,5% dos salários dos funcionários públicos e uma diminuição no efetivo de pessoal para aceitar um aporte de ajuda financeira equivalente a 370 milhões de euros. Com essa estratégia, Raymond Knops se coloca como um “pai” que ensina a seus filhos como gerenciar seu dinheiro, uma atitude típica herdada do imperialismo.

São as antigas colônias como Curaçao que são as mais afetadas pela crise sanitária; por um lado pela falta de meios e infraestrutura para lidar com o COVID-19 e para a alta taxa de desemprego já presente, e por outro lado, pela política dos governos imperialistas que deixam a ilha em segundo plano. Curaçao não é um exemplo isolado. Na França, reconhecemos um comportamento imperialista similar com a gestão da crise na Guiana, antiga colônia francesa, onde a gestão catastrófica da crise sanitária colocou o território sob grande estresse, fora a quarentena repressiva e do toque de recolher autoritário.

No entanto, esses habitantes não se enganam e demonstram isso em suas revoltas, capazes de criar uma força tão forte até para fazer o exército holandês atravessar o oceano Atlântico.




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